Em um desenvolvimento que marca uma escalada significativa nas tensões regionais, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) do Irã confirmou a morte de seu porta-voz, Ali Mohammad Naini, em ataques noturnos realizados conjuntamente pelos Estados Unidos e Israel. O brigadeiro-general de 68 anos, que assumiu a função de porta-voz do IRGC em 2024, foi “martirizado no criminoso e covarde ataque terrorista pelo lado americano-sionista ao amanhecer”, conforme declarado pelo IRGC em um comunicado na última sexta-feira. Este evento se insere em uma série crescente de assassinatos de altos funcionários iranianos desde o início da atual campanha militar na região.
A morte de Naini ocorreu poucas horas depois de sua aparição na televisão nacional, onde fez questão de reiterar a plena capacidade do Irã na fabricação de mísseis, mesmo sob condições de guerra. Ele afirmou categoricamente que a indústria de mísseis iraniana merecia uma “pontuação perfeita” e que não havia preocupação nesse quesito, assegurando a continuidade da produção de mísseis. A declaração visava dissipar quaisquer dúvidas sobre a resiliência militar do país em um momento de intensificação do conflito.
Contrastando com a postura iraniana, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu havia afirmado, na quinta-feira anterior, que “o Irã não tem mais capacidade de enriquecer urânio e fabricar mísseis balísticos”. Essas declarações opostas sublinham a profunda divergência de narrativas e a natureza da guerra de informações que acompanha os confrontos militares. A situação se agrava com o exército israelense confirmando ataques em Teerã, coincidindo com as celebrações do Ano Novo Persa, Nowruz, e do Eid al-Fitr.
Escalada de assassinatos e a resposta iraniana
A eliminação de Ali Mohammad Naini é mais um elo em uma cadeia de assassinatos de alto perfil que tem desmantelado a estrutura de liderança iraniana em menos de três semanas. Este padrão de ataques direcionados sugere uma estratégia de enfraquecimento do comando e controle do Irã, visando gerar instabilidade e desorganização dentro de suas fileiras militares e políticas. A rapidez e a precisão desses golpes têm sido notáveis, com implicações significativas para a continuidade da governança e da segurança nacional iraniana.
Em um golpe ainda mais devastador, o Líder Supremo aiatolá Ali Khamenei foi morto nas primeiras horas da campanha militar conjunta EUA-Israel em 28 de fevereiro. Ele foi rapidamente substituído por seu filho, Mojtaba Khamenei, indicando uma tentativa de manter a estabilidade da liderança apesar das perdas. Esta transição rápida, no entanto, não minimiza o impacto da perda de uma figura tão central e simbolicamente poderosa para o país e seus apoiadores.
No decorrer da mesma semana, Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã e uma das figuras mais influentes do establishment iraniano, também foi morto em um ataque, juntamente com seu filho e vários assessores. A perda de Larijani representa um vazio considerável na formulação de políticas de segurança, dada a sua experiência e seu papel crucial nas discussões estratégicas do país. Sua morte, somada às demais, projeta uma sombra sobre a capacidade do Irã de manter a coesão em sua liderança.
Outras figuras importantes incluíram o chefe das forças paramilitares Basij, brigadeiro-general Gholamreza Soleimani, e o ministro da Inteligência, Esmail Khatib, ambos confirmados mortos em um período de 48 horas. Além disso, o exército israelense reivindicou na sexta-feira ter matado Esmail Ahmadi, uma figura sênior de inteligência dentro da unidade paramilitar Basij do IRGC, em um ataque a Teerã no início da semana. A sucessão dessas perdas em diferentes setores de segurança e inteligência indica uma campanha coordenada para desabilitar a infraestrutura de defesa iraniana.
Divergências e objetivos estratégicos
Apesar da aparente coordenação militar, surgiram sinais de divergência entre os objetivos de Washington e Tel Aviv em relação ao conflito com o Irã. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, não escondeu a satisfação de Washington com as recentes mortes de oficiais iranianos, sugerindo que “o último trabalho que alguém no mundo quer agora” é um papel de liderança sênior no IRGC ou Basij. Essa retórica reflete uma política de pressão máxima e desmoralização.
No entanto, outros oficiais americanos indicaram que as metas dos EUA e de Israel no Irã podem não estar totalmente alinhadas. A diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, informou ao Comitê de Inteligência da Câmara que os objetivos dos dois países “são diferentes”. Gabbard detalhou que, enquanto Israel tem se “focado em desabilitar a liderança iraniana”, as metas de Trump eram destruir as capacidades de mísseis balísticos do Irã e sua marinha. Essas distinções podem influenciar a natureza e a extensão futuras das operações.
A atmosfera de Nowruz e a resiliência iraniana
Em meio a esses ataques, a capital Teerã vivenciava um clima “silencioso”, conforme relatado por Mohamed Vall da Al Jazeera, com a ausência das festividades habituais nas ruas, mesmo durante o Nowruz e o Eid al-Fitr. A coincidência das festas com a intensificação da campanha militar transformou um período de celebração em um de luto e tensão, evidenciando o profundo impacto do conflito na vida cotidiana da população.
Apesar das perdas e da pressão contínua, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que os EUA e Israel ainda não conseguiram entender que a estrutura política do Irã não se apoia em uma única pessoa. “A presença ou ausência de um único indivíduo não afeta esta estrutura”, declarou Araghchi, reforçando a mensagem de resiliência e continuidade institucional do país. Essa perspectiva iraniana aponta para uma capacidade de absorver choques e manter a estabilidade em face de desafios externos.
As declarações de Naini sobre a capacidade de mísseis do Irã, feitas horas antes de sua morte, e as afirmações de Netanyahu sobre a incapacidade iraniana, ilustram a polaridade da situação. A campanha de assassinatos, embora direcionada à liderança, pode ser vista pelo Irã como uma tentativa de minar sua autonomia e capacidades militares. A insistência do Irã em sua força industrial de defesa sugere uma determinação em manter sua postura de dissuasão, independentemente das perdas de indivíduos importantes.
Desdobramentos e o futuro do conflito
A série de ataques e a resposta iraniana indicam um cenário de volatilidade contínua no Oriente Médio. Netanyahu expressou a visão de que a campanha contra a liderança iraniana visa abrir um caminho para os iranianos “retomarem seu país”, sugerindo que a persistência daria aos cidadãos “uma chance de tomar seu destino em suas próprias mãos”. Essa retórica de “libertação” pode ser interpretada como uma tentativa de galvanizar a oposição interna, embora não haja sinais claros de seu sucesso.
A morte de Ali Mohammad Naini e de outros líderes do IRGC e do governo iraniano certamente testa a capacidade do Irã de sustentar sua liderança e operações. Contudo, a história do país mostra uma capacidade de se adaptar e substituir figuras-chave, o que pode mitigar o impacto a longo prazo desses assassinatos. A tensão permanece alta, e o mundo observa atentamente os próximos movimentos de todas as partes envolvidas, antecipando as repercussões de uma campanha tão agressiva e direcionada na região. A complexidade do cenário exige uma análise contínua e cautelosa para entender os verdadeiros desdobramentos de tais ações.

