Era setembro de 2017 e o trabalho da médica Melanie Walker com Bill Gates chegava ao fim. Por mais de uma década, Walker atuou na Fundação Gates e, depois, no escritório particular do bilionário. No verão de 2017, o relacionamento entre Walker e Gates passou a ser sexual, segundo pessoas a par do assunto. Walker planejava sua saída.
Ela recorreu a um de seus confidentes mais próximos, um mentor que a apoiava e orientava havia quase três décadas: Jeffrey Epstein.
“Com bg. Basta você dizer que eu contei tudo para Jeffrey – tudo”, escreveu Epstein em mensagem de texto. Walker respondeu que estava “preocupada que ele vá retaliar imediatamente contra mim”.
Quando Gates comparecer ao Congresso esta semana, terá de responder sobre essas trocas contidas nos arquivos liberados pelo Departamento de Justiça. O papel misterioso desempenhado por Walker, que manteve laços próximos com os dois homens, deve ser examinado pela primeira vez.
A médica de Seattle é uma das várias figuras que integravam o círculo de Epstein. Ela afirmou ter sido apresentada a Epstein por Donald Trump nos anos 1990. Estabeleceu relação próxima com o príncipe Andrew, da Grã-Bretanha, e foi parceira de longa data de Steven Sinofsky, ex-executivo da Microsoft que também tinha conexões com Epstein.
No entanto, ela pode ter sido mais relevante como uma das pessoas que ajudaram Epstein a se inserir no mundo de Gates após a condenação dele em 2008 por solicitação de prostituição de menor. Isso ocorreu a partir de sua posição na fundação filantrópica do cofundador da Microsoft e, em seguida, em seu escritório privado.
A Fundação Gates iniciou investigação própria sobre suas conexões com Epstein, conduzida pelo escritório de advocacia WilmerHale, segundo pessoas familiarizadas com o caso. Os investigadores questionaram sobre Walker e a natureza de sua relação com Gates.
Comparada a outros associados de Epstein, Walker, hoje com 54 anos e professora na UW Medicine, permaneceu em grande parte fora do radar público, embora seu nome e algumas mensagens dos arquivos de Epstein tenham aparecido em reportagens.
Seu perfil discreto foi mantido, em parte, com ajuda de seu advogado, que pediu ao Departamento de Justiça que ocultasse seu nome nos arquivos. Ela não alegou abuso sexual por Epstein e não apresentou reclamações contra o espólio dele; o advogado solicitou a supressão do nome com base no fato de Epstein tê-la apresentado a dois contatos profissionais que ela rejeitou após eles fazerem propostas sexuais.
Embora seu nome esteja oculto, pessoas familiarizadas com o assunto identificaram sua correspondência e descreveram suas interações com Gates e Epstein. Com o tempo, a relação de Walker com Gates e sua ex-esposa, Melinda French Gates, tornou-se tensa, mostram os documentos. Ainda assim, ela parecia leal a Epstein, amigo e benfeitor de longa data, até a morte dele em 2019.
Em declaração, o advogado de Walker, David Fleissig, a descreveu como “uma sobrevivente de Jeffrey Epstein” que tinha histórico prévio de abuso e depois suportou “um relacionamento coercitivo que durou décadas e terminou apenas com a morte dele. Além disso, ela prefere não fazer nenhum comentário no momento”.
Um porta-voz de Gates afirmou que ele “não tinha conhecimento da natureza da relação entre Walker e Epstein, de seus motivos compartilhados ou dos detalhes de sua história juntos”.
“A correspondência entre Epstein e Walker revela que Epstein incentivava ativamente Walker a buscar um relacionamento sexual com Gates”, disse o porta-voz de Gates.
No verão de 2017, Walker confidenciou a Epstein sobre encontros que tivera com Gates. Na época, ela havia deixado a fundação, mas permanecia em contrato de consultoria de curto prazo no escritório particular dele, onde apresentava ideias para que Gates apoiasse. Ela deixou o escritório particular ainda naquele ano.
