Um grupo de foliões jogando altinha no Camarote Mar, localizado no setor 6 da Marquês de Sapucaí, virou o centro das atenções no carnaval do Rio de Janeiro. O episódio, registrado em vídeo na sexta-feira, dia 28 de fevereiro, durante o desfile da escola Arranco do Engenho de Dentro, da Série Ouro, resultou em duas multas aplicadas pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) na terça-feira, dia 4 de março. Além da prática da altinha — um jogo em que os participantes mantêm uma bola no ar usando os pés —, o camarote também foi penalizado pelo uso de um drone sem autorização, infringindo normas rígidas da organização do evento. As imagens, que viralizaram nas redes sociais, desencadearam uma onda de críticas entre amantes do carnaval, que viram na atitude um desrespeito ao esforço das comunidades das escolas de samba. A Liesa, responsável pela gestão dos desfiles, agiu rapidamente para coibir as infrações, mas o caso reacendeu discussões sobre o comportamento nos espaços VIPs e a chamada “camarotização” da folia carioca.
A brincadeira, que aconteceu em plena apresentação da Arranco do Engenho de Dentro, foi captada por alguém nas arquibancadas e rapidamente espalhada na internet. A escola, que integra a Série Ouro — equivalente à segunda divisão do carnaval do Rio —, desfilava com seus componentes dedicados a contar uma história na avenida, enquanto, a poucos metros dali, os convidados do Camarote Mar pareciam alheios ao espetáculo. A reação do público online foi imediata, com comentários que destacaram a falta de atenção ao trabalho das agremiações e até especulações sobre o que poderia ter ocorrido caso a bola caísse na pista de desfile. A Liesa, que estabelece regras claras para os camarotes, como a proibição de atividades que interfiram nos desfiles, aplicou as multas para reforçar a necessidade de respeito à essência do carnaval.
Enquanto o Camarote Mar lidava com as consequências, outros espaços VIPs também enfrentaram sanções. O Nosso Camarote, conhecido por sua estrutura imponente no setor 10, foi notificado por exceder o limite de volume sonore o Arpoador, outro ponto badalado da Sapucaí, recebeu advertências tanto pelo som alto quanto pelo uso irregular de um drone. Esses incidentes mostram que a fiscalização da Liesa está atenta às infrações, mas também evidenciam os desafios de equilibrar a animação dos camarotes com a tradição dos desfiles. O carnaval de 2025, que começou no fim de fevereiro e segue até o desfile das campeãs no dia 8 de março, já registra um aumento na vigilância para garantir que a festa preserve seu caráter cultural.
Repercussão da altinha expõe tensões no carnaval
O vídeo da altinha no Camarote Mar não passou despercebido nas redes sociais, onde rapidamente se tornou um símbolo de polêmica. Internautas apontaram a atitude como um exemplo de desrespeito ao trabalho árduo das escolas de samba, que passam meses preparando enredos, fantasias e coreografias para brilhar na Sapucaí. Frases como “a gente não pode levar uma latinha e tem gente jogando altinha a poucos metros da avenida” circularam amplamente, refletindo a frustração de quem vê o carnaval como uma celebração coletiva, e não apenas uma festa particular. A Arranco do Engenho de Dentro, que desfilava no momento do incidente, é uma escola tradicional da zona norte do Rio, fundada em 1973, e estava lutando por uma boa colocação na Série Ouro para sonhar com o retorno ao Grupo Especial.
A crítica à “camarotização” ganhou força com o episódio. O termo, que já vem sendo debatido há anos, refere-se à crescente influência dos camarotes de luxo na Sapucaí, que atraem famosos, turistas e um público disposto a pagar milhares de reais por ingressos all-inclusive. Esses espaços, como o Camarote Mar, oferecem open bar, shows exclusivos e vistas privilegiadas dos desfiles, mas nem sempre os ocupantes parecem focados no que acontece na avenida. Escritores e jornalistas especializados em carnaval engrossaram o coro, destacando que, embora os camarotes tragam receita significativa às escolas, comportamentos como o da altinha cruzam um limite simbólico, desafiando a essência da festa.
Outras infrações marcam a fiscalização na Sapucaí
Além da altinha, o uso de drones sem permissão foi outro motivo de punição ao Camarote Mar e também ao Camarote Arpoador. A Liesa determina que apenas equipamentos autorizados podem sobrevoar a avenida, uma medida de segurança para evitar acidentes ou interferências nos desfiles. O Camarote Mar, que está em seu quinto ano na Sapucaí e promete uma “experiência inesquecível” com mais de 2.500 metros quadrados de estrutura, viu sua reputação abalada pelas infrações. Já o Arpoador, famoso por sua frisa extensa e serviços de autoatendimento, acumulou problemas com o drone e o som excessivo, que chegou a atrapalhar a concentração das escolas durante suas apresentações.
O Nosso Camarote, por sua vez, foi advertido exclusivamente pelo volume de som acima do permitido. Localizado no setor 10, próximo à cabine dos jurados, o espaço é um dos maiores da Sapucaí e já foi palco de shows de artistas como Anitta e Ludmilla em edições anteriores. A notificação por som alto não é novidade no carnaval carioca, mas a repetição do problema em 2025 indica que os camarotes ainda enfrentam dificuldades em adequar suas festas internas às regras da Liesa. A organização alertou que, em caso de reincidência, os espaços podem perder o direito de exploração comercial na Sapucaí, uma punição severa que afetaria suas operações futuras.
