Nestlé afasta seu CEO global por violar código de conduta em caso de romance com subordinadaPor Luís Henrique Costa
8 min de leitura
![]() |
Uma violação do código de conduta interno levou ao desligamento imediato de Laurent Freixe do cargo de CEO global da Nestlé. A decisão, anunciada na sede da empresa em Vevey, na Suíça, em 1º de setembro de 2025, foi o resultado de uma rigorosa investigação que confirmou um relacionamento romântico não declarado entre o executivo e uma subordinada direta. Com quase quatro décadas de serviço na multinacional, a saída de Freixe abalou o setor de bens de consumo e intensificou o debate sobre ética e governança em grandes corporações. A investigação foi supervisionada diretamente pelo presidente do conselho, Paul Bulcke, e pelo diretor independente, Pablo Isla, que contaram com o suporte de uma consultoria externa para garantir a imparcialidade do processo. A apuração foi iniciada após denúncias anônimas recebidas através do canal interno da empresa, conhecido como “Speak Up”, evidenciando a seriedade com que a companhia trata suas políticas de conflito de interesse em um cenário econômico globalmente desafiador.
Para a sucessão, a Nestlé nomeou Philipp Navratil, um executivo com 24 anos de casa e ex-CEO da Nespresso. Sua posse foi imediata, com a missão de assegurar a continuidade da estratégia de crescimento da empresa sem interrupções causadas pela súbita mudança de liderança. A saída de Freixe ocorre sem o pagamento de um pacote de indenização, um sinal claro do compromisso da Nestlé com a transparência e a aplicação de suas regras internas.
Siga o Mix Vale no Google e veja nossas notícias primeiro
O caso ganhou destaque na imprensa suíça, com veículos como SRF e Inside Paradeplatz cobrindo os detalhes da demissão. Analistas do setor apontam que a troca de comando expõe as tensões na gestão da maior empresa de alimentos do mundo, especialmente após a saída do antecessor de Freixe, Mark Schneider, em 2024, devido a resultados considerados insatisfatórios. A situação coloca um holofote sobre a estabilidade da liderança da gigante suíça.
A trajetória de Freixe e a violação do código de conduta
Laurent Freixe, nascido na França em 1962, construiu uma carreira notável desde que ingressou na Nestlé em 1986. Sua jornada o levou a posições de liderança em diversos mercados, incluindo Hungria, Espanha, Portugal e México, antes de ser nomeado para o conselho executivo em 2008. Durante a crise financeira europeia, entre 2008 e 2014, ele foi fundamental para manter a estabilidade das vendas. Mais tarde, como CEO da divisão das Américas a partir de 2014, impulsionou o crescimento anual da região em 5% e, a partir de 2022, liderou iniciativas de sustentabilidade na América Latina, como o programa Nestlé Needs YOUth. Contudo, a investigação interna revelou que seu relacionamento com a subordinada começou em 2022, enquanto ele chefiava a operação latino-americana. A situação foi agravada por uma suposta promoção da funcionária envolvida para uma vice-presidência cerca de 18 meses depois, embora a Nestlé tenha negado qualquer irregularidade na ascensão profissional dela. O fator decisivo para sua demissão foi a falha em declarar o relacionamento, uma exigência explícita do código de conduta da empresa, atualizado em 2023, para evitar conflitos de interesse e favoritismo.
Detalhes da investigação que levou ao desligamento
O processo que culminou na saída de Freixe teve início em maio de 2025, quando o conselho de administração foi alertado por meio de denúncias no canal anônimo “Speak Up”. Este sistema é acessível a mais de 270 mil funcionários em todo o mundo e tem registrado um aumento de 15% nos relatos nos últimos anos, segundo a própria empresa.
Inicialmente, uma primeira apuração foi conduzida por uma consultoria externa, a Gemium, que não encontrou evidências conclusivas. Durante essa fase, Freixe negou veementemente as alegações, o que lhe permitiu permanecer no cargo. Contudo, novas informações surgiram nos meses seguintes, forçando o conselho a iniciar uma segunda fase de investigação, mais aprofundada.
Liderada por Paul Bulcke e Pablo Isla, com o apoio de assessoria jurídica independente, esta segunda etapa confirmou a existência do relacionamento e focou na falha de divulgação por parte do CEO. A Nestlé fez questão de ressaltar que a decisão visou proteger a integridade corporativa, sem aplicar sanções à funcionária, que, segundo a empresa, permanece em seu quadro, embora sua posição atual não tenha sido divulgada.
