Terra e Marte: estudo na Nature Astronomy mostra que planetas vizinhos se formaram por processos opostos

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Marte Foto: Marte - Shiva Perumal/shutterstock.com

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, demonstra que a Terra e Marte se formaram por mecanismos opostos no início do Sistema Solar. Publicada em 25 de setembro de 2026 na revista científica Nature Astronomy, a pesquisa aponta que a composição rochosa terrestre resultou majoritariamente do acúmulo de fragmentos milimétricos e centimétricos, enquanto o planeta vizinho cresceu a partir de choques violentos entre grandes corpos espaciais.

De acordo com os cientistas liderados por Haiyang S. Wang e pelo coautor Anders Johansen, ambos da instituição dinamarquesa, os dois mundos se originaram de uma combinação de materiais, mas em proporções invertidas. “Ficamos genuinamente surpresos”, afirmou o cientista planetário Anders Johansen ao comentar a constatação de sua equipe sobre os caminhos distintos seguidos pelos dois planetas vizinhos.

Proporções de seixos e asteroides na formação da Terra e de Marte

Planeta Terra - kingsparkmedia/shutterstock.com
Foto: Planeta Terra – kingsparkmedia/shutterstock.com

Para determinar a origem dos materiais que compõem os dois planetas, a equipe utilizou simulações computacionais e modelagem estatística baseada em inferência bayesiana, um método matemático que calcula a probabilidade de diferentes hipóteses a partir das pistas químicas disponíveis nas rochas. Os cálculos indicaram que a Terra cresceu inicialmente pela união de dois protoplanetas (embriões planetários em fase de formação) que haviam acumulado pequenos seixos espaciais e depois colidiram entre si. Já Marte seguiu uma rota dominada pelo impacto de planetesimais, que são blocos rochosos maiores semelhantes ao asteroide Vesta.

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Os dados numéricos do estudo detalham a divisão exata de matéria-prima e as características físicas observadas nos dois planetas:

  • 75% da massa rochosa da Terra teve origem em seixos espaciais que formaram dois protoplanetas antes de uma grande colisão.
  • 25% é a proporção máxima da massa terrestre adicionada posteriormente pelo bombardeio de planetesimais semelhantes ao asteroide Vesta.
  • 73% da massa de Marte foi acumulada por meio de colisões com objetos maiores empobrecidos em elementos químicos voláteis.
  • 27% da massa marciana veio da captura direta de pequenos seixos espaciais.
  • 4,5 bilhões de anos é a idade aproximada em que ambos os planetas se formaram ao redor do jovem Sol.
  • 1/10 é a proporção da massa total de Marte em comparação com a massa da Terra.

Análise de elementos voláteis na crosta da Terra e de Marte

A descoberta sobre a origem distinta dos dois mundos baseia-se na medição da perda de elementos químicos moderadamente voláteis — substâncias que evaporam facilmente sob altas temperaturas, como sódio, potássio, lítio e zinco. Na comparação com meteoritos antigos, que preservam o registro original da matéria-prima do Sistema Solar, tanto a crosta quanto o manto da Terra e de Marte apresentam concentrações reduzidas desses quatro elementos químicos.

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O comportamento dessas substâncias varia conforme o mecanismo de crescimento do planeta. Quando um protoplaneta cresce pela acreção de seixos, sua gravidade captura um envelope gasoso composto por hidrogênio e hélio do disco espacial ao redor; à medida que os pequenos fragmentos atravessam essa atmosfera densa e quente, os elementos voláteis sofrem sublimação, passando diretamente do estado sólido para o gasoso, e são varridos de volta para o espaço por correntes convectivas antes de tocarem o solo. Por outro lado, nas colisões entre rochas espaciais maiores, o calor extremo também vaporiza parte desses componentes e os lança no espaço, mas o aumento de tamanho dos corpos envolvidos permite que uma fração dos voláteis fique soterrada nas profundezas e seja preservada.

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Debate histórico sobre Júpiter e a diferença entre Terra e Marte

A diferença de tamanho e de condições ambientais entre a Terra, caracterizada pela biodiversidade, e Marte, hoje um deserto frio e irradiado, intriga a astronomia há décadas. Durante esse período, os pesquisadores se dividiram entre duas hipóteses concorrentes para explicar o surgimento de planetas rochosos: a aglomeração suave de pequenos fragmentos contra a sucessão de colisões violentas entre blocos quilométricos.

Além do debate sobre o tamanho dos fragmentos, a comunidade científica costuma atribuir a massa reduzida de Marte à interferência direta de Júpiter. A gravidade intensa do maior planeta do Sistema Solar teria capturado e desviado parte dos blocos rochosos que estavam na trajetória orbital de Marte durante seu estágio embrionário. Cientistas também apontam que o campo gravitacional de Júpiter pode ter funcionado como uma barreira física, impedindo que enxames de seixos vindos das regiões externas do Sistema Solar chegassem em grande volume à órbita marciana.

Avaliação de cientistas independentes sobre o modelo da Terra e de Marte

A proposta de um modelo híbrido, que une seixos e asteroides na mesma linha do tempo da formação planetária, recebeu avaliações cautelosas de pesquisadores que não participaram do trabalho da Universidade de Copenhague. Para Tim Lichtenberg, líder do Laboratório de Formação de Mundos da Universidade de Groningen, nos Países Baixos, a pesquisa traz avanços metodológicos. “O artigo abre novos caminhos ao combinar esses processos em um quadro coerente”, afirmou o pesquisador.

Apesar do avanço, outros especialistas destacam que a modelagem computacional se apoia em simplificações matemáticas que impedem uma resposta final sobre as porcentagens exatas de cada material. O cientista planetário Paolo Sossi, da instituição suíça ETH Zurich, avaliou que cravar a proporção precisa de seixos na receita de ambos os planetas “está fora de cogitação” diante das variáveis envolvidas, embora reconheça que o padrão químico de perda de voláteis indique que “os seixos podem ter participado da formação da Terra”.

Na mesma linha de cautela, o cosmoquímico Conel Alexander, pesquisador da entidade norte-americana Carnegie Science, observou que a combinação de sódio, potássio, lítio e zinco representa apenas uma parte das evidências necessárias para reconstruir o passado do Sistema Solar, já que diferentes processos físicos podem gerar assinaturas químicas parecidas. “O artigo é intrigante”, declarou Alexander sobre a pesquisa dinamarquesa, acrescentando em seguida que o resultado “certamente não é a resposta definitiva”. Segundo o cosmoquímico, diante da natureza caótica do nascimento dos planetas, “é bom que as pessoas assumam posições opostas e debatam até chegar a uma conclusão”.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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