Papa Leão XIV lança encíclica Magnifica Humanitas, denuncia tecnofascismo e perigo da IA

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Papa Leão XIV Foto: Papa Leão XIV - Reprodução/pontificalmissions.org

O Papa Leão XIV publicou sua primeira encíclica, intitulada “Magnifica Humanitas”, na qual emite um alerta robusto contra o que define como tecnofascismo emergente e o controle da inteligência artificial. O documento de 110 páginas, com o subtítulo “Sobre a Custódia da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial”, posiciona a Igreja de forma contundente diante dos desafios impostos pela tecnologia. Ele aborda questões que vão além do espiritual, com uma carga política clara ao identificar um novo adversário: o tecnofascismo, defendido por teorias pós-humanas e transumanas.

A encíclica constitui um programa fundamental diante dos algoritmos e de uma sociedade cada vez mais moldada pela tecnologia. O pontífice, em seu texto, reafirma a essência da humanidade, ao mesmo tempo em que critica a ascensão de ideologias ligadas a círculos do Vale do Silício e a figuras políticas como Donald Trump. A publicação da encíclica, assinada em 15 de maio, a mesma data da histórica Rerum Novarum de Leão XIII, sinaliza a crença de Leão XIV em uma mudança de época comparável à Revolução Industrial.

Encíclica Magnifica Humanitas adverte sobre controle da IA e dados

O Papa Leão XIV descreve uma nova ordem global na qual a influência de quem controla a inteligência artificial se tornará determinante. “Quem controla a IA imporá sua própria visão moral, que se tornará a infraestrutura invisível dos sistemas”, afirma o líder da Igreja Católica. Ele expressa preocupação com a capacidade de “pequenos grupos altamente influentes” de manipular informações e consumo, interferir em processos democráticos e afetar a economia em benefício próprio, contrariando a justiça social e a solidariedade entre os povos.

A encíclica faz um apelo explícito para que os Estados intervenham na regulamentação tecnológica e no controle da propriedade dos dados. No plano internacional, o documento defende o multilateralismo e fortalece o papel da Organização das Nações Unidas e outras instituições globais. Leão XIV também analisa os impactos ambientais da IA, seus efeitos no mercado de trabalho, na educação e, notavelmente, seu uso em conflitos. Ele reitera a necessidade de superar a teoria da “guerra justa”, invocada frequentemente para justificar confrontos, ressaltando o direito estrito à autodefesa.

Perigo do pós-humanismo e a desvalorização da vida humana

O coração da encíclica confronta diretamente as teses de personalidades como Elon Musk e Peter Thiel, refutando o transumanismo e o pós-humanismo. Para o Papa, essas hipóteses, embora especulativas, ganham relevância ao moldar o imaginário coletivo e influenciar decisões sociais e econômicas. O documento alerta para o risco de considerar seres humanos como “matéria a ser aperfeiçoada ou superada”, o que pode levar a aceitar que alguns sejam vistos como “menos úteis, menos desejáveis, menos dignos”. Isso abre caminho para a ideia de “sacrifícios necessários”, onde os mais vulneráveis pagam o preço por uma suposta otimização da espécie.

Leão XIV também critica a emergência de “seres humanos de ‘segunda classe'”, que serviriam aos interesses de elites autoproclamadas superiores. Esta perspectiva é amplificada pelo poder de controle e seleção das ferramentas tecnológicas. O pontífice expande sua análise para a exploração global, citando não apenas o impacto ambiental das novas tecnologias, mas também “novas formas de escravidão” e um neocolonialismo de “face sem precedentes”. Ele argumenta que isso decorre de “estruturas de dívida estrutural que mantêm populações inteiras em condições de dependência”, referindo-se ao trabalho invisível de milhões na economia digital.

Migração como critério de justiça social e apelo à ação

Leão XIV estabelece o tratamento dado aos migrantes e refugiados como um “teste decisivo para a justiça social”. A maneira como uma sociedade lida com essas populações, forçadas a se deslocar por pobreza, violência ou mudanças climáticas, revela se sua noção de justiça é guiada pelo medo ou pela fraternidade. Ele propõe um compromisso duplo: proteger o direito à esperança dos que partem, garantindo vias seguras e dignas de acolhimento e integração. Além disso, defende o direito de permanecer na própria terra em paz e segurança, abordando as causas profundas da migração, como injustiças econômicas e a crise climática.

A encíclica alerta contra um desenvolvimento que aumenta o consumo de poucos em detrimento de outros, ou que subordina regiões inteiras. O verdadeiro progresso, segundo o Papa, não degrada ecossistemas, não transfere custos para comunidades vulneráveis e não compromete as gerações futuras. O documento contém inúmeros avisos contra o capitalismo desregrado, reiterando que a liberdade econômica não é absoluta e deve ser avaliada em função do bem comum e da dignidade humana. A necessidade de “emprego decente e significativo” é destacada como um pilar social.

Degeneração da informação e a importância do jornalismo

O pontífice diagnostica um “efeito nocivo das redes sociais” e uma “deriva totalitária” na comunicação. A opinião pública, ele observa, é cada vez mais moldada por narrativas midiáticas polarizadas e algoritmos que valorizam o confronto. “Testemunhamos uma preocupante perda da memória histórica”, afirma, destacando como o desaparecimento de testemunhos de eventos como o Holocausto facilita a reescrita do passado e a proliferação de notícias falsas. Para Leão XIV, a aliança entre niilismo e pragmatismo, junto ao extremismo religioso e ao fanatismo identitário, é alarmante.

A política, segundo a encíclica, recorre à desinformação e à construção sistemática de medos e ressentimentos, transformando a diversidade em ameaça. O texto apela por uma “ecologia da informação” e a necessidade de um “jornalismo sério”. Em um detalhe inédito para uma encíclica, o Papa agradece explicitamente à imprensa pelo seu trabalho na denúncia da pedofilia na Igreja, reiterando palavras do Papa Francisco sobre o papel dos jornalistas em expor falhas e dar voz às vítimas.

Diálogo, esperança e desarmamento da Inteligência Artificial

O Papa Leão XIV declara que a inteligência artificial “não é moralmente neutra”, mas uma arma. Ele clama pelo “desarmamento da IA”, tirando-a da “lógica da corrida armamentista” que hoje abrange não só o militar, mas também o econômico e o cognitivo. Desarmar a IA significa impedir que ela domine a humanidade, removê-la dos monopólios e torná-la “debatível, refutável e, portanto, habitável”. O documento ressalta a normalização da guerra e a tentação de construir identidades coletivas contra inimigos, alimentando narrativas de vitimização e vingança.

O texto é enriquecido com diversas alusões culturais e filosóficas. Leão XIV cita Hannah Arendt ao associar o desinteresse pela verdade ao totalitarismo, onde a distinção entre fato e ficção se perde. Referências a “O Senhor dos Anéis” ilustram a responsabilidade humana, enquanto a Nona Sinfonia de Beethoven, Guernica e “A Lista de Schindler” são citados como exemplos de arte que resiste ao mal e à normalização da violência. A encíclica também alerta para o risco do uso precoce de celulares por menores e defende a educação pública de qualidade para todos.

    Para enfrentar esses desafios, o Papa oferece cinco caminhos de “responsabilidade diária e pública”:

  • Palavras desarmantes;
  • Construção da paz por meio da justiça;
  • Adoção da perspectiva das vítimas;
  • Cultivo de um realismo saudável;
  • Retomada do diálogo e do multilateralismo.

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

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