Política de cotas para veículos elétricos beneficia chinesas e inquieta locadoras listadas na B3

Carros elétricos
Foto: Carros elétricos - Foto: baona/ Istockphoto.com

O mercado automotivo brasileiro vive um período de transformações significativas, impulsionado por novas regulamentações governamentais que buscam fomentar a indústria nacional de veículos elétricos. Uma política recente de cotas para a importação desses automóveis está redesenhando o cenário competitivo, trazendo grandes benefícios para fabricantes chinesas que investem na produção local, ao mesmo tempo em que gera considerável apreensão entre as maiores locadoras de veículos do país, cujas ações são negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (B3).

Novas diretrizes para importação de veículos elétricos no Brasil

O governo federal implementou um regime de cotas para veículos elétricos e híbridos importados, marcando uma virada na estratégia de eletrificação da frota nacional. O principal objetivo é incentivar a produção local e a transferência de tecnologia, com a reintrodução gradual do Imposto de Importação (II). Essa medida eleva progressivamente as alíquotas, que começaram em 10% em janeiro de 2024 e atingirão 35% até meados de 2026, variando conforme o tipo de veículo (elétrico, híbrido ou plug-in).

A iniciativa estabelece um volume limitado de importações que ainda se beneficiam de alíquotas reduzidas antes da incidência total do imposto. Esse volume, entretanto, está intrinsecamente ligado à capacidade de produção local. Ou seja, empresas que já possuem ou estão construindo fábricas no Brasil têm acesso a cotas mais generosas para importar, enquanto aquelas que dependem exclusivamente da importação enfrentam custos crescentes. A Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) apoia a medida, vendo-a como um passo essencial para o desenvolvimento industrial do país.

Ascensão estratégica de fabricantes asiáticas no cenário nacional

Empresas como BYD e GWM, gigantes chinesas do setor de veículos elétricos, estão se posicionando de forma extremamente vantajosa dentro desse novo arcabouço regulatório. Ambas as companhias anunciaram investimentos robustos na instalação de fábricas no Brasil, transformando antigas unidades industriais em centros de produção de ponta para veículos eletrificados. Essa estratégia permite que elas se qualifiquem para as cotas de importação mais favoráveis, garantindo um fluxo contínuo de veículos a preços competitivos enquanto suas plantas locais não atingem plena capacidade.

Ao produzir localmente, essas montadoras não apenas evitam as alíquotas mais altas do Imposto de Importação para seus modelos fabricados no país, mas também ganham flexibilidade para importar modelos complementares de sua linha global com custos controlados. Essa abordagem lhes confere uma significativa vantagem competitiva, permitindo-lhes expandir sua presença e dominar um mercado em rápida expansão, com uma oferta diversificada e alinhada às novas exigências tributárias brasileiras.

Cenário de preocupação para as locadoras de veículos da B3

Enquanto fabricantes chinesas celebram as novas cotas, as grandes empresas de locação de veículos listadas na B3, como Localiza, Movida e Unidas (que faz parte da Localiza), observam o cenário com crescente preocupação. Essas companhias dependem fortemente da importação de veículos elétricos, especialmente os de origem asiática, devido ao seu custo-benefício e à variedade de modelos disponíveis. A estrutura atual da política de cotas, que favorece a produção nacional, pode elevar drasticamente os custos de aquisição de suas frotas.

Um dos principais desafios reside no fato de que o parque industrial brasileiro de EVs ainda é incipiente, com poucas opções de modelos elétricos produzidos localmente que atendam às necessidades e à escala das locadoras. A dependência de importações para renovar e expandir suas frotas elétricas significará arcar com impostos mais altos, o que se traduz em um aumento considerável nos custos operacionais. Esse impacto pode comprometer suas margens de lucro, a competitividade de seus preços de aluguel e até mesmo influenciar o desempenho de suas ações na bolsa. A incerteza sobre a disponibilidade e o preço dos veículos elétricos no futuro próximo exige uma revisão profunda de suas estratégias de aquisição.

Impacto potencial no mercado consumidor e na transição energética

A nova política de cotas e o aumento gradual do Imposto de Importação para veículos elétricos podem ter reflexos diretos no consumidor final e na velocidade da transição energética do Brasil. Com o encarecimento dos veículos importados, a oferta de modelos mais acessíveis pode diminuir, ao menos no curto prazo, até que a produção nacional ganhe escala e diversidade. Isso, por sua vez, pode desacelerar a adoção de veículos elétricos por parte de uma fatia maior da população.

Além disso, as locadoras, sendo grandes compradoras de automóveis e influenciadoras do mercado de seminovos, podem ser forçadas a repassar parte desse aumento de custo para os aluguéis, ou atrasar a eletrificação de suas frotas, impactando indiretamente a disponibilidade de veículos elétricos para testes e uso por consumidores. O equilíbrio entre proteger a indústria nacional e acelerar a descarbonização da frota é um desafio complexo, exigindo um monitoramento constante dos efeitos dessa política no mercado e na acessibilidade dos veículos elétricos.

Desdobramentos e projeções futuras para o setor automotivo

O cenário atual aponta para uma reconfiguração do mercado automotivo brasileiro, com a intensificação da concorrência e a necessidade de adaptação por parte de todos os atores envolvidos. Para as locadoras, a busca por novas estratégias de aquisição, parcerias com fabricantes locais ou renegociação de termos de compra com importadores será fundamental para mitigar os impactos financeiros. Já para as fabricantes chinesas, a política reforça sua aposta no Brasil como um polo de produção e exportação.

Especialistas do setor preveem que os próximos anos serão cruciais para a consolidação das novas regras. A capacidade de resposta da indústria nacional para suprir a demanda por veículos elétricos a preços competitivos e a agilidade das empresas de locação em se adaptar ao novo ambiente tributário determinarão a sustentabilidade do crescimento do setor. O governo, por sua vez, precisará ajustar a política conforme o desenvolvimento da cadeia produtiva local, garantindo que os objetivos de industrialização e transição energética sejam alcançados sem criar barreiras excessivas à adoção de tecnologias mais limpas.

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