A morte do papa Francisco, aos 88 anos, em 21 de abril de 2025, marcou o fim de um pontificado que transformou a Igreja Católica com reformas progressistas, foco em questões sociais e uma abordagem mais inclusiva. Agora, o Vaticano se prepara para um conclave que promete ser um dos mais disputados da história recente, com 135 cardeais de 71 países reunidos para eleger o próximo líder de 1,4 bilhão de fiéis. O processo, que deve começar entre 5 e 10 de maio, será decisivo para determinar se a Igreja seguirá o caminho traçado por Francisco ou adotará uma postura mais conservadora, reacendendo debates sobre o futuro da instituição em um mundo marcado por secularização, escândalos e polarização ideológica.
O conclave, um ritual de quase 800 anos, ocorre na Capela Sistina, onde os cardeais eleitores, todos com menos de 80 anos, votam em segredo até que um candidato obtenha dois terços dos votos. Francisco, que nomeou 80% dos atuais eleitores, diversificou o Colégio de Cardeais, dando maior representatividade a regiões como Ásia, África e América Latina. Apesar disso, a ausência de um favorito claro e as divisões entre progressistas e conservadores sugerem que o processo será longo e complexo, com possíveis surpresas, como ocorreu na eleição de Jorge Bergoglio em 2013, quando o argentino emergiu como um nome inesperado após cinco rodadas de votação.
Enquanto fiéis em todo o mundo, de Yangon a São Paulo, rezam pelo futuro da Igreja, o conclave também reflete tensões globais. A eleição do próximo papa não é apenas uma questão espiritual, mas um evento com implicações geopolíticas, influenciando temas como mudanças climáticas, direitos humanos e diálogo inter-religioso. A escolha definirá se a Igreja manterá o tom pastoral de Francisco, que priorizou os marginalizados, ou se voltará a uma linha doutrinária mais rígida, como defendem setores conservadores que resistiram às suas reformas.
- O que está em jogo no conclave: A sucessão de Francisco coloca em xeque reformas como a maior inclusão de leigos e mulheres na Cúria, a abertura a católicos LGBTQ+ e o foco na justiça social.
- Um processo secreto: Os cardeais ficam isolados, sem contato com o exterior, sob juramento de sigilo, o que torna o conclave um dos eventos mais herméticos do mundo.
- Diversidade inédita: Com eleitores de 71 países, o conclave de 2025 é o mais global da história, contrastando com os 48 países representados em 2013.
Conclave: um ritual de séculos sob pressão moderna
O conclave, termo derivado do latim cum clave (com chave), remonta ao século XIII, quando o papa Gregório X formalizou o processo para evitar demoras na escolha do pontífice. Após a morte de Clemente IV, em 1268, a eleição de seu sucessor levou quase três anos, com os cardeais trancados pela população de Viterbo para forçar uma decisão. Desde então, o sistema evoluiu, mas mantém sua essência: um grupo restrito de cardeais, isolado na Capela Sistina, vota até alcançar a maioria de dois terços. Hoje, o processo é regido pela constituição apostólica Universi Dominici Gregis, de João Paulo II, com ajustes feitos por Bento XVI em 2007 e 2013.
A modernidade, no entanto, impõe novos desafios. A Igreja enfrenta a secularização no Ocidente, onde o número de fiéis diminui, enquanto cresce em regiões como África e Ásia. Escândalos de abusos sexuais e disputas internas sobre doutrina também pesam. Francisco, com sua ênfase em uma Igreja “em saída” e missionária, tentou responder a essas questões, mas enfrentou resistência de setores tradicionalistas. O próximo papa herdará uma instituição dividida, com a tarefa de equilibrar tradição e inovação em um contexto global de rápidas transformações sociais e políticas.
Quem são os papáveis?
A ausência de um favorito claro torna o conclave de 2025 imprevisível. Em 2005, Joseph Ratzinger era um nome óbvio para suceder João Paulo II, mas agora nenhum cardeal concentra consenso. Especialistas apontam entre 12 e 15 candidatos viáveis, mas a história mostra que surpresas são comuns. Jorge Bergoglio, por exemplo, não estava entre os principais cotados em 2013, quando superou nomes como Angelo Scola e Odilo Scherer. A diversidade do Colégio de Cardeais, com menos europeus e mais representantes de periferias globais, aumenta a chance de um papa não europeu, algo que seria apenas a quarta vez em 1.200 anos.
Entre os progressistas, destacam-se figuras alinhadas ao legado de Francisco. O filipino Luis Antonio Tagle, de 67 anos, é frequentemente citado por sua proximidade com o papa e seu trabalho no diálogo com a China. Conhecido como “Francisco asiático” por sua ênfase na justiça social, Tagle poderia ser o primeiro papa da Ásia, uma região onde o catolicismo cresce rapidamente. Já o italiano Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha, é outro nome forte, admirado por seu trabalho em diálogo inter-religioso e mediação de conflitos, como na Ucrânia. Pietro Parolin, atual secretário de Estado do Vaticano, é visto como uma opção moderada, com vasta experiência diplomática e capacidade de unir diferentes facções.
