Casas e veículos foram incendiados durante a onda de violência anti-imigrante que se espalhou por várias áreas da Irlanda do Norte na noite passada, depois de um ataque com faca que deixou um homem gravemente ferido.
Homens encapuzados atearam fogo em diversas residências que eles acreditavam abrigar imigrantes na capital Belfast, enquanto a polícia era atingida por objetos arremessados por centenas de manifestantes que tomaram as ruas após a divulgação de um vídeo do ataque com faca. Um homem sudanês foi acusado de tentativa de homicídio.
Incêndios atingem residências de imigrantes em Belfast
Yara Navrotska, ucraniana que reside na cidade, afirmou que a experiência foi aterrorizante. Ela contou que a porta da frente de sua casa pegou fogo um pouco depois que a residência do vizinho foi incendiada. “Eu estava com meu cachorro dentro de casa, então precisei sair pela porta dos fundos”, relatou ela à Reuters.
Ela completou que imaginou que a casa tinha sido escolhida porque se tratava de uma rua com muitos imigrantes. Navrotska ainda observou que as pessoas não demonstram muita simpatia por determinados grupos de imigrantes.
A violência começou depois que ativistas contrários à imigração exploraram um vídeo explícito do ataque sofrido por um homem de 40 anos em Belfast, conteúdo que se espalhou rapidamente.
A vítima, identificada depois como Stephen Ogilvie, deu entrada no hospital com ferimentos graves nos olhos, no rosto e nas costas.
Família e políticos pedem fim da violência
A família de Ogilvie repudiou a violência e fez um apelo por tranquilidade. “O protesto pacífico é o único caminho a seguir”, declararam em nota divulgada após uma audiência sobre o caso. “Temos muitos migrantes que oferecem uma contribuição extremamente valiosa ao nosso país… Não queremos que esta terrível tragédia seja usada para dividir as pessoas ou incentivar a hostilidade”, afirmaram eles.
Embora esses pedidos tenham sido repetidos por vários políticos, as manifestações ganharam força nas redes sociais por meio de ativistas de extrema-direita, entre eles Stephen Yaxley-Lennon, conhecido também como Tommy Robinson, e o bilionário do setor de tecnologia Elon Musk.
Durante a noite, Musk compartilhou novamente diversas mensagens nas redes sociais em que criticava a situação no Reino Unido. “Só protestando REPETIDAMENTE e EM ALTO E BOM SOM haverá alguma mudança”, escreveu ele em resposta a uma publicação de Robinson.
Após receber críticas de figuras como a presidente do Partido Trabalhista Anna Turley, que qualificou as postagens de Musk como “terríveis”, “gravemente erradas e prejudiciais”, o empresário respondeu no X: “O que está deixando as pessoas com raiva são imigrantes assassinos decapitando pessoas inocentes em suas cidades natais, não as ‘mídias sociais’!”.
Políticos dos dois lados do governo de compartilhamento de poder na Irlanda do Norte repudiaram os atos de violência. A primeira-ministra Michelle O’Neill, do partido nacionalista irlandês Sinn Féin, descreveu o episódio como “vandalismo” em nota oficial.
“Grupos de homens mascarados que incendeiam casas e expulsam famílias de seus lares representam nada menos que um ato de covardia repugnante”, declarou ela.
O Serviço Policial da Irlanda do Norte informou que Hadi Alodid, de 30 anos, suspeito do ataque que provocou os distúrbios, é sudanês que chegou à Irlanda do Norte vindo da República da Irlanda em 2023, pediu asilo e obteve autorização de residência por cinco anos.
Não existem indícios de que o ataque tenha ligação com terrorismo e a polícia declarou que não busca outros suspeitos.
Alodid teve o pedido de fiança recusado no Tribunal de Magistrados de Belfast na quarta-feira, ocasião em que o juiz distrital Stephen Keown foi informado de que a vítima perdeu um olho no ataque.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, condenou o ataque com faca como “repugnante” e disse que “não tolera cenas de violência abomináveis como essa em nossas ruas”.
O esfaqueamento acontece em meio a protestos recorrentes contra a imigração, com partidos populistas sustentando que a política de asilo do Reino Unido permitiu a entrada de indivíduos perigosos no país. Tumultos anti-imigração já haviam ocorrido na Irlanda do Norte no ano passado, motivados por revolta diante de uma suposta agressão sexual.
Na semana passada, um caso distinto, o de um estudante universitário esfaqueado até a morte em Southampton, na Inglaterra, em dezembro, foi explorado por ativistas e pelo vice-presidente JD Vance, que atribuíram a violência à imigração.
Henry Nowak, que era branco, foi morto por Vickrum Digwa, um sikh que alegou falsamente à polícia ter sido vítima de um ataque racista praticado por Nowak. Quando os agentes chegaram, trataram inicialmente o Nowak ferido como suspeito, antes de identificarem o ferimento e tentarem reanimá-lo.
Digwa foi condenado por assassinato pelo esfaqueamento de Nowak e recebeu sentença na semana passada de prisão perpétua, com período mínimo de 21 anos para cumprimento. O caso, porém, gerou intensos debates sobre policiamento e questões raciais, e um protesto pela morte de Nowak descambou para a violência, com manifestantes atacando policiais com cadeiras e pedras.
Em entrevista separada à Sky News do Reino Unido, Anselme Shima relatou que a fumaça de um ônibus incendiado começou a invadir a casa onde mora com seus três filhos. “As crianças perguntam: ‘Papai, estamos bem? Estamos seguros?’”, contou ele, acrescentando que ficou chocado com a violência. “Meu apelo é: podemos viver em paz juntos em vez de lutarmos uns contra os outros?”, concluiu.

