Quando a morte vira escolha: eutanásia e suicídio assistido na Suíça

Antonio Cicero

Antonio Cicero - Foto: Reprodução/ TV Globo

A morte do poeta e filósofo Antonio Cicero reacendeu o debate sobre o suicídio assistido, uma prática permitida em poucos países. Aos 79 anos, Cicero, que fazia parte da Academia Brasileira de Letras, optou por encerrar sua vida na Suíça, ao lado de seu marido, o figurinista Marcelo Pies, após enfrentar anos de problemas neurológicos causados pelo Alzheimer. A decisão do escritor trouxe à tona a distinção entre eutanásia e suicídio assistido, práticas que são legalizadas em pouquíssimos lugares no mundo, mas ainda cercadas de controvérsias e debates éticos profundos.

Eutanásia ou suicídio assistido: entenda a diferença

Para quem não está familiarizado com esses termos, eutanásia e suicídio assistido podem parecer a mesma coisa, mas há uma distinção fundamental entre os dois. A eutanásia envolve o ato de um médico ou profissional de saúde administrar diretamente uma substância letal ao paciente. Esse procedimento, que tem como objetivo abreviar o sofrimento de uma pessoa em estado terminal ou que vivencia uma condição insuportável, é proibido no Brasil e na maioria dos países.

O suicídio assistido, por outro lado, também é uma prática que visa encerrar a vida de uma pessoa em sofrimento, mas neste caso, o paciente é quem, de forma autônoma, toma a substância letal, que lhe é prescrita por um médico. Essa prática, ainda mais restrita que a eutanásia, é permitida na Suíça, onde Antonio Cicero optou por fazer o procedimento. Essa escolha foi resultado de uma longa reflexão, segundo seu companheiro, e Cicero insistiu que seu círculo mais íntimo não soubesse dos preparativos.

A Suíça e a prática do suicídio assistido

A Suíça se destaca no cenário internacional como um dos primeiros países a legalizar o suicídio assistido, desde 1942. A legislação suíça permite que cidadãos do mundo inteiro recorram a essa prática, o que tem feito do país um destino para aqueles que enfrentam doenças incuráveis ou condições de sofrimento extremo. O artigo 115 do Código Penal Suíço estipula que qualquer pessoa que ajude outra a cometer suicídio sem razões egoístas não estará infringindo a lei. Assim, o país estabelece uma linha tênue entre a assistência ao suicídio e o que poderia ser considerado uma influência maliciosa.

A lei suíça não utiliza explicitamente o termo “eutanásia”, embora essa palavra seja amplamente usada de forma incorreta. A diferença é que, na Suíça, é sempre o paciente quem administra a dose letal, cumprindo um dos princípios centrais do suicídio assistido: a autonomia total sobre o processo. Contudo, o processo não é rápido nem simples. O paciente passa por uma análise rigorosa, que inclui a apresentação de laudos médicos e consultas, além de ser avaliado por organizações como a Dignitas e Pegasos, que são referências no suporte à morte assistida.

Critérios éticos e médicos: quem pode recorrer ao suicídio assistido?

Diante de uma prática tão sensível, a Academia Suíça de Ciências Médicas estabeleceu parâmetros éticos para garantir que o procedimento seja realizado de forma responsável. Entre os critérios, a pessoa precisa ser maior de idade, em plena capacidade de tomar decisões e estar sofrendo de uma condição que gere “sofrimento insuportável”. Esses critérios abrem espaço para um debate ético: o que pode ser considerado sofrimento insuportável? A falta de especificidade nas diretrizes permite que o procedimento seja autorizado tanto para pacientes com doenças terminais quanto para aqueles que enfrentam doenças psicológicas debilitantes, como a depressão.

Esses critérios flexíveis atraem estrangeiros de diversos países para a Suíça, como foi o caso de Antonio Cicero. O poeta, diagnosticado com Alzheimer, uma doença neurodegenerativa sem cura, encontrou na morte assistida uma saída para encerrar seu sofrimento de forma digna, antes que sua condição o privasse completamente de suas faculdades mentais.

