Um ex-piloto voou aviões comerciais da Air Canada por quase 17 anos sem possuir a licença necessária para atuar como capitão, segundo a polícia de Ontário.
Uma investigação de fraude e falsificação de documentos expôs que o piloto, que atuou na companhia desde 1998 até 2025, alterou uma credencial essencial ao ser promovido a capitão em 2009.
A apuração, batizada de Projeto Ícaro, indica um plano intencional para burlar os mecanismos de proteção ao público. Nando Iannicca, presidente do Conselho de Serviços Policiais de Peel, reforçou que, nesses casos, é fundamental cobrar responsabilidade.
As autoridades informaram que o homem comandou jatos Boeing 767, 777 e 787 em mais de 900 voos, tanto domésticos quanto internacionais, levando dezenas de milhares de passageiros sem a qualificação obrigatória.
“Nossa investigação indica que tudo ocorreu sem as licenças corretas, em especial sem a de piloto de linha aérea, exigida para transportar passageiros”, declarou o vice-chefe de polícia Nick Milinovich. Ele acrescentou que o acusado teria apresentado dados falsos sobre sua formação tanto à empresa quanto ao regulador.
Milinovich ainda apontou que o ex-piloto supostamente registrou uma denúncia falsa na polícia sobre um suposto roubo de documentos que a investigação concluiu não ter acontecido.
Nenhuma informação adicional foi divulgada sobre esse episódio.
A investigação criminal começou em janeiro após a Air Canada comunicar ao Transport Canada uma checagem regulatória interna que realizou sobre o capitão — medida que a empresa disse ter tomado por iniciativa própria.
O sargento detetive Chad Mitchell, do setor de Fraudes, explicou que o gatilho da apuração foi uma avaliação rotineira de credenciais e desempenho do ex-piloto em março de 2025 no Aeroporto Internacional Pearson.
“Foram identificadas inconsistências” na documentação apresentada na ocasião, o que desencadeou a revisão da companhia e, em seguida, o inquérito policial.
A investigação concluiu que o piloto não tinha a licença de piloto de linha aérea em todo o tempo em que atuou como comandante na Air Canada.
“Essa credencial avançada é obrigatória para operar os aviões que o acusado pilotava na posição de capitão”, afirmou Mitchell.
O piloto foi detido em 1º de junho, segundo Mitchell. A primeira audiência dele em Brampton está marcada para 29 de junho.
Ele responde a sete acusações, que incluem fraude, uso de documentos falsos e perturbação da ordem pública.
A Air Canada divulgou nota em resposta às acusações, garantindo que “a segurança nunca foi comprometida neste caso” e lembrando que todos os seus pilotos passam por treinamentos recorrentes obrigatórios a cada seis meses, incluindo verificação de voo com piloto examinador certificado pelo Transport Canada a cada 12 meses.
As autoridades afirmaram na terça-feira que não há indícios de envolvimento de outras pessoas no esquema e que o piloto se aposentou no começo de 2025.
Mesmo assim, a empresa reconheceu que a licença adequada é indispensável para voar e disse tratar o caso “com a máxima seriedade”.
“Durante todo o período na Air Canada, o indivíduo foi um piloto plenamente treinado, com Licença de Piloto Comercial válida, e cumpriu ou superou todos os treinamentos recorrentes exigidos, mostrando alto nível de competência para operar aeronaves de grande porte com segurança”, completou a companhia.
A Air Canada observou, porém, que os regulamentos canadenses exigem que capitães de aviões grandes possuam a licença de piloto de transporte aéreo (ATPL), conquistada por meio de exames escritos específicos.
O piloto em questão foi afastado das funções operacionais, informou a empresa.
A Associação de Pilotos de Linha Aérea informou, por meio de comunicado à CTV News na segunda-feira, que acompanha a investigação em andamento.

