Dólar alcança R$ 5,22 e Ibovespa cede frente a juros dos EUA e menor valor do petróleo no mercado global

Bandeira EUA, dólar
Foto: Bandeira EUA, dólar - J.J. Gouin/shutterstock.com

O cenário financeiro brasileiro registrou nesta quarta-feira uma elevação da moeda americana, que superou R$ 5,22, atingindo o maior patamar desde 30 de março. Paralelamente, a bolsa de valores nacional iniciou o dia em queda, refletindo uma crescente aversão global ao risco.

Essa cautela é impulsionada principalmente pela expectativa de juros mais altos nos Estados Unidos e pelos impactos em papéis de tecnologia e bolsas internacionais. Apesar disso, a recente desvalorização do petróleo no mercado externo contribui para mitigar parte dessa pressão sobre os ativos.

Cenário de alta para o dólar e queda para o mercado acionário

A moeda norte-americana alcançou sua cotação mais elevada em quase três meses. Mantendo uma trajetória de valorização desde o início do pregão, o dólar comercial era negociado a R$ 5,216 por volta das 10h, representando um avanço de 0,53% em relação ao fechamento do dia anterior.

A divisa dos EUA acumula uma valorização de 6,5% desde o menor valor registrado no ano, que foi de R$ 4,89 na primeira semana de maio. A recente escalada do câmbio é atribuída a uma combinação de fatores internos e externos. No Brasil, a corrida eleitoral e as incertezas sobre a política monetária local contribuem para a instabilidade, enquanto globalmente, as expectativas de elevação das taxas de juros nos Estados Unidos e as dúvidas sobre os retornos dos investimentos em Inteligência Artificial também exercem pressão.

A preocupação com a elevação das taxas de juros nos Estados Unidos ganhou força após o recente encontro do Federal Reserve (Fed). Na semana passada, o Banco Central norte-americano, em sua primeira reunião sob a liderança do novo chairman Kevin Wash, optou por manter a taxa de referência entre 3,50% e 3,75% anuais. No entanto, a postura mais rigorosa do discurso e as projeções de juros elevados apresentadas pelos diretores da instituição para o futuro acentuaram as expectativas de um maior aperto monetário nos próximos meses.

A queda nos preços do petróleo contribuiu para aliviar a tensão nos mercados e reduzir a aversão ao risco. O barril de Brent, com entrega programada para agosto e que serve como referência internacional, registrava uma desvalorização de 3,7% às 9h (horário de Brasília) na Bolsa ICE Intercontinental Exchange, sendo negociado a US$ 73,99. Esse valor se aproxima bastante dos US$ 72,48 praticados antes dos ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, em 28 de fevereiro. A estabilização dos preços da commodity é impulsionada por um acordo entre os países envolvidos no conflito e pelo aumento do fluxo de navios no Estreito de Hormuz.

Contudo, o ajuste nos valores das companhias de tecnologia tem exercido pressão sobre os mercados acionários internacionais. Os principais índices dos Estados Unidos encerraram o dia anterior em baixa, com perdas significativas no Nasdaq e no S&P 500, setores com forte presença tecnológica. Nesta quarta-feira, as bolsas asiáticas apresentaram um fechamento misto, após um segundo dia de intensa venda de papéis. Na Europa, os indicadores de Londres, Frankfurt e Paris mostram-se instáveis, igualmente afetados pela sessão de perdas do dia anterior.

A correção nos portfólios das empresas de tecnologia também repercute na Bolsa de Valores brasileira. O segmento de tecnologia e Inteligência Artificial demonstra maior sensibilidade às expectativas de juros globais, visto que está em um período de altos investimentos com um horizonte de retorno de longo prazo. Dessa forma, qualquer indício de manutenção de taxas de juros elevadas por um período estendido impacta negativamente as avaliações de mercado, ou “valuation”, dessas companhias, conforme apontam especialistas do setor.

A diminuição do preço do petróleo contribui para aliviar a pressão inflacionária, ao remover parte do prêmio de risco geopolítico das cotações, o que pode criar um cenário menos restritivo para as políticas monetárias globais. Para o mercado acionário brasileiro, essa tendência é vista como positiva, já que segmentos como consumo, transporte e empresas sensíveis aos juros tendem a se beneficiar mais, superando o impacto negativo sobre as companhias petrolíferas.

