A relação entre Mavi e Iberê na novela Mania de Você levanta discussões sobre o conceito de broderagem, termo que mistura afeto e amizade entre homens com ou sem conotação sexual. A intensidade da relação entre o patrão Mavi e seu funcionário Iberê vem chamando a atenção dos espectadores da novela Mania de Você, não pelas ações de vilania, mas pela química entre os personagens. A conexão entre os dois, cheia de trocas de olhares e cumplicidade, despertou a torcida de internautas para que formem um casal. Nos comentários das redes sociais, muitos discutem a possibilidade de um romance e associam a relação ao conceito de “broderagem”.
O que é broderagem?
Broderagem é um termo que se origina da palavra inglesa “brother”, utilizada como “irmão”, e evoluiu no Brasil para descrever laços de amizade entre homens. Esse termo vai além da amizade comum, sugerindo uma ligação mais próxima, que em algumas situações pode ter um componente sexual, mesmo entre homens que se identificam como heterossexuais. De acordo com a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da Faculdade de Medicina da USP, a broderagem refere-se tanto a relações afetivas quanto, em certos casos, a interações físicas. Carmita explica: “É uma expressão utilizada para falar sobre um vínculo afetivo entre homens, que pode incluir ou não um contexto sexual.”
A relação entre Mavi e Iberê, além de ser uma forte amizade, carrega uma tensão que levou o público a levantar discussões sobre as várias formas que a broderagem pode assumir. Embora não haja confirmação de romance entre eles, a aproximação dos personagens provoca os fãs a explorarem as múltiplas interpretações da relação.
Broderagem em outros contextos
O conceito de broderagem se popularizou também em filmes e séries, como em Deadpool e Wolverine, onde a amizade próxima entre os personagens, vividos por Ryan Reynolds e Hugh Jackman, gerou brincadeiras e comentários sobre um possível romance. Essa “atmosfera bromântica” – termo derivado de “brother” e “romance” – sugere um elo profundo, mas sem necessariamente indicar um relacionamento amoroso. A conexão entre amigos próximos é explorada nas narrativas de modo a demonstrar um nível de lealdade e apoio que transcende a amizade tradicional.
Outro exemplo dessa conexão foi visto no filme Rivais, onde dois ex-melhores amigos, Art e Patrick, interpretados por Mike Faist e Josh O’Connor, são envolvidos em uma trama de amor e competição. A amizade conturbada e a atração implícita entre os personagens criam um enredo onde a linha entre amizade e atração sexual se torna tênue, trazendo para a ficção uma reflexão sobre o poder, o desejo e os limites do afeto entre homens.
A broderagem na vida real: além da ficção
Embora a broderagem seja comumente retratada em produções artísticas, ela também faz parte da vida cotidiana de muitos homens, independentemente de sua orientação sexual. Na sociedade, ainda há estigmas em torno da demonstração de afeto entre homens, o que leva a relações de broderagem a serem interpretadas de forma diversa. O psicólogo e sexólogo Caio Graneiro destaca que essa aproximação pode ou não envolver relações íntimas. “Esse afeto pode ser visto apenas como uma amizade intensa, ou então envolver uma troca com conotação sexual, mas sem que isso defina a orientação sexual de alguém”, explica.
A sexualidade, segundo Graneiro, é construída por três elementos: comportamento, desejo e identidade. Comportamento é o que a pessoa faz – por exemplo, se há envolvimento físico. Já o desejo representa a atração ou fantasia da pessoa, enquanto a identidade é como ela se enxerga sexualmente. “Sozinho, nenhum desses elementos determina a orientação sexual. Alguém pode ter o desejo e comportamento, mas não se identificar como homossexual, por exemplo.”
A escala de Kinsey e as nuances da sexualidade
A ideia de que a sexualidade humana é diversa e complexa foi explorada pela primeira vez por Alfred Kinsey, sexólogo e biólogo americano, no século XX. Ele criou a escala de Kinsey, um espectro que vai de 0 a 6, para representar a atração que uma pessoa pode sentir, em maior ou menor grau, por pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto. A psiquiatra Carmita Abdo explica que essa escala é uma referência importante para entender o espectro da sexualidade.
Kinsey categorizou as pessoas como:
- Exclusivamente heterossexual
- Predominantemente heterossexual, com experiência ocasional homossexual
- Heterossexual com frequência homossexual moderada
- Bissexual
- Predominantemente homossexual, com experiência heterossexual ocasional
- Homossexual com frequência heterossexual moderada
- Exclusivamente homossexual
A escala foi revolucionária ao destacar que a sexualidade humana não é uma categoria fixa, mas sim um espectro que inclui experiências diversas, onde muitos transitam em diferentes momentos da vida.
Exigência de liberdade e ausência de preconceitos
A psiquiatra Carmita Abdo também sublinha que, em relações como a de Mavi e Iberê, o que mais importa é a liberdade pessoal e a ausência de autopreconceito. Ela observa que a sociedade, muitas vezes, é mais permissiva com demonstrações de afeto do que o próprio indivíduo. “A questão central é a própria aceitação. Algumas pessoas têm uma tendência homossexual, mas não se aceitam e, por isso, buscam manter relações próximas com o mesmo sexo sem reconhecer uma preferência sexual.” Segundo Abdo, o autoconhecimento e a liberdade de viver essas experiências de forma consensual são essenciais para o bem-estar emocional.
Marcadores culturais e machismo
Na visão de Graneiro, a construção social afeta diretamente como os homens expressam afeto uns pelos outros. A presença de um estigma em torno do afeto masculino, geralmente associado ao machismo, é uma barreira que inibe a demonstração de carinho e companheirismo entre homens. Ele afirma que “é comum que homens evitem o afeto por receio de serem considerados homossexuais, o que é um reflexo da cultura machista”. Esse preconceito faz com que gestos de carinho e intimidade entre homens sejam, muitas vezes, interpretados de maneira equivocada e levem à sexualização indevida de suas interações.
Para as mulheres, por outro lado, a liberdade de demonstrar carinho é incentivada desde cedo. As meninas podem segurar as mãos, abraçar e expressar afeto de forma espontânea, o que reduz a necessidade de rótulos específicos, como ocorre com os homens. Segundo Graneiro, isso ocorre porque o afeto feminino é visto como natural, enquanto o afeto masculino é carregado de pressuposições e preconceitos sociais.
Impacto e repercussão social
A broderagem, apesar de ser um conceito relativamente novo na discussão pública, tem um papel importante ao desafiar normas e promover uma reflexão sobre as limitações impostas às relações masculinas pela sociedade. No caso de Mavi e Iberê, é evidente que o público está disposto a repensar esses padrões e aceitar formas de afeto que não precisam, necessariamente, ser definidas por rótulos convencionais. Afinal, como aponta o psicólogo Graneiro, o afeto entre homens não deveria ser motivo de especulação ou polêmica, mas sim uma expressão de amizade e apoio.
Os exemplos recentes em novelas e filmes reforçam a ideia de que a conexão entre homens pode ser tanto intensa quanto ambígua, e que a sociedade está cada vez mais aberta a novas interpretações e discussões sobre o tema. Essa ampliação de perspectivas permite que os homens explorem suas relações e sentimentos sem o peso de preconceitos, em um cenário onde o afeto pode ser livre, sem julgamentos.
