Missão Viking da NASA pode ter detectado e eliminado traços de vida em Marte devido a perclorato

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Viking 1, da NASA, durante missão em Marte

Viking 1, da NASA, durante missão em Marte - Reprodução/NASA

Uma nova interpretação de dados coletados pela missão Viking, da NASA, em 1976, sugere que as sondas podem ter encontrado sinais de vida microbiana no solo de Marte. Os experimentos realizados na época, porém, teriam destruído acidentalmente essas evidências ao aquecer as amostras. Essa hipótese ganha força com descobertas posteriores sobre a composição química do planeta.

Os resultados iniciais dos testes biológicos foram considerados inconclusivos ou negativos há 50 anos. Agora, pesquisadores argumentam que a presença de perclorato no solo marciano explica os gases detectados. Essa visão desafia a conclusão tradicional de que Marte seria estéril na superfície.

A discussão reacende o debate sobre a busca por vida extraterrestre. Missões atuais, como o rover Perseverance, coletam amostras que podem trazer respostas definitivas no futuro.

  • A sonda Viking 1 pousou em Marte em 20 de julho de 1976, na região de Chryse Planitia.
  • A Viking 2 chegou em setembro do mesmo ano, em Utopia Planitia.
  • Ambas carregavam instrumentos para analisar o solo em busca de atividade biológica.
  • Os testes incluíam aquecimento progressivo das amostras para liberar compostos.

Experimentos realizados pelas sondas Viking

As sondas Viking 1 e 2 executaram três experimentos principais destinados a identificar sinais de metabolismo microbiano. Um quarto instrumento, o cromatógrafo gasoso-espectrômetro de massas (GC-MS), buscava moléculas orgânicas diretamente no solo. Os resultados iniciais de alguns testes mostraram liberação de gases que pareciam indicar atividade biológica.

No entanto, o GC-MS não detectou compostos orgânicos complexos, apenas dióxido de carbono e traços de cloretos. Essa ausência levou a equipe da NASA, na época, a concluir que o planeta não abrigava vida na superfície. A interpretação dominante apontava para reações químicas não biológicas.

Descoberta de perclorato muda interpretação

A identificação de perclorato no solo marciano pela sonda Phoenix, em 2008, forneceu uma explicação alternativa. Esse composto químico, quando aquecido, reage vigorosamente com matéria orgânica, destruindo-a e liberando gases simples. Experimentos em laboratório reproduziram exatamente os resultados observados pela Viking.

Pesquisadores demonstraram que níveis baixos de perclorato, cerca de 0,1%, seriam suficientes para degradar orgânicos durante o aquecimento. Assim, os cloretos detectados não seriam contaminação terrestre, mas produtos de decomposição. Essa evidência sugere que moléculas orgânicas estavam presentes, mas foram eliminadas pelo próprio processo de análise.

O perclorato também explica a ausência de compostos mais complexos nas amostras vaporizadas. Testes posteriores confirmaram que a combinação de orgânicos com perclorato gera os mesmos padrões gasosos registrados em 1976.

Resultados positivos nos testes biológicos

Um dos experimentos, conhecido como Liberação de Marcador, injetava nutrientes radioativos no solo e media liberação de gases. Os resultados mostraram atividade que se assemelhava a metabolismo microbiano. Outro teste detectou fixação de carbono, processo típico de organismos autotróficos.

Gil Levin, cientista responsável por um desses experimentos, defendeu por décadas que os dados indicavam vida. Ele argumentava que nenhuma explicação química abiótica reproduzia todos os padrões observados. A hipótese de perclorato reforça essa posição ao resolver contradições anteriores.

Os testes de troca gasosa também registraram variação de oxigênio compatível com respiração biológica. Esses sinais, antes atribuídos a oxidantes desconhecidos, ganham nova leitura com o modelo atual.

Modelo BARSOOM para microrganismos marcianos

O químico Steve Benner, da Fundação para a Evolução Molecular Aplicada, desenvolveu o modelo BARSOOM para explicar possível vida atual em Marte. A sigla representa bactérias autotróficas que respiram oxigênio armazenado no planeta. Esses organismos hipotéticos produziriam oxigênio por processos semelhantes à fotossíntese em condições antigas mais úmidas.

Eles armazenariam o gás para uso posterior em ambiente seco e oxidante. O modelo prevê que tais micróbios sobreviveriam em nichos subterrâneos ou protegidos. Os dados da Viking seriam compatíveis com a presença desses organismos nas amostras coletadas.

Benner destaca que o GC-MS detectou produtos de degradação, não ausência de orgânicos. Essa abordagem evita a necessidade de oxidantes exóticos para explicar os resultados.

Implicações para missões atuais em Marte

O rover Perseverance, operando desde 2021, coleta amostras em locais com alto potencial astrobiológico. Essas rochas serão retornadas à Terra para análises mais sensíveis. Os métodos atuais evitam aquecimento agressivo que poderia destruir evidências frágeis.

A missão Mars Sample Return planeja trazer material marciano até 2030. Laboratórios terrestres poderão detectar traços orgânicos preservados naturalmente. Essa estratégia contorna limitações enfrentadas pela Viking há meio século.

Contexto histórico da missão Viking

As sondas Viking representaram o primeiro pouso bem-sucedido prolongado em Marte. Elas transmitiram as primeiras imagens coloridas da superfície e dados atmosféricos detalhados. A busca por vida era o objetivo principal, refletindo o interesse científico da época.

Apesar da conclusão negativa inicial, os instrumentos forneceram informações valiosas sobre geologia e clima. As missões duraram anos além do planejado, expandindo o conhecimento sobre o planeta.

Avanços recentes na exploração marciana

Missões posteriores confirmaram a presença de água congelada e condições habitáveis no passado. Descobertas de metano atmosférico variável mantêm o debate sobre processos biológicos. Orbitadores mapeiam depósitos minerais associados a ambientes aquosos antigos.

O rover Curiosity detectou moléculas orgânicas complexas em rochas sedimentares. Esses achados reforçam a possibilidade de vida microbiana primitiva. A combinação de evidências acumula um cenário favorável à reavaliação de dados antigos.

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