Maior seca da história do Brasil levou a pico de 14 anos nas queimadas

    Categories: BrasilTopNews
Seca no Brasil

Seca no Brasil - Foto: Cacio Murilo

Seca atinge níveis críticos em 2024 e supera registros anteriores

O Brasil enfrenta, em 2024, a seca mais extensa de sua história, atingindo regiões como a Amazônia e o Pantanal com intensidade sem precedentes. O número de focos de incêndio no país entre janeiro e a última segunda-feira chegou a 164.543, de acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), tornando este o pior período desde 2010. A situação se agrava em biomas como o Pantanal, onde as chuvas estão abaixo da média desde 2019.

Recorde de áreas afetadas pela estiagem

A seca de 2024 já afeta cerca de 5 milhões de km², cobrindo 59% do território brasileiro, conforme alerta emitido pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Este é o maior índice de áreas atingidas desde a seca de 2015-2016, que impactou 54% do país. A nota técnica do Cemaden destaca que, além do Pantanal, estados como Amazonas, Acre, Mato Grosso e São Paulo sofrem há 12 meses consecutivos com a falta de chuvas.

Impactos do El Niño e do aquecimento dos oceanos

Cientistas apontam que o fenômeno climático El Niño, em combinação com o aquecimento do Oceano Atlântico, contribuiu para a intensificação da seca deste ano. As chuvas, que já foram escassas em 2023, não foram suficientes para repor a umidade do solo e dos aquíferos, o que agravou a situação em 2024. O climatologista Tercio Ambrizzi, da USP, alerta que esse cenário pode se repetir nos próximos anos, com a previsão de secas mais frequentes no Norte e Nordeste.

Pantanal e Amazônia: biomas vulneráveis

O Pantanal, um dos biomas mais afetados pela estiagem, tem registrado chuvas abaixo do esperado desde a década de 1980. A situação crítica se estende também à Amazônia, onde secas severas e cheias extremas vêm se alternando nas últimas duas décadas. Especialistas afirmam que o desmatamento e as mudanças climáticas intensificam o problema, reduzindo a umidade do solo e agravando a severidade das secas.

Incêndios dobram em relação a 2023

Além da falta de chuvas, o Brasil enfrenta um aumento expressivo no número de queimadas em 2024. O volume de incêndios é o dobro do registrado em 2023, com todos os biomas, exceto o Pampa, apresentando alta nos focos de fogo. O clima seco favorece a propagação das chamas, mas especialistas reforçam que a maioria dos incêndios é iniciada de forma intencional, e não acidental. Christian Berlinck, especialista do ICMBio, afirma que incêndios naturais são raros no Brasil, especialmente em períodos de seca.

Regiões mais afetadas pela seca prolongada

A estiagem deste ano afeta gravemente estados no Norte, Centro-Oeste e Sudeste do país. Regiões como o Triângulo Mineiro, São Paulo e parte da Amazônia já enfrentam 12 meses consecutivos de seca. O Cemaden ressalta que apenas algumas áreas no Norte e Sul do Brasil apresentam condições mais favoráveis, com menos de 30 dias consecutivos sem chuva.

Recorde histórico: a pior seca no Norte de Minas

De acordo com um estudo da USP, publicado na revista Nature Communications, partes do Cerrado, como o Norte de Minas Gerais, enfrentam a pior seca em 700 anos. Pesquisadores chegaram a essa conclusão comparando dados climáticos atuais com informações de estações meteorológicas e análises de fósseis e rochas. O estudo destaca que a aridez iniciada em 2023 se intensificou devido à falta de recarga dos aquíferos e à evaporação acelerada pelo calor.

Mudanças climáticas e desmatamento agravam a situação

É consenso entre os cientistas que as mudanças climáticas, associadas ao desmatamento, são responsáveis por tornar as secas mais intensas e frequentes no Brasil. A destruição da vegetação reduz a umidade e contribui para a queda das chuvas, especialmente em regiões como a Amazônia. O Cemaden destaca que essa combinação de fatores torna o país mais vulnerável a períodos de estiagem prolongada e queimadas descontroladas.

Previsão de chuva atrasada para quase todo o país

A previsão de chuvas para 2024 não traz alívio imediato. Mapas meteorológicos indicam que o Brasil permanecerá praticamente seco até o final de setembro, com exceção de algumas áreas no Rio Grande do Sul e extremo Norte da Amazônia. De acordo com Marcelo Seluchi, meteorologista e coordenador do Cemaden, as chuvas mais significativas só devem retornar ao país no início de outubro, agravando ainda mais os efeitos da seca prolongada.

Governo anuncia criação da Autoridade Climática

Em resposta à crise ambiental, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, durante visita ao Amazonas, a criação de uma Autoridade Climática. A nova instituição tem como objetivo coordenar ações para mitigar os impactos das mudanças climáticas e combater desastres naturais como a seca e os incêndios. A medida faz parte de uma promessa de campanha de Lula, em parceria com a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.

Histórico de secas no Brasil

Embora o Brasil tenha registrado secas graves em outras ocasiões, o fenômeno atual é mais amplo em extensão territorial e intensidade. No Nordeste, por exemplo, a seca de 1877 a 1879 foi responsável por uma das maiores tragédias climáticas do país, resultando na morte de cerca de 500 mil pessoas. Agora, a seca se espalha para diferentes regiões do Brasil, afetando diretamente biomas sensíveis como o Pantanal e a Amazônia.

Impacto da seca no acesso à água

Com a queda acentuada do nível dos rios, comunidades ribeirinhas no Norte do país enfrentam dificuldades para acessar água potável. No Rio Madeira, por exemplo, moradores precisam caminhar longas distâncias sobre bancos de areia expostos pela seca para coletar água. Este é o menor nível do rio registrado em quase seis décadas, agravando as condições de vida em áreas remotas e dificultando o transporte fluvial.

As causas da seca prolongada

A combinação de fatores climáticos, como o aquecimento dos oceanos e o fenômeno El Niño, foi determinante para a intensificação da seca. A estação seca de 2024 começou mais cedo, em abril, e as chuvas pararam completamente em várias regiões do Sudeste, Centro-Oeste e Norte a partir de maio. Além disso, a falta de reposição da umidade do solo nos meses anteriores deixou o país ainda mais vulnerável.

Desafios para o combate às queimadas

Especialistas enfatizam que, embora o clima seco favoreça a propagação das queimadas, elas só ocorrem por ação humana. Estudos demonstram que fontes acidentais, como bitucas de cigarro ou reflexos de vidro, têm pouca influência no início dos incêndios. Karla Longo, do Inpe, reforça que a maioria dos focos de fogo começa com o uso intencional de fósforos ou isqueiros, muitas vezes alimentados por substâncias inflamáveis.

Veja Também