Isolamento digital se aprofunda no Irã em 2025, com internet sob controle rígido e futuro incerto

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A conectividade à internet no Irã foi parcialmente restabelecida em uma terça-feira recente de 2025, após um bloqueio que durou quase 20 dias, imposto pelo governo para reprimir protestos antigovernamentais em massa. Contudo, especialistas alertam que, mesmo com o fim do apagão, a perspectiva para o acesso online no país permanece sombria, sinalizando uma “nova era de isolamento digital”.

Monitoradores da internet do grupo NetBlocks e da plataforma americana Kentik confirmaram a retomada de parte do tráfego, mas ressaltam que o cenário é de controle crescente. Milhares de manifestantes foram mortos durante a repressão que antecedeu o corte, e o regime iraniano tem avançado em planos de longa data para “suspender” o acesso à internet internacional para a maioria da população.

Esta movimentação coloca o Irã em um caminho de maior restrição digital, afastando-o da conectividade global e limitando severamente a comunicação e o acesso à informação para seus cidadãos.

Uma “nova era de isolamento digital”

Especialistas em segurança cibernética expressam preocupação com a persistência das restrições. Amir Rashidi, diretor de direitos digitais do Miaan Group, uma organização dedicada aos direitos humanos no Irã, observou que interrupções anteriores raramente resultam em um retorno completo à normalidade.

Após o apagão de 2022, em meio a protestos pela morte de Mahsa Amini, de 22 anos, sob custódia policial, plataformas como o Instagram foram bloqueadas. O aplicativo de mensagens Telegram também foi banido após protestos em 2018, exemplificando a tendência de censura progressiva do regime.

A estratégia da “lista branca” para controle total

Atualmente, o governo iraniano intensificou a implementação de uma tecnologia que permite o acesso à internet internacional apenas a indivíduos com autorização de segurança, confirmou Rashidi à CNN. Essa medida é conhecida como “lista branca” por especialistas.

O sistema de “lista branca” autoriza um pequeno grupo de usuários a ter cartões SIM de celular ou permissões específicas para acesso irrestrito à internet externa. Todos os demais são efetivamente censurados, forçados a depender da internet nacional, um ambiente onde o regime pode rastrear usuários e bloquear sites não autorizados com facilidade.

Essa tática representa uma mudança significativa na abordagem de censura do país, passando de um bloqueio de sites e aplicativos específicos para uma política de manter grandes parcelas da população iraniana em um estado perpétuo de ignorância e controle informacional.

Instabilidade persistente e novas táticas de filtragem

Desde que a conectividade parcial foi restabelecida, os padrões de tráfego de internet têm mostrado grande instabilidade. Doug Madory, diretor de análise de internet da Kentik, especula que “talvez um novo sistema de filtragem de tráfego tenha sido instalado e não esteja conseguindo lidar com a demanda”.

A NetBlocks relatou que a maioria dos usuários comuns ainda enfrenta filtragem pesada e serviço intermitente sob o sistema de lista branca, mesmo com um aumento significativo na visibilidade internacional de algumas redes e data centers. A análise de e-mails hackeados pelo Miaan Group revelou alguns dos planos de censura do judiciário iraniano, indicando que a infraestrutura para essa política já está estabelecida.

Repressão às soluções alternativas: Starlink e VPNs

A censura na internet no Irã se tornou um jogo de gato e rato, com a população iraniana sendo uma das mais sofisticadas do mundo em burlar restrições online. A principal ferramenta de evasão é a internet via satélite, como a Starlink de Elon Musk, que foi disponibilizada gratuitamente no Irã.

Mahsa Alimardani, diretora associada de ameaças e oportunidades tecnológicas da organização Witness, destaca que a conectividade via satélite “não depende da soberania”, o que a torna uma ferramenta disruptiva. No entanto, estima-se que apenas cerca de 50.000 terminais Starlink tenham entrado ilegalmente no país, em uma nação de aproximadamente 92 milhões de habitantes.

O governo iraniano tem reprimido severamente os usuários de internet via satélite, com prisões para aqueles que contrabandeiam os terminais e a imposição de pena de prisão pela posse de um Starlink. Há relatos de repressão física em residências onde receptores de satélite foram descobertos. O regime também tenta interromper os sinais da Starlink usando ferramentas de guerra eletrônica.

Desafios e custos da internet via satélite

Os terminais Starlink são caros, custando cerca de US$ 2.000 no mercado negro iraniano, e o governo tem interesse em convencer a população de que esse investimento seria desperdiçado devido às represálias. Amir Rashidi acredita que, no futuro, o governo iraniano “investirá mais no controle da internet via satélite”, o que aponta para um aumento da vigilância e das tentativas de bloqueio.

Além da Starlink, redes privadas virtuais (VPNs), que mascaram a localização do usuário, têm sido utilizadas. Embora o governo dos EUA tenha financiado VPNs no Irã no passado, cortou esse financiamento em 2024. As VPNs só funcionam se houver alguma conectividade, e mesmo assim, governos autoritários como o iraniano avançam em sistemas sofisticados para identificar e bloquear seu tráfego.

Antonio Cesarano, gerente de produto principal do Proton VPN, explica que, mesmo quando o bloqueio é suspenso, os recursos de filtragem são “muito robustos” e difíceis de contornar. Usuários iranianos frequentemente se preparam com múltiplas VPNs, testando-as para manter a comunicação com suas famílias no exterior e “continuar com a vida”.

O alto custo da censura para a economia iraniana

Em comparação com outras autocracias, o Irã tem uma facilidade maior em implementar censura generalizada na internet devido ao seu isolamento econômico. A ausência de transações internacionais com cartão de crédito e a dependência mínima de serviços estrangeiros como Netflix ou Amazon significam que um bloqueio internacional de internet tem um impacto menor nas operações econômicas críticas do país.

O mais recente bloqueio total marcou o apagão mais longo na história do Irã, superando em quase duas semanas o bloqueio de internet de 2019, que, segundo estimativas de um ex-presidente da Câmara de Comércio do Irã, custou ao país impressionantes US$ 1,5 bilhão. Apesar das pressões internas de setores econômicos que se beneficiam do acesso à internet, a liderança do regime parece indecisa sobre o rumo a seguir, evidenciando um dilema interno entre controle e desenvolvimento.

O futuro incerto da conectividade no Irã

Apesar da resiliência da população iraniana em buscar soluções alternativas para o acesso à internet, o cenário é cada vez mais desafiador. Amir Rashidi reitera que o “futuro é muito mais sombrio”, antevendo um aumento no controle militar e na vigilância da internet por parte do regime.

A expansão da política de “lista branca” e os esforços para reprimir as soluções alternativas indicam uma intensificação do controle digital. O Irã avança para um estado de isolamento onde a maioria de seus cidadãos terá acesso limitado e monitorado à internet, comprometendo a liberdade de expressão e o acesso à informação de forma inédita.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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