Camarotes sob pressão em um carnaval histórico
A edição de 2025 do carnaval do Rio de Janeiro já entrou para a história por mudanças significativas na estrutura dos desfiles. Pela primeira vez, o Grupo Especial foi dividido em três dias — domingo, segunda e terça-feira —, com término mais cedo, por volta das 4h da manhã, para aproveitar a iluminação natural e reduzir o cansaço do público. A Série Ouro, que inclui escolas como a Arranco do Engenho de Dentro, abriu a festa nos dias 28 de fevereiro e 1º de março, enquanto o desfile das campeãs está marcado para o sábado, dia 8. Nesse contexto, os camarotes têm papel duplo: são fonte de receita para as agremiações e polos de entretenimento, mas também testam os limites da organização do evento.
O Camarote Mar, por exemplo, promove uma programação intensa, com shows de artistas como Ferrugem, Péricles e Belo ao longo dos dias de desfile. Sua localização no setor 6, com uma varanda de quase 60 metros de frente, garante uma vista privilegiada, mas o incidente da altinha mostrou que nem todos os convidados estão ali para assistir às escolas. A Liesa, que já arrecadou milhões com a venda de ingressos para arquibancadas, frisas e camarotes, depende dessa receita para financiar o espetáculo, mas não hesita em punir quem descumpre as normas. Em 2024, por exemplo, foram aplicadas multas a pelo menos cinco camarotes por infrações semelhantes, um sinal de que a fiscalização vem se intensificando.
Cronograma dos desfiles e incidentes na Sapucaí
O carnaval de 2025 na Sapucaí seguiu um calendário bem definido, mas os incidentes nos camarotes marcaram a festa. Veja como foram os primeiros dias:
- 28 de fevereiro: Desfile da Série Ouro, com a Arranco do Engenho de Dentro; altinha registrada no Camarote Mar.
- 1º de março: Segunda noite da Série Ouro; fiscalização intensifica vistorias nos camarotes.
- 2 de março: Início do Grupo Especial, com som alto notificado no Nosso Camarote.
- 3 de março: Segunda noite do Grupo Especial; drone irregular flagrado no Arpoador.
- 4 de março: Última noite do Grupo Especial; Liesa aplica multas ao Camarote Mar e outros.
O desfile das campeãs, no dia 8, promete fechar a temporada com as melhores escolas, mas os camarotes estarão sob os holofotes da fiscalização.
Regras da Liesa que os camarotes devem seguir
A Liesa estabelece normas rigorosas para os camarotes, visando proteger a integridade dos desfiles. Algumas das principais incluem:
- Proibição de atividades que interfiram na avenida, como jogos ou objetos que possam cair.
- Uso exclusivo de drones autorizados pela organização.
- Controle de volume sonoro para não prejudicar as apresentações das escolas.
- Credenciamento obrigatório com camisa oficial e biometria facial para acesso.
Essas regras, embora claras, nem sempre são plenamente respeitadas, como mostram os casos recentes.
Debate sobre o futuro dos camarotes na Sapucaí
Enquanto a Sapucaí vibrava com os desfiles, o incidente da altinha no Camarote Mar reacendeu um debate antigo sobre o papel dos camarotes no carnaval. Há quem defenda que esses espaços VIPs são essenciais para a economia da festa, trazendo patrocinadores e turistas que injetam milhões na cidade. Em 2024, a venda de ingressos para camarotes ultrapassou os 20 milhões de reais, segundo estimativas, ajudando a custear fantasias, alegorias e ensaios das escolas. Por outro lado, críticos argumentam que a desconexão de parte do público dos camarotes com os desfiles ameaça a alma do carnaval, transformando-o em uma festa elitizada e distante das raízes populares.
A Arranco do Engenho de Dentro, diretamente afetada pelo episódio, representa essa tradição. Com um enredo que celebra a cultura carioca, a escola levou à avenida cerca de 2.000 componentes, muitos deles moradores de comunidades que dedicam meses de trabalho voluntário à preparação. O contraste com a altinha no Camarote Mar ficou evidente, e a multa, embora bem-vinda por alguns, não apaga a sensação de desvalorização sentida por sambistas. A Liesa, pressionada a agir, pode endurecer ainda mais as regras para 2026, mas o equilíbrio entre lucro e cultura segue sendo um desafio.
Impacto nas redes sociais e na imagem do Camarote Mar
As redes sociais amplificaram a polêmica em torno do Camarote Mar. O vídeo da altinha, visto por milhares de pessoas, gerou uma enxurrada de comentários negativos, muitos deles chamando a atitude de “grotesca” e “desrespeitosa”. O espaço, que se promove como “o mais carioca da Sapucaí”, viu sua imagem associada a um incidente que contradiz o espírito da festa. Apesar disso, a programação de shows e o conforto oferecido — com open bar premium e uma das maiores frisas da avenida — continuam atraindo um público fiel, que paga entre 2.000 e 7.000 reais por noite, dependendo do dia e do pacote.
O Nosso Camarote e o Arpoador, também notificados, enfrentam críticas semelhantes, mas em menor escala. O som alto, embora irritante para quem está na avenida, é visto como parte da experiência VIP, enquanto o uso de drones reflete uma busca por registros exclusivos para redes sociais. A Liesa, ao multar os três camarotes, sinaliza que não tolerará excessos, mas o episódio da altinha deve permanecer como o marco negativo do carnaval de 2025, alimentando discussões sobre como a Sapucaí pode seguir sendo o palco do maior espetáculo da Terra.
