Pesquisadores anunciaram resultados de um estudo clínico que demonstrou a restauração parcial da visão central em pacientes com atrofia geográfica, forma avançada da degeneração macular relacionada à idade (DMRI). O sistema PRIMA, composto por um microchip implantado sob a retina e óculos especiais com câmera, permitiu que a maioria dos participantes voltasse a ler letras e palavras após um ano de acompanhamento. Essa tecnologia representa o primeiro avanço capaz de recuperar visão funcional em áreas da retina previamente cegas devido à doença.
O estudo envolveu 38 pacientes com idade média de 79 anos, todos com perda severa de visão central causada pela morte de fotorreceptores na mácula. Após a implantação do chip de 2 milímetros, combinado ao uso dos óculos que projetam luz infravermelha, 32 participantes completaram o período de 12 meses de avaliação. Nesses casos, 27 indivíduos apresentaram melhora significativa na acuidade visual, ganhando em média cinco linhas em testes padrão de leitura.
A DMRI afeta milhões de pessoas em todo o mundo e é a principal causa de cegueira irreversível em idosos. Tratamentos existentes apenas retardam a progressão, sem recuperar a visão perdida.
Funcionamento do sistema PRIMA
O implante fotovoltaico funciona sem fios ou baterias externas, convertendo diretamente a luz infravermelha projetada pelos óculos em estímulos elétricos. Essa energia ativa as células bipolares remanescentes na retina, enviando sinais ao cérebro que são interpretados como imagens. Os óculos incluem uma câmera que captura o ambiente em tempo real e um processador portátil que otimiza as imagens para maior clareza.
Essa abordagem permite o uso simultâneo da visão periférica natural preservada com a visão prostética central. Pacientes relataram capacidade de realizar tarefas cotidianas, como ler números ou reconhecer formas, o que não era possível antes da intervenção.
Resultados clínicos detalhados
Após 12 meses, 81% dos avaliados alcançaram melhora clinicamente significativa na acuidade visual, equivalente a pelo menos 0,2 logMAR. Muitos participantes conseguiram ler sequências de letras em casa, com ganhos de até 12 linhas em tabelas oftalmológicas padrão. A visão restaurada é em preto e branco e com resolução limitada pelos 378 pixels do chip, mas suficiente para leitura funcional.
- Melhora média: cinco linhas em testes ETDRS.
- Capacidade de leitura: 27 de 32 pacientes voltaram a ler palavras.
- Satisfação: cerca de 69% dos usuários relataram níveis médios a altos de aprovação com o dispositivo.
O treinamento pós-implante é essencial, pois os pacientes precisam se adaptar à visão prostética, que difere da natural.
Procedimento cirúrgico
A implantação do chip ocorre por meio de cirurgia minimamente invasiva, realizada em menos de duas horas por cirurgiões treinados. O dispositivo é posicionado sob a retina danificada, substituindo a função dos fotorreceptores perdidos. Em 17 centros europeus, o procedimento foi concluído com sucesso em todos os casos.
Efeitos adversos graves ocorreram em 19 pacientes, principalmente aumento de pressão intraocular e pequenas hemorragias nas primeiras semanas. Esses eventos foram gerenciados sem perda permanente de visão ou complicações sistêmicas.
Características da DMRI avançada
A degeneração macular relacionada à idade progride para atrofia geográfica quando as células da mácula morrem, criando uma mancha central no campo visual. Pacientes mantêm visão periférica, mas perdem a capacidade de ler, reconhecer rostos ou realizar atividades detalhadas. A forma seca, responsável pela maioria dos casos, não tinha opções restauradoras até este avanço.
Medicamentos como pegcetacoplan retardam o progresso, mas não revertem danos. O PRIMA oferece restauração funcional em estágios onde a cegueira central já se instalou.
Desenvolvimento da tecnologia
O sistema PRIMA foi desenvolvido com base em pesquisas da Universidade Stanford e adquirido pela Science Corporation após a originação pela Pixium Vision. O estudo pivotal PRIMAvera, conduzido em cinco países europeus, confirmou a segurança e eficácia em larga escala. A empresa solicitou aprovação para uso clínico na Europa, com perspectivas de expansão.
Pesquisadores trabalham em versões aprimoradas, com mais pixels para maior resolução e campo visual ampliado.
Benefícios para os pacientes
Participantes do estudo relataram ganhos em independência diária, como leitura de rótulos ou jornais. A visão prostética integra-se à periférica natural, sem interferência. Embora não restaure visão normal, o dispositivo transforma a qualidade de vida em casos previamente sem opções.
O avanço abre caminhos para tratamentos em outras doenças retinianas degenerativas.
Segurança a longo prazo
O acompanhamento de um ano mostrou estabilidade do implante, sem redução na visão periférica natural. Eventos adversos foram resolvidos em até dois meses na maioria dos casos. Estudos anteriores com follow-up de até quatro anos em grupos menores confirmaram tolerância prolongada.
Avanços em neurotecnologia ocular
Essa prótese representa integração de bioeletrônica com células retinianas remanescentes, estimulando diretamente camadas internas. Diferencia-se de outros implantes por ser wireless e fotovoltaico, eliminando componentes externos invasivos.
Aplicações futuras
A tecnologia pode se estender a outras condições com perda de fotorreceptores, mantendo células nervosas intactas. Versões de alta resolução estão em desenvolvimento animal, visando acuidade próxima à natural.

