Diretriz da neurologia combate uso irregular de zolpidem, com riscos de abstinência e sonambulismo

Zolpidem

Zolpidem - luchschenF/shutterstock.com

A Academia Brasileira de Neurologia lançou uma diretriz nacional para combater o uso irregular de zolpidem, medicamento comum contra insônia que se tornou problema de saúde pública no Brasil. Especialistas de instituições como USP e Unifesp identificaram escalada de dependência e efeitos adversos após a pandemia, com vendas que atingiram 22 milhões de caixas em 2023. A proposta visa orientar prescrições seguras e desmame supervisionado, priorizando alternativas não farmacológicas.

Dados da Anvisa revelam que o consumo dobrou entre 2018 e 2023, mas caiu para 6,89 milhões de caixas no primeiro semestre de 2025 devido a controles mais rígidos. Apesar disso, receitas falsificadas e vendas online persistem, agravando casos de abstinência grave. O documento, publicado na revista Arquivos de Neuro-Psiquiatria, é assinado por 15 profissionais e representa o primeiro consenso sobre drogas Z, como zolpidem e zopiclona.

Pacientes relatam doses diárias de até centenas de comprimidos, levando a perda de memória e comportamentos involuntários. A diretriz enfatiza avaliação completa antes da prescrição, limitando o uso a curto prazo.

Crescimento do consumo e regulamentações recentes

O aumento no uso de zolpidem reflete prescrições rápidas por médicos sem especialização em sono, focando apenas no sintoma de insônia. Entre 2014 e 2021, as vendas saltaram de 338 mil para 810 mil caixas, impulsionadas pela pandemia de Covid-19.

A Anvisa endureceu regras em 2024, exigindo receita azul para todas as dosagens, o que reduziu o acesso ilegal. No entanto, farmácias virtuais e receitas duplicadas ainda facilitam o abuso.

Especialistas notam que apresentações sublingual e em spray aceleraram a dependência, com pacientes buscando o “gosto” do remédio para alívio rápido.

Riscos associados à dependência química

A meia-vida curta do zolpidem, de cerca de quatro horas, promove tolerância rápida e escalada de doses. Usuários desenvolvem padrões semelhantes a outras substâncias, com consumo de 7 a 10 comprimidos diários em casos moderados.

Efeitos incluem sonambulismo, amnésia e impulsos como compras compulsivas sem lembrança. Relatos envolvem profissionais de saúde e mulheres adultas como grupos vulneráveis.

A suspensão abrupta provoca convulsões, ansiedade intensa e insônia rebote, exigindo desmame lento sob supervisão.

  • Sonambulismo complexo: dirigir ou comer durante o sono parcial.
  • Amnésia anterógrada: ações sem registro na memória.
  • Delírios e euforia: uso diurno para desinibição.
  • Riscos graves: parada cardiorrespiratória em overdoses.
insônia – New Africa/Shutterstock.com

Estratégias de prescrição responsável

A diretriz recomenda plano de retirada desde a primeira receita, com data de interrupção definida. Médicos devem avaliar comorbidades como ansiedade ou depressão antes de indicar o fármaco.

Substituição por medicamentos de menor risco ou internação breve surge para casos graves. O foco é no uso temporário, com monitoramento para evitar recaídas.

Profissionais destacam que o zolpidem permanece eficaz quando prescrito corretamente, mas exige acompanhamento rigoroso.

Alternativas à terapia medicamentosa

Terapia cognitivo-comportamental emerge como opção prioritária para insônia crônica, tratando causas subjacentes em vez de sintomas. Sessões incluem regulação de horários e controle de pensamentos ansiosos.

Estudos mostram eficácia superior a hipnóticos no longo prazo, reduzindo recaídas. Higiene do sono, como evitar telas antes de dormir, complementa o tratamento.

Pacientes beneficiam-se de abordagens integradas, combinando hábitos e suporte psicológico.

Casos reais e impactos sociais

Um ator público relatou compras impulsivas sob efeito, como itens exóticos sem memória posterior. Profissionais perderam empregos por absentismo causado por fadiga diurna.

Mulheres e trabalhadores de saúde formam perfis comuns, com dependência afetando relacionamentos e produtividade. Casos extremos envolvem internações por convulsões após tentativas de interrupção.

O fenômeno brasileiro liga-se a prescrições automáticas, sem diagnóstico completo de distúrbios do sono.

Manejo da abstinência em cenários clínicos

Desmame gradual reduz riscos, ajustando doses semanalmente com suporte médico. Em altas dependências, substitutos de menor abuso facilitam a transição.

Internação monitorada previne complicações como ideias suicidas. A diretriz orienta psiquiatras e neurologistas em protocolos padronizados.

Recuperação total ocorre com adesão, restaurando padrões de sono natural em meses.

Prevenção em políticas de saúde

Campanhas educativas visam farmacêuticos e médicos, promovendo dispensação consciente. Monitoramento de farmácias corta o mercado ilegal, elevando preços e limitando acesso.

Atualização curricular em faculdades incorpora medicina do sono, preparando profissionais para prescrições racionais. Políticas públicas integram a diretriz ao SUS para triagem precoce.