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Objeto metálico encontrado em Marte pelo rover Perseverance intriga cientistas da Nasa por sua composição

Por Jeronimo Santos · · 8 min de leitura
Foto: Nasa / The Bold Bureau / Shutterstock.com
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Uma descoberta na superfície de Marte está redefinindo as prioridades de pesquisa da missão Perseverance. O rover da Nasa identificou uma rocha de aparência incomum na cratera Jezero, cuja composição, rica em ferro e níquel, sugere fortemente uma origem extraterrestre. O objeto, agora batizado de Phippsaksla, não parece ser nativo do planeta vermelho, levantando a hipótese de que se trata de um meteorito que sobreviveu à entrada na fina atmosfera marciana.

A análise preliminar foi conduzida utilizando o conjunto de instrumentos avançados do rover, incluindo o SuperCam, que emprega um laser para vaporizar pequenas porções da superfície rochosa e analisar sua composição química à distância. Os dados coletados confirmaram a alta concentração de metais, uma assinatura característica de fragmentos de asteroides que se formaram nos primórdios do nosso sistema solar.

Localizada na região de Vernodden, a rocha se destaca visualmente do terreno circundante, que é predominantemente composto por rochas sedimentares e vulcânicas. Este achado oferece aos cientistas uma oportunidade rara de estudar materiais de outras partes do sistema solar diretamente na superfície marciana, fornecendo pistas valiosas sobre a formação planetária e o histórico de impactos que moldaram os planetas rochosos.

Nasa – Foto: Tada Images / Shutterstock.com

Análise detalhada da rocha Phippsaksla

Com aproximadamente 80 centímetros de largura, a Phippsaksla exibe uma textura visivelmente erodida e um formato esculpido pela ação dos ventos marcianos ao longo de milênios. As imagens de alta resolução capturadas pela Mastcam-Z, um par de câmeras panorâmicas do rover, revelam cavidades e bordas irregulares que contrastam fortemente com as rochas basálticas mais lisas da cratera Jezero. O processo de análise inicial envolveu disparos de laser pelo instrumento SuperCam, que permitiram aos cientistas na Terra identificar os elementos químicos presentes sem a necessidade de contato físico. Os resultados espectrais indicaram a ausência significativa de minerais comuns em Marte, como a olivina em abundância, reforçando a teoria de que o objeto é um meteorito metálico. Essa composição é típica de núcleos de asteroides que foram aquecidos e diferenciados em camadas no início da história do Sistema Solar, há mais de 4 bilhões de anos. A descoberta é consistente com modelos de bombardeio tardio, período em que inúmeros asteroides e cometas colidiram com os planetas internos, e complementa dados de orbitadores como o Mars Reconnaissance Orbiter, que mapeiam depósitos metálicos expostos na superfície.

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O contexto geológico da cratera Jezero

A cratera Jezero, com seus 45 quilômetros de diâmetro, foi escolhida como local de pouso para o Perseverance por uma razão específica: evidências orbitais indicam que ela abrigou um grande lago e um delta de rio há cerca de 3,8 bilhões de anos. Este ambiente antigo pode ter contido as condições necessárias para o surgimento de vida microbiana, tornando a cratera um dos locais mais promissores para buscar bioassinaturas, ou seja, vestígios de vida passada. As rochas sedimentares depositadas pelo antigo rio são os alvos primários da missão, pois podem preservar matéria orgânica.

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Nesse cenário, a rocha Phippsaksla representa uma anomalia geológica, um “intruso” que não compartilha da mesma história sedimentar que o leito da cratera. Sua presença indica um evento de impacto que ocorreu muito depois que o lago secou, introduzindo material de uma fonte completamente diferente no registro geológico local. Estudar a interação entre este meteorito e o ambiente marciano pode revelar informações sobre as taxas de erosão e os processos de intemperismo no planeta, além de servir como um ponto de calibração para os instrumentos do rover ao analisar uma composição química já bem compreendida de meteoritos metálicos.

Implicações para a história do sistema solar

A identificação de meteoritos como a Phippsaksla em Marte é de extrema importância para a ciência planetária. Esses objetos são essencialmente cápsulas do tempo, contendo materiais que datam da formação do sistema solar. Acredita-se que meteoritos de ferro e níquel sejam fragmentos dos núcleos de planetesimais, corpos rochosos primitivos que nunca chegaram a se tornar planetas completos.