Por outro lado, os conservadores têm seus próprios candidatos. O húngaro Péter Erdő, arcebispo de Budapeste, é respeitado por sua defesa da doutrina tradicional e conhecimento em direito canônico. Apesar de sua proximidade com o governo de Viktor Orbán, que pode ser um obstáculo, Erdő é um nome forte entre os que buscam uma guinada à direita. O guineense Robert Sarah, outro tradicionalista, também aparece em listas, mas sua postura crítica a Francisco e apoio a missas em latim limitam suas chances em um colégio majoritariamente nomeado pelo papa argentino.
- Luis Antonio Tagle: Filipino, 67 anos, pró-prefeito do Dicastério para a Evangelização, focado em justiça social.
- Matteo Zuppi: Italiano, 69 anos, arcebispo de Bolonha, defensor do diálogo e da paz.
- Pietro Parolin: Italiano, 70 anos, secretário de Estado, moderado com experiência diplomática.
- Péter Erdő: Húngaro, 72 anos, arcebispo de Budapeste, líder conservador.
- Robert Sarah: Guineense, 79 anos, tradicionalista, crítico das reformas de Francisco.
O impacto das reformas de Francisco
Durante seus 12 anos de pontificado, Francisco deixou um legado que polarizou a Igreja. Sua ênfase em uma Igreja mais inclusiva, com maior participação de leigos e mulheres, e sua abertura a temas como mudanças climáticas e acolhimento de minorias geraram apoio entre progressistas, mas resistência entre conservadores. A autorização de bênçãos a casais do mesmo sexo, embora limitada, foi um ponto de atrito, com figuras como o congolês Fridolin Ambongo Besungu se posicionando contra. O acordo de 2018 com a China, que regularizou a nomeação de bispos, também dividiu opiniões, com críticas de setores que viam concessões excessivas a Pequim.
Francisco também reformou a Cúria Romana, limitando mandatos e promovendo maior transparência financeira. A criação do Conselho de Cardeais, com nove membros, incluindo o brasileiro Sérgio da Rocha, fortaleceu a colegialidade na tomada de decisões. Essas mudanças, detalhadas em documentos como Evangelii Gaudium e Laudato Si’, moldaram uma Igreja mais voltada para as periferias, mas expuseram divisões internas. O próximo papa terá de decidir se consolida essas reformas ou reverte parte delas, em um equilíbrio delicado entre tradição e modernidade.
A influência de Francisco no Colégio de Cardeais é inegável. Dos 135 eleitores, 108 foram nomeados por ele, o que teoricamente favorece um sucessor alinhado às suas ideias. No entanto, a dinâmica do conclave é imprevisível, e alianças formadas durante as reuniões preparatórias, que começam em 22 de abril, podem mudar o cenário. Cardeais mais velhos, mesmo sem direito a voto, exercem influência nos bastidores, enquanto novatos de regiões periféricas trazem perspectivas diversas, muitas vezes menos conhecidas entre si.
O peso geopolítico da eleição
A escolha do próximo papa transcende o âmbito religioso. A Igreja Católica, com 1,4 bilhão de fiéis, desempenha um papel significativo em questões globais, desde a promoção da paz até o combate à pobreza. Francisco, com sua crítica ao militarismo e defesa da ecologia, posicionou o Vaticano como uma voz relevante em fóruns internacionais. O próximo pontífice herdará essa responsabilidade, enfrentando desafios como a crescente influência de regimes autoritários e a polarização política em países católicos, como Brasil e Estados Unidos.
A possibilidade de um papa africano ou asiático reflete o deslocamento do centro de gravidade do catolicismo. A África, com 236 milhões de católicos, e a Ásia, com 153 milhões, são as regiões de maior crescimento, enquanto a Europa, com 286 milhões, enfrenta declínio. Um líder dessas regiões poderia reforçar a evangelização em áreas dinâmicas, mas também enfrentaria resistências de setores eurocêntricos. O congolês Fridolin Ambongo, por exemplo, é cotado por sua liderança em questões sociais, mas sua oposição a algumas reformas de Francisco pode alienar progressistas.
No campo diplomático, o próximo papa terá de lidar com o legado do acordo com a China, que expira em 2026, e com conflitos como os da Ucrânia e do Oriente Médio. Cardeais como Parolin, com experiência em negociações internacionais, ou Zuppi, envolvido em mediações de paz, são vistos como capazes de manter o Vaticano como ator global. A escolha também influenciará o diálogo inter-religioso, uma prioridade de Francisco, que promoveu encontros históricos com líderes muçulmanos e ortodoxos.
- Crescimento do catolicismo: África e Ásia lideram com 236 e 153 milhões de fiéis, respectivamente.
