Selênio reduz toxicidade do mercúrio em ribeirinhos do Pará, aponta USPPor Manuela
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Moradores ribeirinhos do Pará que chegam a ter mercúrio no sangue até 12 vezes acima do limite de segurança da Organização Mundial da Saúde (OMS) sofrem menos efeitos tóxicos do metal por causa do selênio. A conclusão vem de um estudo coordenado pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP), divulgado em 14 de outubro de 2026.
A pesquisa foi feita em parceria com a Université de Pau et des Pays de l’Adour, da França, e indica que o selênio atua antes de o mercúrio causar dano às células. Para o coordenador brasileiro, o trabalho muda a forma de entender a proteção do nutriente. “Os resultados sugerem que o selênio não atua apenas depois que o mercúrio começa a produzir danos, reforçando as defesas antioxidantes do organismo. Sua ação parece ocorrer antes disso, na própria toxicocinética do contaminante, isto é, nos processos que determinam como ele circula no organismo, se distribui entre os tecidos e passa por transformações até ser finalmente eliminado”, declarou Fernando Barbosa Júnior, professor da FCFRP-USP e coordenador da pesquisa no Brasil.
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De que forma o selênio enfrenta o mercúrio dentro do corpo
Este é o primeiro estudo realizado na Amazônia que mede, ao mesmo tempo, as duas formas principais do metal, o metilmercúrio e o mercúrio inorgânico, no sangue total, no plasma e na urina dos mesmos voluntários. Na região, a exposição acontece sobretudo pelo consumo de peixes, e mais de 80% do contaminante presente neles está na forma de metilmercúrio. Trata-se de um composto orgânico capaz de atravessar membranas biológicas e chegar ao sistema nervoso central, o que pode causar perda de coordenação motora, falhas de memória, problemas de visão e danos ao desenvolvimento neurológico de fetos.
As análises mostraram que somente 7% do metilmercúrio no sangue estavam ligados ao plasma, a parte líquida responsável por levar substâncias a outros tecidos. Os outros 93% ficaram retidos nas células sanguíneas, sobretudo nas hemácias. Pela primeira vez em seres humanos, os cientistas descreveram que, quanto maior a concentração de selênio no sangue, menor é a passagem do metilmercúrio das células para o plasma. No sangue total, o metilmercúrio correspondeu em média a 76% do metal detectado, e o mercúrio inorgânico, a 24%. No plasma, a média mudou para 49% de metilmercúrio e 51% de mercúrio inorgânico.
O estudo também encontrou que níveis mais altos de selênio no sangue e na urina estão ligados a uma proporção maior de mercúrio inorgânico eliminada pelos rins. Esse resultado sustenta a hipótese de que o nutriente favorece a desmetilação, processo em que o metilmercúrio perde parte da estrutura dentro do corpo e vira mercúrio inorgânico. Esta última forma é a que os rins eliminam em maior quantidade.
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Dois mecanismos bioquímicos explicam essa barreira no organismo humano. O primeiro é a afinidade química direta entre o selênio e o mercúrio, que é maior do que a atração do metal pelo enxofre. Essa ligação forma compostos pouco solúveis, com menor capacidade de circular livremente e de interagir com estruturas celulares. O segundo envolve as selenoproteínas, proteínas que têm selênio em sua estrutura e atuam como enzimas antioxidantes. Elas neutralizam espécies reativas de oxigênio, moléculas instáveis que se multiplicam com a presença do metal pesado.
Quem participou da pesquisa e quantos voluntários foram avaliados no Pará
O artigo científico tem como primeira autora Juliette Esplugas e como autora correspondente Zoyne Pedrero, ambas pesquisadoras do Institut des Sciences Analytiques et de Physico-chimie pour l’Environnement et les Matériaux (IPREM), ligado à universidade francesa e ao Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Também assinam o trabalho Gabriel Neves Cezarette, da FCFRP-USP, e Emmanuel Tessier, Maïté Bueno e Camille Chen, da instituição francesa. A rede de colaboração reuniu ainda cientistas da Espanha, da Eslovênia, da Rússia e dos Estados Unidos. Os principais dados técnicos do levantamento são estes:
- Artigo: “Species-Resolved Mercury in a Brazilian Amazonian Population: Tracking Selenium Modulation of Blood Partitioning and Urinary Excretion”, publicado online em 22 de julho de 2026 na revista Environment & Health, da American Chemical Society (ACS Publications).
- Coleta de campo: amostras de sangue e urina recolhidas entre outubro e novembro de 2022 de 1.089 voluntários adultos, em 13 comunidades ribeirinhas das bacias dos rios Tapajós e Amazonas, no Pará.
- Recorte de especiação: 56 participantes escolhidos por apresentarem ampla variação de mercúrio e selênio no sangue, de localidades como Brasília Legal, Aveiro, Boim, Arapixuna, Surucuá, Cametá, Parauá, Pinhel, Amorim e Suruacá.
- Escala do programa: os dados fazem parte de um Projeto Temático financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que reúne informações de mais de 3 mil participantes na Amazônia.
Por que o mercúrio chega aos rios e o que mudou nas comunidades
A investigação atual dá sequência a mais de duas décadas de acompanhamento na região. Um estudo do mesmo grupo, publicado em 2013, já havia mostrado que moradores com maior fração de metilmercúrio no plasma sofriam efeitos tóxicos mais graves. Pesquisas ômicas, que analisam moléculas em larga escala, reforçaram esse quadro. Em 2025, um artigo na revista Environmental Pollution registrou que ribeirinhos muito expostos ao metal, mas com níveis altos de selênio, tinham perfis metabólicos parecidos com os de pessoas pouco expostas. Um levantamento de transcriptômica, por sua vez, detectou alterações na expressão de mais de 14 mil genes ligados à exposição crônica ao contaminante.
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Sobre a origem do metal nas águas, o garimpo despeja entre 90 e 110 toneladas anuais de mercúrio metálico na bacia do Tapajós e revolve sedimentos. Pesquisas da década de 1990 na mesma bacia atribuíram cerca de 3% do total diretamente à atividade garimpeira. Já um estudo de 2001 no rio Negro, conduzido por Pedro Fadini, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e Wilson Jardim, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), apontou que grande parte do elemento está acumulada no solo há milhares de anos e chega aos rios por lixiviação, a lavagem do solo pelas chuvas.
Nos últimos 20 anos, os cientistas registraram queda nos níveis de exposição ao mercúrio nas comunidades do Tapajós. Segundo eles, a redução se deve à troca do peixe por frango congelado e ultraprocessados, como salsichas e outros embutidos. A chegada da energia elétrica e a menor oferta de pescado, por causa de mudanças climáticas e ambientais, ajudaram nessa troca. “Há comunidades com deficiência de ferro e de iodo, além de anemia. Este já é um quadro de insegurança alimentar. Uma atuação para que essa população diminua o consumo de peixe por causa do mercúrio tenderia a piorar a situação. Se a intervenção dos agentes de saúde não considerar tudo isso, poderá trocar um problema por outro ainda maior”, afirmou Barbosa Júnior.
Os autores também afirmam que os resultados não justificam o consumo indiscriminado de suplementos de selênio. O nutriente se torna tóxico quando ingerido em excesso, e seu efeito depende da dose, da forma química e das condições nutricionais de cada pessoa. Ainda não se sabe quais biomoléculas fazem o transporte e a desmetilação observados nos moradores da Amazônia. A próxima etapa da pesquisa vai verificar a participação de três candidatas: a selenoproteína P, a enzima antioxidante glutationa peroxidase e as formas de selênio ligadas à albumina.
