“O relacionamento entre Walker e Gates foi consensual e terminou de forma amigável”, afirmou o porta-voz. “Walker continuou a contatar Gates periodicamente por anos depois.”
Gates expressou publicamente arrependimento por seus contatos com Epstein, que ele disse terem sido um erro e não envolveram conduta ilícita. “Gates nunca teve relacionamento impróprio com qualquer funcionário da Fundação Gates ou da Gates Ventures, e nenhuma queixa alegando o contrário jamais foi feita”, acrescentou o porta-voz.
Grande admiração
Melanie Starnes, como era conhecida na época, cresceu em Laredo, no Texas, filha de um veterano da Força Aérea. Walker contou a várias pessoas que conheceu Epstein e Trump no Plaza Hotel no início dos anos 1990, após se formar com honras na Universidade do Texas. (Em e-mail de 2018 apresentando um neurocirurgião a Epstein, ela escreveu: “Conheço Jeffrey há 28 anos e isso não é brincadeira — Donald Trump nos apresentou”.)
Inicialmente, Epstein e Walker discutiram a possibilidade de ela ser modelo da Victoria’s Secret. Mas, ao conversarem, ele mudou de rumo, segundo o que Walker relatou a pessoas. Esqueça a modelagem, ele aconselhou. Em vez disso, ela deveria cursar medicina.
Ela fez isso e eles mantiveram contato. Registros mostram que ela listou um endereço em um prédio de apartamentos em Nova York, no 301 East 66th Street, o mesmo edifício onde Epstein controlava várias unidades nas quais abrigava associados e vítimas. Epstein também a nomeou sua “assessora científica”.
Walker desenvolveu uma relação com Andrew Mountbatten-Windsor, então conhecido como príncipe Andrew, após apresentação de Ghislaine Maxwell, associada de longa data de Epstein. Em entrevista de 2003 ao Mail on Sunday, Walker deu uma ideia dessa relação, dizendo ao tabloide britânico que o então príncipe a chamava de “Mel”, “Dork” e “smarty pants”, e que eles falavam principalmente de ciência e medicina.
No início dos anos 2000, ela morava com Sinofsky, então alto executivo da Microsoft, em Seattle, após conhecê-lo em um jantar de tecnologia que também contou com a presença do príncipe Andrew. Em 2006, Walker começou a trabalhar na Fundação Gates. Na época, a organização se assemelhava mais a uma startup em rápido crescimento do que ao gigante global de saúde que se tornaria.
Foi na fundação que ela se aproximou de Boris Nikolic, imunologista treinado em Harvard que era o principal assessor científico de Gates. Em 2009, ao saber que Nikolic assumiria cargo no escritório particular de Gates, ela o levou para almoçar e fez o que equivalia a uma apresentação de Epstein, segundo Nikolic. “Eu nunca tinha ouvido falar de Jeffrey Epstein antes disso”, disse ele ao Wall Street Journal.
Durante o almoço, Walker elogiou Epstein como o homem que a colocou no caminho da medicina, segundo ele, e minimizou a condenação de 2008. Nikolic disse que conheceu Epstein pela primeira vez naquele dezembro.
Em e-mail de outubro de 2009 para Epstein, ela sugeriu que ele a colocasse para dirigir a fundação dele e informou que Nikolic passaria a trabalhar integralmente com Gates, informação que descreveu como confidencial. “Ele vai querer saber se pode confiar em você e quanto pode te contar”, escreveu ela sobre Nikolic. “Acho que só leva tempo.”
Anos depois, Epstein ajudaria Nikolic a negociar sua separação de 2013 do escritório particular de Gates. (Foi um serviço que Epstein prestou também a Sinofsky quando ele deixou a Microsoft em 2012, mostram os arquivos do Departamento de Justiça.) Um porta-voz de Sinofsky declinou comentar. Nikolic, que trocou centenas de mensagens com Epstein, disse que se arrepende profundamente de suas interações com ele e que Epstein era um “manipulador mestre”.
