A Polícia Civil de Santa Catarina concluiu a investigação sobre a morte do cão comunitário Orelha e a tentativa de afogamento de outro cachorro, Caramelo, na Praia Brava, em Florianópolis. Os eventos, ocorridos no início de 2026, levaram à identificação de um adolescente como principal autor da agressão fatal contra Orelha e de outros quatro jovens envolvidos no ataque a Caramelo.
Os inquéritos apontaram que os adolescentes cometeram atos infracionais análogos ao crime de maus-tratos contra animais, conforme a legislação brasileira. A conclusão das apurações representa um desfecho para os casos que geraram forte comoção e mobilizaram a comunidade local em busca de justiça para os animais.
Com base nas evidências coletadas, a autoridade policial solicitou a internação provisória do adolescente diretamente ligado à morte de Orelha. O jovem esteve fora do país durante parte da investigação, o que representou um desafio adicional para o andamento do processo.
O adeus a Orelha e a mobilização na Praia Brava
Orelha era uma figura emblemática na Praia Brava, onde viveu por mais de uma década. Conhecido por seu comportamento dócil e amigável, o cão comunitário era cuidado e querido por moradores, comerciantes e turistas, tornando-se parte integrante da identidade local. Sua presença constante trazia uma sensação de familiaridade e alegria ao cotidiano do bairro, sendo um ponto de referência afetivo para muitos que frequentavam a região.
A médica veterinária Fernanda Oliveira, que monitorava a saúde do animal, o descreveu como excepcionalmente meigo. A morte de Orelha, em 4 de janeiro de 2026, gerou uma onda de tristeza e indignação, resultando em manifestações pacíficas em Florianópolis e outras cidades. O caso uniu ativistas, cidadãos e organizações na exigência de uma apuração rigorosa, reacendendo o debate sobre a proteção animal em áreas urbanas.
Os bastidores da apuração policial
A investigação foi marcada por uma análise detalhada de mais de mil horas de filmagens de 14 câmeras de segurança, além da coleta de depoimentos de 24 testemunhas e da oitiva de oito adolescentes suspeitos. Segundo o delegado Renan Balbino, um ponto crucial para a elucidação do caso foi a identificação de uma inconsistência no depoimento de um dos jovens, que tentou negar sua presença no local do crime. O adolescente afirmou ter ficado na piscina de um condomínio, mas as imagens o registraram saindo às 5h25 e retornando às 5h58, contradizendo sua versão e fornecendo uma linha de investigação decisiva. A estratégia de manter em sigilo as provas já obtidas foi fundamental para evitar a destruição de evidências ou uma possível fuga.
Provas materiais e a estratégia de abordagem
Um dos principais suspeitos estava fora do Brasil até 29 de janeiro, e a polícia monitorou seu retorno, antecipando o voo para realizar a abordagem no aeroporto.
Durante o procedimento, a delegada Mardjoli Valcareggi observou que um familiar tentou esconder um boné rosa na bolsa, levantando suspeitas imediatas.
Além disso, ao encontrarem um moletom na mala do jovem, a família alegou que a peça havia sido comprada durante a viagem, uma afirmação que pareceu suspeita às autoridades.
Ambas as peças de vestuário foram apreendidas e, após análise pericial, foi confirmado que eram as mesmas utilizadas pelo adolescente nas filmagens do dia das agressões.
Implicações legais e a aplicação do ECA
Laudos da Polícia Científica confirmaram que Orelha, um animal idoso, morreu devido a uma pancada violenta na cabeça, possivelmente causada por um objeto rígido ou um chute.
No caso de Caramelo, a tentativa de afogamento também foi classificada como um ato de extrema crueldade, configurando o crime de maus-tratos.
A legislação brasileira, por meio da Lei de Crimes Ambientais, prevê penas severas para esses atos, especialmente quando envolvem cães e gatos e resultam em morte. Três adultos também foram indiciados por coação no curso do processo. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina o sigilo do caso e prevê medidas socioeducativas para os menores de idade, visando à responsabilização e reeducação.
Ações comunitárias e o futuro da proteção animal
A comoção gerada pelos casos impulsionou a comunidade da Praia Brava a buscar soluções para aumentar a segurança dos animais locais. Entre as propostas estão a instalação de mais câmeras de vigilância em pontos estratégicos e o desenvolvimento de campanhas de conscientização sobre o respeito à vida animal. Essa mobilização social pressiona o poder público a adotar políticas mais eficazes de proteção, transformando a tragédia em um catalisador para mudanças culturais e legislativas duradouras.
A repercussão social e a defesa dos acusados
O caso transcendeu as fronteiras de Florianópolis, alimentando um debate nacional sobre violência juvenil e crueldade contra animais. Moradores e empresários da Praia Brava, como Silvio Gasperin, que encontrou Orelha ferido, descreveram o ato como uma “crueldade sem tamanho”, refletindo o sentimento de repulsa coletiva. A união da comunidade para cobrar justiça demonstrou a força da ação cívica em prol da causa animal.
Em contrapartida, os advogados Alexandre Kale e Rodrigo Duarte, representantes do principal suspeito, afirmaram em nota que as informações divulgadas são “elementos meramente circunstanciais”. A defesa alega que não há provas definitivas da culpa de seu cliente e critica a “politização do caso”, argumentando que a pressão pública por uma resolução rápida pode comprometer a busca pela verdade e levar a uma condenação injusta.
