Saúde

Infarto em jovens dispara 180% no Brasil: fatores de risco e prevenção

Médico Cardiologista
Foto: Médico Cardiologista - Foto: panom73/iStock

Os infartos entre jovens com menos de 40 anos estão em alta no Brasil, com mais de 234 mil atendimentos registrados entre 2022 e 2024, segundo o Ministério da Saúde. Esse aumento alarmante, que inclui 7,8 mil mortes no período, reflete mudanças no estilo de vida e o crescimento de fatores de risco evitáveis, como tabagismo, obesidade e uso de anabolizantes. Especialistas apontam que a pandemia de Covid-19 agravou o cenário, enquanto desigualdades regionais dificultam o acesso à prevenção e tratamento. A seguir, exploramos as causas, sintomas e medidas para frear essa tendência preocupante.

O fenômeno, antes associado a idosos, agora atinge adolescentes e até crianças, com maior incidência entre 31 e 40 anos. Dados revelam que homens representam a maioria dos casos, com 156 mil procedimentos registrados, contra 77 mil entre mulheres. A combinação de hábitos pouco saudáveis e fatores genéticos tem colocado o coração dos jovens em risco, exigindo ações urgentes.

  • Fatores de risco principais: Tabagismo, colesterol alto, hipertensão, obesidade, diabetes e uso de substâncias como anabolizantes e drogas.
  • Impacto da pandemia: Aumento do sedentarismo e estresse contribuiu para o acúmulo de gordura visceral, associada a infartos precoces.
  • Desigualdade regional: Regiões com menos acesso à saúde, como Norte e Nordeste, enfrentam maior mortalidade.

Cardiologistas reforçam que a prevenção é a chave para reverter esse quadro, com foco em hábitos saudáveis desde a infância e identificação precoce de riscos.

Causas por trás do aumento de infartos
O crescimento de infartos em jovens reflete uma combinação de fatores modificáveis e não modificáveis. O tabagismo, apontado como o principal vilão, danifica os vasos sanguíneos e eleva a pressão arterial, aumentando em até cinco vezes o risco de infarto. Além disso, o uso de cigarros eletrônicos, populares entre os jovens, também preocupa. “O vape contém níveis elevados de nicotina e subst, que agravam a saúde cardiovascular”, explica o cardiologista Rafael Côrtes, do Hospital Sírio-Libanês.

A obesidade, que afeta 34% dos brasileiros, segundo a Fiocruz, é outro fator crítico. O excesso de peso, especialmente a gordura abdominal, está ligado à hipertensão, diabetes tipo 2 e dislipidemia, condições que favorecem a formação de placas de gordura nas artérias. O consumo de alimentos ultraprocessados, como refrigerantes e fast food, intensifica esse risco, contribuindo para a resistência à insulina e inflamações no organismo.

O uso indiscriminado de esteroides anabolizantes também ganha destaque. “Jovens que buscam ganhos estéticos ou esportivos enfrentam até três vezes mais risco de infarto”, alerta Côrtes. Esses hormônios elevam o colesterol ruim (LDL) e reduzem o colesterol bom (HDL), promovendo obstruções arteriais.

Impacto da pandemia no coração dos jovens
A pandemia de Covid-19 trouxe mudanças drásticas no estilo de vida, agravando os fatores de risco cardiovascular. O aumento do tempo sedentário, com duas horas a mais por dia sentado, aliado à queda na prática de atividades físicas, impactou diretamente a saúde do coração. “A piora na alimentação e o aumento do estresse contribuíram para o acúmulo de gordura visceral, que é altamente inflamatória”, explica o cardiologista Arthur Felipe Giambona Rente, da Rede D’Or São Luiz.

Além disso, o próprio vírus pode causar danos diretos ao sistema cardiovascular. Estudos internacionais indicam que a Covid-19 pode provocar inflamações nos vasos sanguíneos e no coração, aumentando a incidência de eventos cardíacos mesmo em jovens sem doenças prévias. A interrupção de consultas e exames durante o isolamento social também atrasou diagnósticos, dificultando a prevenção.

Sintomas que não podem ser ignorados
Os infartos em jovens muitas vezes são fulminantes, com menos chances de tratamento devido à ausência de circulação colateral, uma rede de vasos que se desenvolve com o envelhecimento e pode minimizar danos. Identificar os sintomas precocemente é crucial para salvar vidas.

  • Dor torácica prolongada: Dura mais de 20 minutos, com ou sem irradiação para braços, costas ou pescoço.
  • Falta de ar: Sensação de dificuldade para respirar, muitas vezes acompanhada de cansaço excessivo.
  • Palpitações: Batimentos cardíacos irregulares ou acelerados.
  • Tontura ou desmaio: Pode indicar problemas graves no fluxo sanguíneo.

“Esses sinais exigem atenção médica imediata”, reforça Rente. A demora no atendimento, especialmente em regiões com acesso limitado à saúde, aumenta o risco de desfechos fatais.