Outros países que permitem eutanásia ou suicídio assistido

A Suíça não está sozinha na permissão de práticas como a eutanásia e o suicídio assistido, embora seja um dos poucos países que aceita pacientes estrangeiros. De acordo com a Associação Médica Britânica (BMA), cerca de 10 países permitem uma dessas práticas de maneira regulamentada, a maioria localizada na Europa. Entre eles, Holanda e Bélgica são frequentemente citados como referências, já que legalizaram a eutanásia e o suicídio assistido, embora com requisitos rígidos para os procedimentos.

Na Holanda, por exemplo, é necessário que a pessoa sofra de uma condição sem perspectiva de melhora e que o sofrimento seja considerado insuportável. A eutanásia pode ser realizada tanto por uma doença física quanto por condições psicológicas graves, desde que todos os critérios médicos e legais sejam cumpridos.

Em contraste, países como o Reino Unido e a maior parte dos Estados Unidos ainda proíbem essas práticas, classificando-as como ilegais e imorais, apesar de existirem estados norte-americanos, como Oregon e Califórnia, que adotaram leis específicas que permitem o suicídio assistido em condições rigorosas.

Um procedimento cercado de debates

A escolha pelo suicídio assistido ou eutanásia ainda divide opiniões ao redor do mundo. Para alguns, a prática representa a liberdade de escolha em seu grau máximo, permitindo que a pessoa decida o fim de sua vida com dignidade, especialmente em situações de sofrimento extremo. Para outros, a ideia de permitir que alguém encerre sua vida, mesmo com supervisão médica, levanta preocupações éticas, morais e religiosas, especialmente quando se trata de doenças mentais.

O caso de Antonio Cicero, por exemplo, abre espaço para uma reflexão profunda sobre os limites da escolha e da autonomia. A progressão do Alzheimer é marcada pela perda gradual das funções cognitivas, e o poeta, consciente de seu diagnóstico, optou por não esperar que a doença avançasse ao ponto de comprometer sua qualidade de vida de forma irreversível. Essa decisão, embora tomada com plena consciência, levanta a questão: até que ponto a sociedade está preparada para aceitar a escolha da morte como um direito individual?

Debate global sobre o futuro dessas práticas

Com o envelhecimento da população global e o aumento de doenças degenerativas, a discussão sobre eutanásia e suicídio assistido tende a se intensificar. Países que atualmente proíbem essas práticas podem ser forçados a reconsiderar suas leis à medida que mais pessoas buscam alternativas para encerrar o sofrimento causado por doenças incuráveis.

No Brasil, tanto a eutanásia quanto o suicídio assistido são considerados crimes. No entanto, o avanço dos direitos humanos e a luta pelo direito à autonomia pessoal têm impulsionado debates que questionam essa proibição. Embora ainda haja forte resistência, especialmente por motivos religiosos e culturais, o caso de Antonio Cicero pode catalisar uma nova rodada de discussões sobre o tema no país.

Listas de países com legislação sobre o assunto

Os países que permitem a eutanásia ou o suicídio assistido incluem:

  • Holanda: permitidos ambos, sob condições específicas.
  • Bélgica: também legalizou as duas práticas, com critérios rígidos.
  • Luxemburgo: segue um modelo semelhante aos países vizinhos.
  • Canadá: legalizou a eutanásia em 2016.
  • Colômbia: um dos poucos países latino-americanos a permitir a prática.
  • Espanha: legalizou a eutanásia em 2021.
  • Nova Zelândia: legalizou a eutanásia em 2021, após um referendo.
  • Alemanha: permite o suicídio assistido, mas não a eutanásia ativa.
  • Suíça: permite o suicídio assistido, inclusive para estrangeiros.
  • Austrália: alguns estados permitem o suicídio assistido.

Embora a morte assistida continue a ser um tema controverso, é inegável que a prática proporciona uma saída para quem não vê mais qualidade de vida. Compreender as diferenças entre eutanásia e suicídio assistido, além das legislações envolvidas, é fundamental para um debate mais consciente e informado sobre o direito de escolha no fim da vida.

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