Impressionante colônia de 100 mil formigas quenquém na UEM vira centro de estudo e educação em Maringá

Colônia de 100 mil formigas - Divulgação/ASC/UEM Foto: Colônia de 100 mil formigas - Divulgação/ASC/UEM

Mais de 100 mil formigas quenquém habitam um laboratório na Universidade Estadual de Maringá (UEM), no bloco 4, um dos prédios mais antigos do campus. O espaço, conhecido como Laboratório de História, Ciências e Ambiente (LHC), é um ponto de encontro para pesquisadores de diferentes níveis acadêmicos e surpreende por abrigar essa vasta colônia.

Longe de ser apenas uma curiosidade peculiar, a presença dessas formigas transformou-se em um recurso didático e investigativo poderoso. Elas auxiliam na explanação de conceitos complexos em diversas áreas, como biologia, saúde pública, ecologia, cooperação e até mesmo as dinâmicas sociais humanas.

A coordenação do LHC está a cargo do professor Christian Fausto Moraes dos Santos, do Departamento de História da UEM, que estabeleceu um ambiente inovador onde disciplinas como História, Biologia, Medicina, Alimentação, Saúde e Ambiente se entrelaçam. Essa abordagem interdisciplinar cativa tanto estudantes quanto visitantes.

O professor Santos explica que o LHC se dedica a dialogar constantemente com as ciências, o meio ambiente e a sociedade. Ele ainda revela que o nome do laboratório é uma referência brincalhona ao Grande Colisor de Hádrons (LHC) da Física, mas, em vez de colidir partículas, o laboratório de Maringá promove o diálogo entre diversas áreas do conhecimento, incluindo Antropologia e Cultura Material.

Este centro multifuncional atua como polo de pesquisa, formação acadêmica e disseminação científica. Suas linhas de estudo abrangem desde a História das Ciências Naturais e da Alimentação até a História das Ciências da Saúde, investigando temas variados como epidemias, medicamentos, alimentação de rua, plantas, animais peçonhentos, saberes indígenas e até mesmo o racismo científico. Contudo, é impossível abordar o laboratório sem destacar suas habitantes mais célebres.

A presença surpreendente das formigas no ambiente acadêmico

Viver e trabalhar ao lado de uma colônia com aproximadamente 100 mil formigas pode parecer uma situação atípica. No entanto, para o professor Christian, essa convivência faz parte do dia a dia e se tornou um dos maiores diferenciais pedagógicos do laboratório da UEM.

Ele descreve a experiência de compartilhar o espaço com as formigas como “curiosíssima”, pois elas funcionam simultaneamente como objeto de estudo, material de ensino e até mesmo como “colegas de trabalho” para a equipe.

O professor observa que as formigas assumem o protagonismo em cada visita ao local. Mesmo que as pessoas cheguem interessadas em outros elementos do laboratório, como livros ou fósseis, a visão da colônia em plena atividade desvia completamente o foco da conversa, encantando a todos.

A admiração surge porque, ao observar a colônia, os visitantes notam uma estrutura social extremamente elaborada. O que se apresenta inicialmente como um inseto comum, na realidade, revela um complexo sistema de esforço e organização coletiva.

Muitas pessoas chegam ao laboratório com a visão de que a formiga é apenas uma praga, responsável por danos em jardins ou residências. No entanto, ao testemunharem a dinâmica interna da colônia, a perspectiva muda drasticamente. Os visitantes percebem a existência de uma sociedade intrincada, com especialização de tarefas, prática de agricultura, rigoroso cuidado sanitário, gestão ambiental e intensa cooperação.

Como as formigas quenquém praticam a agricultura

As formigas quenquém foram escolhidas para o estudo por um motivo específico: elas desafiam a noção de que insetos são criaturas simples ou puramente instintivas. Conforme Christian, essas formigas são “animais sociais extremamente complexos”, desmontando rapidamente preconceitos comuns. Uma das características mais fascinantes delas reside em sua alimentação, pois, embora coletem folhas continuamente, não as consomem diretamente.