Há outras indicações nos arquivos do Departamento de Justiça de Walker endossando Epstein para pessoas do círculo da Fundação Gates. Em setembro de 2010, por exemplo, ela enviou e-mail para Alex Friedman, que havia deixado recentemente o cargo de diretor financeiro da fundação, elogiando Epstein e brincando que poderia atestar “um total de 20 anos de mau comportamento” da parte dele. Friedman respondeu, notando que ouvira Walker falar de Epstein “sempre com grande admiração”.
Friedman disse ao Journal que nunca tinha ouvido falar de Epstein antes de Walker mencioná-lo e interpretou a observação no e-mail como uma referência “irônica” a alguém que ela conhecia havia muito tempo.
Muito discreto
Para Epstein, Gates era o prêmio máximo. Acesso a um dos homens mais ricos do mundo, com sua fundação de bolsos profundos e poder de convocação sem igual em saúde global, daria a Epstein a legitimidade que ele buscava após a condenação de 2008.
Em janeiro de 2011, Epstein planejava se reunir com Gates. Antes do encontro, Walker enviou e-mail a Gates para prepará-lo, chamando Epstein de “um de meus amigos mais próximos”. Ela discutiu as visões dele sobre pobreza global e creditou a Epstein sua decisão de cursar medicina.
Ela transmitiu a filosofia pessoal de Epstein como “só faça o que te faz feliz”. Acrescentou: “As pessoas mais bonitas do mundo ficam em torno de Jeffrey. Ele é muito discreto. Só dizendo…”
Gates disse que se reuniu várias vezes com Epstein entre 2011 e 2014, inclusive em sua residência em Nova York, para discutir filantropia. Epstein tentou sem sucesso convencer Gates a criar um fundo global de doadores com o JPMorgan e descobriu alguns dos casos extraconjugais do bilionário.
Por volta de 2013, Walker deixou a Fundação Gates e foi para o Banco Mundial por meio de uma cessão, o que significava que a fundação continuava pagando seu salário. Ela se tornou assessora sênior do presidente Jim Yong Kim.
Em agosto de 2014, Walker enviou a Gates o que parecia ser um alerta sobre Epstein: Gates deveria manter “uma distância saudável para qualquer coisa de natureza pessoal” ao lidar com Epstein.
Epstein, escreveu ela, tinha “espécimes humanos incríveis” à disposição, mas alertou sobre consequências que ela vira “acontecer com gente poderosa demais ao longo dos anos”. Ela também observou que Epstein tenta apelar para as “fraquezas ou inclinações” de seus alvos.
Enquanto Epstein tentava avançar com Gates, ele enfrentava resistência da esposa do cofundador da Microsoft, que — após uma noite na residência de Manhattan — disse que nunca mais queria vê-lo. Walker também parecia despertar o descontentamento de French Gates, que era co-presidente da fundação.
Em várias mensagens para Epstein, Walker reclamou de hostilidade da parte dela. “Melinda está agindo contra mim pelos canais da fndn. Preciso sair o mais rápido possível”, escreveu ela em troca de textos com Epstein em setembro de 2014. Uma porta-voz de French Gates declinou comentar.
Vestido azul
Em janeiro de 2017, os arquivos do Departamento de Justiça mostram que Epstein perguntou de forma crua se Walker havia feito sexo com Gates. Não, ela respondeu, descrevendo em vez disso como eles “enlouqueceram no quadro branco” enquanto a equipe de Gates esperava do lado de fora da porta.
“Tivemos cerca de 3 minutos no início para respirar fundo e ficar só nós dois ali”, escreveu ela, acrescentando que Gates reclamava “de estar velho demais e eu disse que ele ainda era um pouco jovem demais para mim”.
Naquele ano, Walker deixou a fundação e entrou no escritório particular de Gates. Foi por volta dessa época que o relacionamento deles se tornou sexual, e em mensagens para Epstein ela descreveu alguns de seus encontros com Gates.

