Rolf Becker, ícone de ‘In aller Freundschaft’, morre aos 90 anos em Hamburg

6 min de leitura
Rolf Becker Foto: Rolf Becker - Matthias Wehnert/Shutterstock.com

Rolf Becker, conhecido ator alemão de teatro, cinema e televisão, faleceu nesta sexta-feira, 12 de dezembro de 2025, aos 90 anos, em um hospício em Hamburg. O artista, que se tornou um rosto familiar como o operador de cantina Otto Stein na série “In aller Freundschaft”, da emissora ARD, morreu cercado pela família. A confirmação veio do pastor Sieghard Wilm, da igreja St.-Pauli, à agência de notícias dpa, destacando o falecimento em sua cidade adotiva.

Nascido em 31 de março de 1935, em Leipzig, Becker construiu uma carreira que abrangeu mais de 200 produções em filmografia e televisão. Sua trajetória começou após estudos na Otto-Falckenberg-Schule, em Munique, e incluiu passagens por teatros em Bremen, Darmstadt e Ulm. Em 1971, mudou-se para Hamburg, onde se fixou e atuou no Deutsches Schauspielhaus e no Thalia Theater.

A notícia do óbito repercutiu rapidamente na mídia alemã, com relatos iniciais do Norddeutscher Rundfunk (NDR). Becker, que manteve atividade até idades avançadas, havia completado 90 anos em março e ainda aparecia em episódios recentes da série que o consagrou.

  • Principais papéis em séries: “Derrick”, “Der Alte” e “Tatort”.
  • Destaques no cinema: “Ich bin ein Elefant, Madame” (1969) e “Die verlorene Ehre der Katharina Blum” (1975).
  • Contribuições como dublador e locutor em mais de 100 audiobooks e radionovelas.

Início da carreira no teatro alemão

Becker iniciou sua jornada profissional nos anos 1960, com encenações em Bremen que mesclavam atuação e direção. Ali, ele explorou textos clássicos e contemporâneos, ganhando reconhecimento por interpretações precisas. Em poucos anos, transferiu-se para palcos maiores em Hamburg, onde o ambiente cultural da cidade influenciou seu estilo direto e engajado.

Essa fase marcou sua transição do regional para o nacional, com colaborações sob diretores como Peter Zadek. Becker frequentemente destacava o teatro como base para sua versatilidade posterior na tela.

Papel icônico em ‘In aller Freundschaft’

Desde 2006, Becker incorporou Otto Stein na produção da ARD, participando de cerca de 550 episódios até 2022. O personagem, um viúvo operário na Sachsenklinik, representava a resiliência cotidiana e conquistou plateias por sua autenticidade. Ele dividiu cenas com atores como Bernhard Bettermann, que interpretava seu filho na trama.

Em 2022, Becker atuou pela primeira vez ao lado de seu filho real, Ben Becker, em um episódio que uniu ficção e vida pessoal. Essa aparição reforçou laços familiares na tela e destacou sua longevidade profissional. A série, exibida há mais de 25 anos, continua em produção, com episódios recentes homenageando sutilmente sua contribuição.

O impacto do papel se estendeu a gerações de espectadores, que viam em Otto um reflexo de valores tradicionais misturados à modernidade. Becker recebia convites para eventos da emissora até o ano passado, mantendo contato com o elenco.

Legado familiar na atuação

Filho de Becker, Ben Becker, de 60 anos, seguiu os passos do pai em cinema e teatro, com papéis em produções como “Affe”. Meret Becker, 56 anos, filha do primeiro casamento com a atriz Monika Hansen, destacou-se em música e atuação, incluindo colaborações em “Tatort”.

Do segundo casamento, com Sylvia Wempner desde 1980, vieram três filhos: dois biológicos e um adotivo, todos envolvidos em artes cênicas. A família formava um núcleo criativo, com Becker incentivando carreiras independentes.

Essa rede de relações profissionais evitou nepotismo, como Becker mesmo observava em entrevistas passadas, priorizando mérito individual.

Engajamento político e social

Becker integrou-se à Gewerkschaft Verdi e participou de grupos contra austeridade na Grécia nos anos 2010. Ele apoiou causas antifascistas ao lado de Esther Bejarano, sobrevivente do Holocausto, em manifestações anuais.

Nos anos 1990, criticou intervenções da Otan na ex-Iugoslávia, enfrentando debates públicos. Em 2003, atuou como tutor voluntário para Christian Klar, preso político, e visitou Mumia Abu-Jamal na prisão americana em 2009.

Sua militância se entrelaçava à arte, com aparições em eventos da Rosa-Luxemburg-Konferenz e exposições na jW-Galerie. Becker via o ativismo como extensão de sua responsabilidade cívica, sem comprometer papéis comerciais.

Presença em cinema e dublagem

Além de palcos, Becker brilhou em filmes de diretores renomados, como Volker Schlöndorff em adaptações literárias. Seu papel como promotor em “Die verlorene Ehre der Katharina Blum” explorou temas de justiça e mídia, baseado em Heinrich Böll.

Como dublador, prestou voz a produções internacionais, incluindo animações e blockbusters, alcançando mais de 100 créditos. Essa faceta ampliou seu alcance para audiências jovens, com narrações em audiobooks de clássicos alemães.

Becker equilibrava esses trabalhos com séries policiais, onde sua presença grave adicionava tensão narrativa. Sua filmografia reflete uma era de transição no cinema alemão pós-guerra.

Influência duradoura em Hamburg

Hamburg serviu como lar e inspiração para Becker desde 1971, com caminhadas à beira do Elba como rotina diária. Ele descrevia a cidade como única por sua mistura de porto e cultura, frequentando o St.-Pauli-Theater até recentemente.

O pastor Wilm, que acompanhou seus últimos momentos, notou a gratidão de Becker pela comunidade local. Sua residência no bairro reforçou laços com vizinhos e colegas teatrais.

Essa conexão culminou em homenagens póstumas, com o Thalia Theater planejando retrospectivas de suas encenações. Becker deixava um vazio na cena cultural hanseática, mas seu arquivo de trabalhos garante continuidade.

A trajetória de Rolf Becker ilustra a dedicação a uma arte que transcende gerações, com contribuições que vão do entretenimento leve à crítica social profunda. Nascido em tempos turbulentos, ele navegou por seis décadas de mudanças no meio artístico alemão, sempre priorizando integridade e inovação. Seus filhos e colegas mantêm viva a memória de um profissional que combinava talento com convicção, influenciando aspirantes a atores em escolas e festivais. Episódios de “In aller Freundschaft” ainda em rotação servem como tributo involuntário, enquanto arquivos teatrais preservam suas interpretações clássicas para estudos futuros.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

Notícias relacionadas