Paquistão declara ‘guerra aberta’ contra Afeganistão após troca de ataques intensos
O Paquistão e o Afeganistão protagonizaram uma intensa troca de ataques na madrugada desta sexta-feira, 27 de fevereiro, horário de Brasília, após Islamabade ter declarado uma “guerra aberta” ao país vizinho. Os militares paquistaneses realizaram bombardeios contra diversas cidades afegãs, incluindo a capital Cabul, e divulgaram imagens que alegavam serem dos ataques. A ação representa uma escalada significativa nas relações já fragilizadas entre os dois países.
Autoridades paquistanesas informaram que os ataques envolveram mísseis disparados por via aérea, visando escritórios e postos militares do Talibã em Cabul, Kandahar e também na província de Paktia. Testemunhas locais confirmaram a ocorrência de explosões e o sobrevoo de caças nas áreas afetadas, gerando apreensão e incerteza sobre o futuro da região.
Em resposta, o Talibã anunciou que conduziu “com sucesso” bombardeios com drones contra instalações militares paquistanesas. Os alvos incluíram cidades estratégicas como Islamabad, Nowshera, Jamrud e Abbottabad, caracterizando os ataques como uma retaliação direta às ações paquistanesas.
Intensificação do confronto aéreo e terrestre

A ofensiva paquistanesa incluiu ataques direcionados a postos militares e locais estratégicos, considerados bases do Talibã. A escolha de Kandahar como um dos alvos é particularmente notável, dada a sua importância como quartel-general do grupo e residência do líder espiritual supremo, Haibatullah Akhundzada. A utilização de mísseis aéreos demonstra a capacidade e a determinação de Islamabade em atingir os alvos definidos.
Por sua vez, os contra-ataques do Talibã com drones representam uma forma de resposta assimétrica, visando minimizar a desvantagem militar e demonstrar capacidade de retaliação. Embora o ministro da Informação do Paquistão, Attaullah Tarar, tenha afirmado que todos os drones rivais foram abatidos e que não houve vítimas, a ação sublinha a complexidade e a imprevisibilidade do cenário de segurança regional.
Balanço de baixas e a versão dos fatos
O porta-voz do Exército do Paquistão, Ahmed Sharif Chaudhry, declarou que 22 alvos militares afegãos foram atingidos e um total de 274 “autoridades e militantes do regime do Talibã” foram mortos desde a noite da quinta-feira. Adicionalmente, Chaudhry confirmou a morte de pelo menos 12 soldados paquistaneses no conflito em curso, indicando a intensidade dos combates. O Afeganistão, contudo, não confirmou essas mortes, mantendo a incerteza sobre o número real de vítimas.
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O governo do Paquistão justificou sua “guerra aberta” com a afirmação de que “a paciência chegou ao limite” em relação às atividades no país vizinho. Esta declaração segue meses de tensões crescentes e um acordo de cessar-fogo mediado pelo Catar em outubro do ano anterior, que falhou em garantir uma paz duradoura. Islamabade expressou prontidão para “esmagar” o Talibã, que atualmente controla o Afeganistão.
As autoridades paquistanesas reiteraram que a operação ainda está em andamento, e qualquer provocação adicional por parte afegã receberá uma resposta imediata e contundente. Esta postura endurecida reflete a deterioração profunda das relações e a determinação de Islamabad em garantir sua segurança territorial contra ameaças percebidas vindas do Afeganistão. O cenário aponta para uma prolongada instabilidade na fronteira.
Raízes da tensão e a ruptura de alianças
O início deste conflito marca o ponto culminante de meses de desentendimentos e escaramuças na fronteira entre os dois países vizinhos. Registros de trocas de tiros em regiões fronteiriças, especialmente na quinta-feira e ao longo da madrugada desta sexta-feira, evidenciam a fragilidade da situação. Soldados de ambos os lados têm se envolvido em combates com armas leves e artilharia, indicando a seriedade do confronto.
Os ataques aéreos paquistaneses são um marco, pois representam a primeira vez que Islamabad mirou diretamente em instalações do Talibã. Essa ação sublinha uma nova ruptura nas relações bilaterais. Antes considerados aliados próximos em certos contextos regionais, os países agora se encontram em um conflito aberto, cujas proporções ainda são incertas e podem se alastrar.
O Paquistão, uma potência nuclear, tem consistentemente acusado as autoridades talibãs de oferecerem refúgio e cobertura a militantes armados que, segundo Islamabad, lançam ataques contra seu território. Embora o governo afegão negue essas acusações, a percepção de ameaça é um dos principais motores da atual escalada. A falta de confiança mútua tem corroído qualquer base para o diálogo pacífico.