Ao estudar esses fragmentos, os cientistas podem entender melhor os processos de diferenciação planetária, nos quais materiais mais densos, como os metais, afundaram para formar o núcleo de um corpo celeste. A análise da composição isotópica desses materiais, algo que só poderá ser feito quando as amostras retornarem à Terra, pode revelar a “impressão digital” da região do sistema solar onde o asteroide original se formou.

Marte funciona como um museu natural para esses artefatos cósmicos. Diferente da Terra, onde a atmosfera mais espessa queima a maioria dos meteoritos e onde a atividade geológica e a erosão pela água rapidamente apagam as evidências, a superfície marciana preserva esses objetos por períodos muito mais longos. Cada meteorito encontrado adiciona uma peça ao quebra-cabeça da história violenta e dinâmica do início do nosso sistema solar.

Avanços operacionais da missão Perseverance

A capacidade de encontrar alvos tão específicos como a rocha Phippsaksla é um testemunho dos avanços tecnológicos da missão. O Perseverance tem demonstrado uma eficiência notável em sua travessia pela cratera. Em junho de 2025, o rover estabeleceu um novo recorde de deslocamento, percorrendo 411 metros em um único sol (um dia marciano), graças ao seu sistema de navegação autônoma, o AutoNav.

Essa tecnologia permite que o rover analise o terreno à sua frente em tempo real e planeje a rota mais segura e eficiente sem intervenção constante da equipe na Terra. Essa autonomia acelera o ritmo da exploração científica, permitindo que o Perseverance cubra mais terreno e investigue uma maior diversidade de características geológicas, aumentando assim as chances de descobertas importantes.

Estratégia de coleta de amostras é reavaliada

A descoberta da Phippsaksla levou a equipe da missão a discutir a possibilidade de coletar uma amostra de um meteorito. Embora o foco principal permaneça nas rochas sedimentares que podem conter sinais de vida, uma amostra de material extraterrestre seria de imenso valor científico.

O rover Perseverance está equipado com um sofisticado sistema de perfuração e armazenamento, carregando 43 tubos de titânio para coletar amostras de rocha e regolito (solo marciano). Até o momento, uma parte significativa desses tubos já foi preenchida com materiais cuidadosamente selecionados ao longo da borda da cratera.

Antes de decidir perfurar, a equipe utiliza uma ferramenta de abrasão para remover a camada superficial da rocha, expondo o material não alterado pelo intemperismo. Em seguida, instrumentos como o PIXL (Planetary Instrument for X-ray Lithochemistry) mapeiam a composição elementar da área em escala microscópica.

Essas amostras estão sendo depositadas em locais estratégicos na superfície para serem recuperadas por uma futura missão, a Mars Sample Return. Este programa, uma colaboração entre a Nasa e a Agência Espacial Europeia (ESA), planeja lançar uma série de espaçonaves na década de 2030 para buscar os tubos e trazê-los à Terra para análise em laboratórios avançados.

Descobertas anteriores de meteoritos em Marte

A Phippsaksla se junta a uma crescente lista de meteoritos encontrados em Marte por missões robóticas. Os rovers Spirit e Opportunity, que exploraram o planeta em décadas passadas, foram os pioneiros nessas descobertas. O Opportunity, em particular, encontrou o primeiro meteorito em outro planeta, batizado de “Heat Shield Rock”, em 2005, na região de Meridiani Planum. O rover Curiosity também identificou diversos meteoritos metálicos e rochosos na cratera Gale, fornecendo um catálogo comparativo valioso.

O papel dos instrumentos de alta tecnologia

A capacidade de realizar ciência complexa a milhões de quilômetros de distância depende diretamente do conjunto de instrumentos de ponta a bordo do Perseverance. A sinergia entre as diferentes ferramentas é o que possibilita descobertas como a da Phippsaksla. Enquanto a Mastcam-Z fornece o contexto visual e geológico, o SuperCam oferece uma análise química rápida para identificar alvos promissores.

Posteriormente, instrumentos de contato como o PIXL e o SHERLOC (Scanning Habitable Environments with Raman & Luminescence for Organics and Chemicals) podem realizar análises muito mais detalhadas. Essa abordagem em camadas permite que a equipe da missão tome decisões informadas e utilize os recursos limitados do rover, como energia e tempo, da maneira mais eficaz possível para maximizar o retorno científico da missão.

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