- Declínio europeu: A Europa, com 286 milhões de católicos, enfrenta secularização e envelhecimento.
- Desafios globais: O novo papa lidará com conflitos, autoritarismo e mudanças climáticas.
Como funciona o conclave?
O conclave é um processo meticuloso, regido por regras rígidas. Após a morte de Francisco, o camerlengo, atualmente o cardeal Kevin Farrell, assume a administração temporária da Igreja. O funeral do papa, previsto para ocorrer entre o 4º e o 6º dia após a morte, será mais simples, conforme seu desejo, com sepultamento na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, rompendo a tradição das Grutas do Vaticano. Entre o 15º e o 20º dia, os cardeais se reúnem no Vaticano, alojados na Domus Sanctae Marthae, e iniciam as votações na Capela Sistina.
As sessões de votação ocorrem duas vezes pela manhã e duas à tarde, com cédulas queimadas após cada rodada. Se não houver consenso, uma fumaça preta é emitida; quando um candidato alcança dois terços, a fumaça branca sinaliza a eleição. O eleito é questionado se aceita o cargo e escolhe seu nome papal, vestindo as vestes na Sala das Lágrimas antes de ser apresentado ao mundo com o anúncio “Habemus Papam”. O processo é marcado por sigilo absoluto, com os cardeais proibidos de se comunicar com o exterior sob pena de excomunhão.
- Cronograma do conclave:
- 21 de abril: Morte de Francisco, início do luto de nove dias.
- 25 a 27 de abril: Funeral e sepultamento na Basílica de Santa Maria Maior.
- 22 de abril em diante: Reuniões preparatórias dos cardeais.
- 5 a 10 de maio: Início previsto do conclave.
- Data variável: Anúncio do novo papa após eleição.
O papel dos cardeais brasileiros
O Brasil, com 123 milhões de católicos, é o maior país católico do mundo, mas nunca teve um papa. Sete cardeais brasileiros, todos com menos de 80 anos, participarão do conclave: Odilo Scherer, Paulo Cezar Costa, Leonardo Steiner, Sérgio da Rocha, João Braz de Aviz, Orani João Tempesta e Raymundo Damasceno Assis. Apesar de sua relevância, nenhum deles aparece entre os principais cotados, ao contrário de 2013, quando Scherer era um nome forte.
Sérgio da Rocha, arcebispo de Salvador e membro do Conselho de Cardeais, é visto como o brasileiro com maior potencial, mas sua projeção é limitada frente a candidatos como Tagle ou Parolin. Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, destaca-se por sua defesa da Amazônia, alinhada a Laudato Si’, mas não é considerado um favorito. A influência brasileira pode se manifestar mais nas negociações do que na eleição de um compatriota, com cardeais como Rocha e Scherer atuando como mediadores entre blocos ideológicos.
A participação brasileira reflete a importância do país na Igreja global. A Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro, organizada por Tempesta e Costa, foi um marco do pontificado de Francisco. No entanto, a polarização política no Brasil, que afeta até o clero, pode complicar a formação de um consenso em torno de um candidato local.
Desafios do próximo pontífice
O novo papa enfrentará uma Igreja em transformação. A secularização no Ocidente exige estratégias para reengajar fiéis, enquanto o crescimento em África e Ásia demanda maior atenção a questões locais, como pobreza e perseguição religiosa. Escândalos de abusos sexuais, embora abordados por Francisco com medidas como a destituição de clérigos, continuam a prejudicar a credibilidade da instituição. A sinodalidade, promovida por Francisco como um modelo de governo mais participativo, também será testada, com conservadores questionando sua implementação.
A eleição de um progressista como Tagle ou Zuppi poderia consolidar as reformas, mas enfrentaria resistência de setores que veem nelas um afastamento da tradição. Um conservador como Erdő ou Sarah, por outro lado, poderia apaziguar tradicionalistas, mas alienar fiéis que abraçaram a abertura de Francisco. A escolha de um moderado, como Parolin, parece o cenário mais provável para evitar um cisma, mas mesmo isso não garante unidade em uma Igreja com 1,3 bilhão de vozes e realidades distintas.
O conclave de 2025 será um espelho das tensões do século XXI. A fumaça branca, quando surgir, não apenas anunciará um novo papa, mas também sinalizará o rumo de uma das instituições mais antigas e influentes do mundo. Até lá, o Vaticano vive dias de expectativa, com cardeais, fiéis e observadores globais atentos ao desenrolar de um processo que, apesar de sua antiguidade, nunca esteve tão conectado aos desafios do presente.
- Principais desafios do novo papa:
- Combater a secularização no Ocidente e promover evangelização em África e Ásia.
- Restaurar a credibilidade da Igreja frente a escândalos de abusos.
- Equilibrar sinodalidade e autoridade papal em um governo eclesial.
- Manter o Vaticano como voz relevante em questões globais, como paz e meio ambiente.