As folhas recolhidas são levadas para o interior da colônia, onde são meticulosamente preparadas, higienizadas e servem como substrato para o cultivo de um fungo, que constitui sua verdadeira fonte de alimento. Essa prática complexa as qualifica como “formigas agricultoras”. Este fato notável demonstra que as quenquéns já desenvolviam métodos agrícolas avançados muito antes de a humanidade estabelecer seus próprios sistemas de cultivo, oferecendo um vislumbre da sofisticação da natureza em escalas micro.

Dentro do laboratório, os estudantes têm a oportunidade de observar a divisão de funções na colônia, desde as operárias que forrageiam em busca de folhas até aquelas que cuidam do fungo e da manutenção sanitária do ninho. Há, inclusive, uma área específica que funciona como um “cemitério sanitário”, onde são descartados materiais que poderiam oferecer riscos à saúde da colônia.

Para o professor, o comportamento das formigas oferece lições valiosas para a própria sociedade humana. Ele sugere que, se as formigas pudessem nos dar uma aula, a principal mensagem seria que nenhuma sociedade complexa consegue prosperar sem cooperação, cuidado com o meio ambiente e atenção à saúde coletiva.

A missão de tornar a ciência acessível através de projetos educativos

Além de ser um centro de pesquisa acadêmica, um dos pilares do laboratório é democratizar o acesso à ciência para o público em geral. Essa meta foi amplificada com a criação do projeto “História com Ciência” nas redes sociais. A ideia é apresentar curiosidades históricas e científicas de forma cativante, visando despertar o interesse imediato das pessoas.

O professor Christian enfatiza a intenção de criar conteúdos breves que levem o público a uma reflexão instantânea, a ponto de pensar “nossa, eu nunca tinha pensado nisso”. Um dos assuntos que mais impacta os seguidores é a história do curare, um veneno indígena amazônico que teve um papel crucial no desenvolvimento da cirurgia moderna.

Muitas pessoas conhecem a palavra “curare” apenas como sinônimo de veneno, mas poucos sabem que o conhecimento indígena amazônico relacionado a ele foi fundamental para a evolução da cirurgia. Outro exemplo intrigante aborda a medicina do século 19, quando a demanda por corpos para estudos de anatomia deu origem a um mercado ilegal de cadáveres e a grandes escândalos públicos.

O laboratório também explora histórias que combinam fascínio científico com momentos de absurdo histórico. Um dos casos mais chocantes envolve kits radioativos que eram comercializados para crianças durante a Guerra Fria. Na década de 1950, existia um brinquedo educativo que incluía um contador Geiger e amostras de elementos radioativos, inclusive urânio, vendido para os pequenos.

Outros tópicos mais delicados, como o racismo científico, são discutidos para mostrar como a autoridade da ciência foi utilizada, ao longo da história, para validar desigualdades e atos de violência. O racismo científico do século 19, em particular, ilustra como a ciência foi instrumentalizada para justificar a escravidão, o colonialismo e a violência.

Estratégias de engajamento para o aprendizado da ciência

Para Christian, o ensino da ciência transcende a mera transmissão de informações. Ele acredita que o verdadeiro objetivo é despertar a curiosidade, incentivar questionamentos e demonstrar a conexão direta do conhecimento científico com o cotidiano de todos.

No LHC, esse processo ocorre de forma quase espontânea. A combinação de livros, fósseis, microscópios antigos, plantas carnívoras, artefatos históricos e uma colônia de formigas vivas transforma o laboratório em um ambiente de pura descoberta e encanto. Isso justifica por que o professor enxerga o local como a realização de um sonho de infância, quando a figura do cientista o fascinava profundamente.

Ao abrir as portas do laboratório para a comunidade, o propósito permanece claro: mostrar que a ciência está intrinsecamente ligada à vida das pessoas. Esse conjunto de elementos ajuda a revelar uma verdade fundamental: a ciência possui uma história, um contexto, debates, erros, conquistas, beleza e um impacto direto e profundo na vida humana.

A prova mais vívida dessa conexão talvez esteja nas pequenas trabalhadoras que atravessam o laboratório diariamente, carregando folhas muitas vezes maiores que seus próprios corpos. Mesmo antes de qualquer aula formal começar, essas formigas já estão, em sua própria dinâmica, transmitindo valiosas lições.

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