O perfil de Philipp Navratil, o novo comandante
A escolha de Philipp Navratil, de 49 anos, é vista pelo mercado como uma decisão estratégica para trazer estabilidade. Com dupla nacionalidade, suíça e austríaca, ele é um veterano da casa, tendo ingressado na Nestlé em 2001 como auditor interno.
Sua carreira foi marcada por uma vasta experiência em mercados emergentes. Em 2009, por exemplo, ele liderou a operação em Honduras, conseguindo aumentar as vendas em 20% em um período de grande instabilidade política e econômica na região.
Entre 2013 e 2020, Navratil esteve à frente do negócio de café e bebidas no México, onde fortaleceu a marca Nescafé e aumentou a participação de mercado em 25% por meio de lançamentos inovadores. Sua fluência em cinco idiomas e seu perfil colaborativo são vistos como trunfos importantes.
Mais recentemente, como CEO da Nespresso desde julho de 2024, ele acelerou o crescimento da unidade em 8% ao ano, com foco em produtos premium e na expansão dos canais digitais. Paul Bulcke elogiou sua capacidade de entregar resultados consistentes em ambientes complexos, e Navratil declarou seu compromisso em manter a direção estratégica da companhia.
Repercussão no mercado financeiro e na imprensa
A notícia da demissão de Freixe teve um impacto imediato, embora contido, no mercado financeiro. As ações da Nestlé registraram uma queda inicial de aproximadamente 1% logo após o anúncio, mas se recuperaram parcialmente ao longo do dia, sinalizando que os investidores confiam na capacidade de Philipp Navratil de conduzir a empresa. Analistas da Bloomberg atribuíram essa recuperação à rápida nomeação de um sucessor interno, o que evitou um vácuo de poder e incertezas prolongadas sobre a futura direção da companhia. A imprensa suíça, por sua vez, deu ampla cobertura ao caso, com o portal Inside Paradeplatz publicando rumores sobre a vida pessoal de Freixe, que não foram comentados pela empresa.
No cenário corporativo global, o episódio foi comparado a casos semelhantes de demissões de altos executivos em outras multinacionais, como BP e McDonald’s, por falhas éticas relacionadas a relacionamentos no ambiente de trabalho. Investidores institucionais, como o fundo Deka, expressaram preocupação com a instabilidade na liderança da Nestlé, que viu a troca de dois CEOs em menos de um ano. Essa turbulência ocorre em um momento delicado, no qual a empresa enfrenta desafios como o aumento dos custos de matérias-primas, como cacau e café, e a queda de 1,8% nas vendas globais no primeiro semestre de 2025.
As novas diretrizes éticas da multinacional
A forma como a Nestlé conduziu o caso reforça uma tendência global de endurecimento das regras de conduta corporativa. Muitas empresas têm implementado políticas rigorosas que exigem a divulgação de relacionamentos entre funcionários em diferentes níveis hierárquicos para mitigar riscos de favoritismo, assédio ou abuso de poder.
Na Suíça, embora a legislação local não proíba relacionamentos consensuais no ambiente de trabalho, as normas internas de empresas de capital aberto, como a Nestlé, prevalecem e são aplicadas com rigor. O caso serve como um exemplo claro de que o cumprimento dessas políticas é inegociável, independentemente da posição do funcionário na hierarquia da organização.
Desafios imediatos para a nova liderança
Philipp Navratil assume o comando em um momento que exige pulso firme e visão estratégica. Além de restaurar a estabilidade interna, ele terá que lidar com a pressão por resultados em um mercado de consumo cada vez mais competitivo e impactado pela inflação, que leva os consumidores a buscarem alternativas mais baratas.
O futuro da governança na gigante de alimentos
O episódio também acelera a discussão sobre a renovação do conselho de administração da Nestlé. Composto por 14 membros, o órgão tem sido alvo de críticas pela longa permanência de alguns de seus diretores, incluindo o próprio presidente Paul Bulcke, cuja saída está prevista para 2026.
A expectativa é que a empresa busque injetar mais diversidade e novas perspectivas em sua alta cúpula nos próximos anos. Para especialistas em compliance, o caso Freixe se torna um marco, demonstrando a eficácia dos canais de denúncia anônima e o compromisso da liderança em agir de forma decisiva para preservar a integridade e a reputação da companhia no longo prazo.
