Desigualdades regionais amplificam o problema
O acesso desigual à saúde no Brasil contribui significativamente para a mortalidade por infarto entre jovens. Regiões como Norte e Nordeste enfrentam barreiras como falta de infraestrutura hospitalar e dificuldade de acesso a especialistas. “Jovens de baixa renda muitas vezes chegam ao hospital em condições críticas, o que reduz as chances de sobrevivência”, aponta Côrtes.

Dados do Ministério da Saúde mostram que São Paulo lidera o número de mortes por infarto em jovens, com 2.490 registros entre 2022 e 2024, seguido pelo Rio de Janeiro, com 622. A disparidade reflete não apenas a densidade populacional, mas também as diferenças no acesso a cuidados preventivos e emergenciais.

Mulher jovem infartando
Mulher jovem infartando – Foto: MikeSaran/iStock

Prevenção desde a infância
Especialistas defendem que a prevenção de infartos deve começar cedo, com a adoção de hábitos saudáveis desde a infância. Campanhas educativas em escolas e comunidades são essenciais para conscientizar sobre os riscos do tabagismo, má alimentação e sedentarismo.

  • Dieta equilibrada: Priorizar frutas, vegetais, grãos integrais e proteínas magras, reduzindo ultraprocessados.
  • Atividade física regular: Pelo menos 30 minutos por dia, três a quatro vezes por semana.
  • Controle de peso: Evitar obesidade, especialmente gordura abdominal.
  • Abandono do tabagismo: Parar de fumar é a medida mais eficaz para reduzir riscos cardiovasculares.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) recomenda check-ups anuais a partir dos 20 anos para quem tem histórico familiar de doenças cardíacas ou fatores de risco como hipertensão e colesterol alto.

O papel dos anabolizantes no risco cardiovascular
O uso de esteroides anabolizantes tem se tornado uma preocupação crescente entre cardiologistas. Esses hormônios, usados para ganhos musculares, causam alterações graves no sistema cardiovascular. “Eles aumentam a pressão arterial e favorecem a formação de coágulos, além de provocar hipertrofia cardíaca”, explica Even Mol, cardiologista dos hospitais Universitário Cajuru e São Marcelino Champagnat.

Estudos recentes mostram que usuários de anabolizantes têm até nove vezes mais risco de desenvolver miocardiopatia, uma condição que enfraquece o coração. A popularidade dessas substâncias entre jovens em academias e redes sociais agrava o problema, exigindo maior regulamentação e conscientização.

Cigarros eletrônicos: um novo vilão
O aumento do uso de cigarros eletrônicos entre jovens preocupa especialistas. Esses dispositivos, muitas vezes vistos como uma alternativa “inofensiva” ao cigarro tradicional, contêm altas doses de nicotina e substâncias químicas que danificam os vasos sanguíneos. “O vape pode elevar os níveis de nicotina até seis vezes mais que o cigarro comum”, alerta Antônio Amorim, da SBC.

A falta de regulação e a popularidade dos vapes entre adolescentes contribuem para o aumento dos riscos cardiovasculares. A Anvisa proibiu a comercialização desses dispositivos em 2024, mas o mercado clandestino ainda representa um desafio.

Histórico familiar e predisposição genética
A genética desempenha um papel importante nos infartos precoces. Jovens com pais ou irmãos que sofreram infarto ou AVC antes dos 55 anos (homens) ou 65 anos (mulheres) têm até 50% mais risco de desenvolver problemas cardíacos. Condições como hipercolesterolemia familiar, que eleva o colesterol desde a infância, também aumentam a vulnerabilidade.

“Quem tem histórico familiar deve iniciar check-ups cardiológicos aos 20 anos”, recomenda Leopoldo Piegas, do HCor. Exames como eletrocardiograma e testes de esforço podem identificar problemas antes que se tornem graves.

Estratégias para reduzir os casos
Combater a tendência de infartos precoces exige ações em múltiplas frentes. Políticas públicas que promovam o acesso à saúde, como programas de rastreamento de fatores de risco, são fundamentais. Além disso, a conscientização sobre os perigos de substâncias como anabolizantes e cigarros eletrônicos deve ser ampliada.

Na prática médica, a identificação precoce de condições como hipertensão e diabetes é essencial. “Jovens com fatores de risco precisam de acompanhamento regular, mesmo sem sintomas”, afirma Rente. A integração de cuidados preventivos desde a infância pode mudar o cenário a longo prazo.

Impacto socioeconômico e desafios futuros
As doenças cardiovasculares, incluindo o infarto, geram custos significativos para o sistema de saúde. Em 2024, os gastos com tratamento de problemas relacionados ao tabagismo atingiram R$ 153,5 bilhões, segundo o Instituto de Efetividade Clínica e Sanitária. A carga econômica, somada à perda de vidas jovens, reforça a urgência de medidas preventivas.

A desigualdade socioeconômica também agrava o problema. Comunidades com menos acesso à educação e saúde enfrentam maior incidência de fatores de risco, como obesidade e tabagismo. Investir em campanhas educativas e ampliar o acesso a cuidados médicos pode reduzir as disparidades e salvar vidas.