No cenário doméstico, a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) indicou uma menor margem para novos cortes na taxa básica de juros, a Selic. Ao justificar a terceira redução consecutiva de 0,25 ponto percentual, que levou a Selic para 14,25% ao ano, o Copom divulgou um comunicado com tom mais rigoroso. O texto sinaliza que a continuação ou interrupção do ciclo de flexibilização dependerá da evolução favorável do ambiente econômico. A diretoria, sob a liderança de Gabriel Galípolo, alertou que será crucial a diminuição da inflação atual e a melhora nas projeções de mercado para o IPCA, além de uma moderação nos estímulos fiscais que impulsionam a demanda.

No mercado de juros futuros da B3, as taxas registraram queda após a divulgação da ata do Copom. O contrato DI (Depósito Interfinanceiro) com vencimento em janeiro de 2027, que projeta a Selic para o final do ano e é um dos mais negociados na bolsa brasileira, recuou de 14,217% para 14,185%. Similarmente, o contrato DI para janeiro de 2029 diminuiu de 14,773% para 14,630%.

O Ibovespa iniciou o pregão com uma desvalorização. O principal índice da Bolsa brasileira, que reúne as ações de maior liquidez, registrava uma queda de 0,50%, atingindo 170.408 pontos nos momentos iniciais da sessão.

Caso ocorra uma rotação de portfólio no mercado global, o Brasil poderá se beneficiar, pois oferece diversidade em setores que não são diretamente atrelados à tecnologia e negocia com avaliações mais atrativas. No entanto, se a correção atual se aprofundar e gerar um aumento generalizado da aversão ao risco mundial, o aporte de recursos em mercados emergentes, incluindo o Brasil, provavelmente será prejudicado no curto prazo, mesmo que os fundamentos econômicos locais se mantenham sólidos.

A análise da ata do Banco Central revela uma preferência por uma estratégia de transição mais cautelosa. Em vez de ciclos abruptos de elevação e redução das taxas que poderiam exigir reversões futuras, a instituição parece favorecer uma abordagem mais lenta, mantendo os juros em níveis elevados por um período mais longo. Atualmente, dois cenários são considerados: o primeiro sugere o fim do ciclo de cortes, mantendo a Selic em 14,25%; o segundo prevê mais uma redução de 0,25 ponto percentual na reunião de agosto, levando a taxa para 14%. A ata não oferece elementos decisivos para descartar nenhuma das possibilidades.

O Ibovespa vinha de três sessões consecutivas de valorização. O índice de referência da Bolsa brasileira registrou um avanço de 0,52% no dia anterior, alcançando 171.259 pontos. No entanto, o indicador ainda se encontra aproximadamente 15% abaixo de sua cotação máxima no ano, que foi de quase 199 mil pontos em 14 de abril.

Novidades no setor corporativo brasileiro

A Petrobras registrou um aumento de 10% em sua produção até o mês de maio, conforme informações divulgadas pela presidente da empresa, Magda Chambriard. Em declaração concedida após um evento no Rio de Janeiro, Chambriard destacou que a expansão produtiva atinge cerca de 14% na comparação anual, e que o petróleo se consolidará como o principal item de exportação do Brasil pelo terceiro ano consecutivo. Na sessão anterior, os papéis da petrolífera fecharam com alta de 0,41%, a R$ 39,33.

A Copasa obteve a classificação de grau de investimento da agência Moody’s para suas emissões de renda fixa. A Moody’s concedeu a nota AAA.br, com perspectiva estável, às 16ª, 18ª, 19ª e 21ª emissões de debêntures quirografárias da companhia de saneamento de Minas Gerais, que totalizam mais de R$ 2,9 bilhões. A agência explicou que o rating reflete a robustez operacional da empresa, com margens de lucro consistentes, aumento no volume de serviços e indicadores de crédito apropriados. As ações da empresa, que passou por recente privatização, tiveram uma leve queda de 0,8% no dia anterior, fechando a R$ 58,85.

A Localiza, maior empresa de locação de veículos do Brasil, aprovou a distribuição de lucros no valor de R$ 591 milhões. O conselho de administração da companhia definiu o pagamento de R$ 0,54 por ação, a ser efetuado em 20 de agosto, para os acionistas que possuírem os papéis até 26 de junho. No pregão anterior da Bolsa, as ações ordinárias da empresa apresentaram valorização de 2,35%, sendo negociadas a R$ 41,78.

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