O físico Walter Mendes Ferreira atuou de forma decisiva na identificação do acidente com césio-137 ocorrido em Goiânia em setembro de 1987. Aos 29 anos, ele foi chamado para analisar uma substância desconhecida deixada na Vigilância Sanitária dentro de uma sacola plástica. Com o uso de aparelho de medição de radiações ionizantes, confirmou os altos níveis de radiação e orientou a evacuação imediata do local. A ação permitiu o isolamento das áreas afetadas e o início das notificações oficiais à Comissão Nacional de Energia Nuclear.
Natural de Minas Gerais, Walter Mendes Ferreira é casado e tem dois filhos. Ele possui formação em física, com pós-graduação em proteção radiológica e segurança nuclear pela Universidade de Buenos Aires e mestrado em engenharia nuclear pelo Instituto Militar de Engenharia no Rio de Janeiro. Atualmente com 73 anos, ele ocupa o cargo de chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da CNEN.
- Atuou diretamente com vítimas que apresentavam sintomas como náuseas, tonturas, vômitos e diarreia.
- Contribuiu para a mobilização de equipes especializadas após a confirmação da contaminação.
- Participou de ações que envolveram o monitoramento de mais de 112 mil pessoas no Estádio Olímpico.
O acidente começou em 13 de setembro de 1987, quando duas pessoas retiraram um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica desativada. O material foi levado para um ferro-velho, onde o cilindro foi aberto e o pó brilhante distribuído entre familiares e conhecidos. A esposa de um dos envolvidos levou a cápsula à Vigilância Sanitária em 28 de setembro, o que levou à análise realizada por Walter Mendes Ferreira no dia seguinte.
Atuação inicial do físico no acidente radiológico
Walter Mendes Ferreira foi acionado para examinar a substância suspeita que permaneceu por um dia na Vigilância Sanitária. Ele utilizou equipamentos de detecção e identificou imediatamente o risco elevado de radiação. A partir dessa constatação, orientou procedimentos de isolamento e evacuação para evitar maior exposição das pessoas presentes no local.
A notificação oficial do caso seguiu para a Comissão Nacional de Energia Nuclear, que comunicou o incidente à Agência Internacional de Energia Atômica. Essa sequência de ações permitiu o início coordenado das medidas de contenção em Goiânia. O físico integrou os esforços que envolveram descontaminação de áreas e atendimento inicial às pessoas afetadas.
Relembre o início da contaminação por césio-137
O pó semelhante a sal de cozinha emitia brilho azul no escuro e foi manipulado por várias pessoas sem conhecimento do perigo. Sintomas apareceram rapidamente entre aqueles que tiveram contato direto com o material. A venda do aparelho para o dono do ferro-velho ampliou a distribuição de fragmentos na região central da cidade.
Moradores e trabalhadores do local relataram efeitos imediatos após a manipulação da substância. A cápsula foi transportada em sacola plástica até o órgão sanitário, onde permaneceu até a intervenção técnica. A identificação precisa da natureza radioativa evitou que o material fosse descartado de forma inadequada em córregos ou outros ambientes.
Formação e trajetória profissional de Walter Mendes Ferreira
O especialista acumulou experiência em proteção radiológica ao longo das décadas seguintes ao acidente. Ele assumiu responsabilidades na CNEN e contribuiu para o desenvolvimento de protocolos de resposta a emergências nucleares. Sua atuação incluiu o fortalecimento de sistemas de informação ao público e a realização de atividades educativas.
Atualmente, Walter Mendes Ferreira lidera a divisão responsável por emergências radiológicas no órgão nacional. Ele participa de iniciativas que visam aprimorar a comunicação com a população e o treinamento de equipes técnicas. O trabalho inclui palestras e cursos que atendem milhares de alunos por ano no Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste.
Papel na criação de protocolos após o acidente
As ações realizadas em Goiânia resultaram no aprimoramento de procedimentos para caracterização de rejeitos radioativos e descontaminação de áreas. Instituições incorporaram novas práticas de comunicação com o público e mídia. O atendimento médico a radioacidentados ganhou estruturas mais robustas com base nas lições observadas.
Organismos internacionais adotaram avanços originados da resposta ao incidente. O físico destacou a importância do trabalho conjunto entre diferentes entidades e do reforço ao poder regulatório. Essas mudanças ajudaram a estabelecer um arcabouço legal específico para situações semelhantes.
Inspiração para produção audiovisual recente
Walter Mendes Ferreira serviu de referência para a construção de um personagem na minissérie Emergência Radioativa, disponibilizada pela Netflix. O ator Johnny Massaro interpretou a figura inspirada no físico. A produção revisita os eventos de 1987 e retrata aspectos da identificação e contenção da contaminação.
A série trouxe maior visibilidade ao caso e aos profissionais envolvidos na época. Walter Mendes Ferreira acompanhou o interesse renovado pelo tema e reforçou a necessidade de manter a memória do acidente. Ele continua ativo na área de segurança nuclear.
Monitoramento contínuo das vítimas e rejeitos
O acidente resultou em quatro óbitos diretos por Síndrome Aguda da Radiação entre outubro de 1987. As vítimas incluíram uma criança de seis anos, a esposa de um dos envolvidos, um jovem de 20 anos e outro de 18 anos. Mais de 249 pessoas apresentaram contaminação confirmada após triagem de mais de 112 mil indivíduos.
Cerca de 6 mil toneladas de rejeitos radioativos foram geradas e armazenadas de forma definitiva em Abadia de Goiás. O Centro de Assistência aos Radioacidentados mantém acompanhamento médico de vítimas e descendentes. Esse monitoramento persiste quase 39 anos após os fatos.
O físico Walter Mendes Ferreira enfatiza a relevância de não esquecer o episódio. Ele trabalhou diretamente com as pessoas afetadas e contribuiu para ações que mitigaram consequências maiores. Sua trajetória reflete o compromisso contínuo com a radioproteção no Brasil.