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Confrontos na fronteira e deslocamento
A noite de quinta-feira presenciou uma ofensiva das forças afegãs na fronteira contra tropas paquistanesas. Segundo Cabul, essa ação foi uma resposta direta aos bombardeios paquistaneses que haviam ocorrido no fim de semana anterior, em uma clara demonstração de retaliação imediata e coordenada. A intensidade dos combates indica uma deterioração rápida do ambiente de segurança na região limítrofe.
Relatos de testemunhas adicionam uma dimensão humana ao conflito, descrevendo cenas de evacuação. “Alguns deixaram seus documentos… Não levaram nem o dinheiro, nem a ajuda que tinham recebido. Por medo, todos foram embora”, contou uma testemunha à agência de notícias AFP, ilustrando o desespero e a urgência com que as populações civis buscam segurança em meio aos confrontos.
O ministro do Interior do Paquistão, Mohsin Naqvi, afirmou que os ataques desta sexta-feira e outras ações recentes na província de Paktia são uma “resposta adequada” às incursões e provocações do país vizinho. Essa declaração reforça a narrativa paquistanesa de que suas ações são defensivas e justificadas pelas agressões prévias, alimentando o ciclo de violência.
Apesar da escalada, o porta-voz do governo do Afeganistão, Zabihullah Mujahid, confirmou os ataques aéreos, mas inicialmente afirmou que não houve vítimas. Horas antes, Mujahid havia anunciado a retomada de “operações ofensivas em larga escala” na fronteira, sinalizando a prontidão afegã para o embate. Esta divergência sobre as baixas é comum em conflitos de alta tensão.
Diálogo internacional em busca da paz
Diante da crescente escalada militar, o Irã e a China prontamente se apresentaram como potenciais mediadores para o conflito. O governo iraniano, que partilha fronteiras com o Afeganistão e o Paquistão, e que também está envolvido em negociações para evitar um conflito com os Estados Unidos, ofereceu-se para “facilitar o diálogo” entre as partes. Essa iniciativa busca prevenir uma desestabilização ainda maior na região.
As autoridades chinesas, por sua vez, emitiram um apelo às partes envolvidas para que mantenham a calma e ajam com moderação. Pequim enfatizou a necessidade de “alcançar um cessar-fogo o mais rápido possível e evitar mais derramamento de sangue”, expressando preocupação com as implicações regionais e a perda de vidas. A atuação de mediadores externos é vista como crucial para desescalar a crise.
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Versões opostas e cenário complexo
Desde quinta-feira, as versões sobre a situação apresentadas pelos dois países têm sido contraditórias. O porta-voz afegão Mujahid chegou a afirmar que “dezenas de soldados paquistaneses morreram”, que “vários também ficaram feridos e outros foram tomados como prisioneiros”, e que mais de 15 postos avançados do Paquistão teriam caído em mãos afegãs. Essas alegações, porém, foram prontamente rechaçadas.
O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, desmentiu categoricamente a versão afegã, declarando que “nenhum posto paquistanês foi tomado ou danificado”. Sharif, em contrapartida, afirmou que as forças paquistanesas infligiram “graves perdas” aos afegãos, intensificando a disputa de narrativas sobre os eventos no terreno e a eficácia das operações militares de cada lado.
A deterioração das relações entre Paquistão e Afeganistão é palpável e tem se acentuado consideravelmente nos últimos meses. A fronteira terrestre permanece em grande parte fechada, permitindo apenas a passagem de afegãos que retornam ao seu país, uma medida imposta desde os intensos combates de outubro do ano anterior, que resultaram em mais de 70 mortos em ambos os lados.
Desdobramentos da crise humanitária
Em meio ao período do Ramadã, as ruas de Cabul, apesar dos ataques, apresentavam uma tranquilidade relativa após o amanhecer, com a ausência de uma grande presença das forças de segurança ou de postos de controle ostensivos, conforme observaram repórteres. No entanto, essa aparente calma não diminui a preocupação com as populações civis e o impacto humanitário do conflito em curso.
O papel do EI Khorasan e a lei islâmica
Outro fator complicador na região é a presença do Estado Islâmico – Khorasan (EI Khorasan), considerado um dos braços mais ativos da organização terrorista Estado Islâmico. Este grupo opera tanto no Paquistão quanto no Afeganistão, adicionando uma camada de complexidade e ameaça à segurança, dificultando ainda mais a estabilização de ambos os países e a resolução de disputas internas e fronteiriças.
Além disso, a rigorosa interpretação da lei islâmica imposta pelo movimento Talibã desde seu retorno ao poder no Afeganistão continua a privar mulheres e meninas do direito à educação e ao mercado de trabalho, gerando críticas internacionais e impactando profundamente a sociedade afegã. Este contexto social e político interno contribui para a instabilidade geral da região.
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