O enigma da baleia de 52 Hertz: Por que seu canto revela uma solidão nos oceanos?

baleia
Foto: baleia - Jonas Gruhlke/Shutterstock.com

Um som peculiar, emitido por uma baleia misteriosa, tem capturado a atenção de cientistas e do público há mais de três décadas, evocando debates sobre sua natureza e, principalmente, sobre um possível isolamento. Décadas após a comoção gerada pela história da baleia Timmy, encalhada em 2026, outro cetáceo singular continua a percorrer os oceanos, levantando questões sobre sua suposta solidão. A discussão acerca da baleia de 52 hertz, um fenômeno documentado, mantém-se viva no cenário da pesquisa marinha.

Por um período superior a 35 anos, o chamado enigmático de um cetáceo sem identificação específica tem alimentado a curiosidade e a pesquisa de oceanógrafos. Embora suas emissões sonoras apresentem semelhanças com as de baleias-azuis e baleias-fin, a frequência do canto difere substancialmente, atingindo 52 Hertz, um patamar consideravelmente mais elevado.

Dessa forma, os pesquisadores levantam a hipótese de que a vocalização exclusiva desse mamífero pode ser resultado de um cruzamento entre duas espécies distintas de baleias ou indicar uma anomalia física, como uma deformidade no órgão responsável pela emissão de som. Além do aspecto científico, o destino do animal tem tocado profundamente o imaginário popular, que se questiona se ele seria o ser mais isolado dos oceanos, jamais recebendo uma resposta aos seus chamados. Contudo, entre os especialistas, não há consenso definitivo sobre essa percepção de solidão.

Os mamíferos marinhos utilizam uma variedade de sons para funções vitais como caça, navegação, atração de parceiros e interação social dentro de seus grupos. Enquanto as baleias dentadas predominantemente se comunicam através de estalidos, os cantos das baleias de barbatana são notavelmente mais complexos. As vocalizações podem compor sequências musicais completas com padrões repetitivos, dependendo da espécie e do grupo, sendo inclusive consideradas uma forma de linguagem pelos pesquisadores.

A propagação do som é um recurso altamente eficaz para a comunicação subaquática. No ambiente aéreo, a velocidade do som é de aproximadamente 343 metros por segundo, variando conforme a pressão atmosférica e a temperatura. Na água, devido à maior densidade das moléculas, o som se desloca a mais de 1484 metros por segundo, superando em mais de quatro vezes a velocidade no ar. Frequências mais baixas tendem a se propagar com maior eficiência em ambientes aquáticos.

Baleia Jubarte
Baleia Jubarte – Artush/shutterstock.com

O pioneirismo na gravação dos sons de cetáceos subaquáticos

O oceanógrafo americano William A. Watkins foi o cientista responsável por desvendar a presença da baleia com seu canto inconfundível. Iniciando sua trajetória em 1958 como assistente de pesquisa no Instituto Oceanográfico Woods Hole, em Massachusetts, Watkins ascendeu rapidamente na carreira, tornando-se pesquisador associado em 1963 e, posteriormente, pesquisador sênior de 1979 a 1996 na mesma instituição.

Uma das principais áreas de dedicação de Watkins era o estudo das vocalizações de baleias. Para avançar nesse campo, ele desenvolveu o primeiro dispositivo de gravação capaz de registrar esses complexos sons, abrindo caminho para investigações mais aprofundadas e popularizando essas “canções” entre o público. A relevância de suas descobertas foi tamanha que os cantos dos cetáceos chegaram a ser incluídos nos transmissores de áudio das sondas Voyager.

A derrocada da Cortina de Ferro representou um avanço inesperado para a pesquisa de longo prazo sobre baleias. Durante o período da Guerra Fria, a detecção de submarinos inimigos ganhou prioridade estratégica. A partir da década de 1950, a Marinha dos EUA implementou uma rede de microfones subaquáticos para monitorar sistematicamente certas áreas oceânicas, visando localizar embarcações russas.

Através do sistema ultrassecreto de vigilância sonora (SOSUS), era possível identificar ruídos suspeitos de navios e de suas hélices. Essa ampla rede de escuta, no entanto, não se limitava a captar o movimento de embarcações, mas também registrava os diversos sons do ambiente marinho natural. Com o término da União Soviética e o advento da Perestroika, os militares americanos tornaram públicas as estações de hidrofones, disponibilizando-as para a comunidade científica – uma oportunidade crucial que a equipe liderada por William A. Watkins soube aproveitar plenamente, fornecendo um vasto e inédito banco de dados acústicos para o estudo dos oceanos.

Análise da frequência atípica em relação a outras baleias-de-barbatana

A detecção inicial dos sons da baleia de 52 hertz ocorreu em 1989. Entre 1992 e 2004, a equipe de Watkins empregou a infraestrutura do SOSUS para mapear os percursos migratórios dessa baleia peculiar. Em outubro de 2004, foi publicado um trabalho científico fundamental intitulado “Doze Anos de Rastreamento de Sons de Baleia de 52 Hz a partir de uma Fonte Única no Pacífico Norte”.

Em condições normais, baleias-azuis vocalizam em uma faixa de 15 a 20 Hertz, e as baleias-fin emitem cantos que rondam os 20 Hertz. Contudo, na região do Pacífico Norte, próxima à costa oeste dos Estados Unidos, os hidrofones registraram sons significativamente mais altos, com uma frequência de 52 Hertz, fugindo completamente do padrão esperado.

Com sua vocalização singular, a baleia apresentava um padrão de deslocamento majoritariamente de norte a sul ou de oeste a leste, cobrindo diariamente entre 30 e 70 quilômetros. Seus chamados eram inequivocamente reconhecíveis e distintos, mas não foi possível associá-los a nenhum animal marinho já conhecido.

O debate sobre a solidão da baleia de 52 hertz

Enquanto o mundo científico permanece intrigado com a classificação e a origem do animal que produz tais sons, o destino aparente da baleia ressoa profundamente com o público. Muitos se identificam com a ideia de solidão ao fazer um chamado e não obter resposta, o que rapidamente conferiu à baleia a reputação de ser a mais solitária do planeta.

A narrativa da baleia, conhecida como “52” ou “Blue 52”, transcendeu o universo científico e ganhou espaço na cultura popular. Sua história, percebida como a de um ser isolado, foi explorada em composições de bandas como o BTS e em obras literárias infantis. Além disso, o curta-metragem de ficção “The Loneliest”, produzido no formato de falso documentário, retrata dois pesquisadores em busca do enigmático cetáceo de 52 hertz.

Em um esforço mais formal, uma equipe de pesquisa dedicou-se ao enigma da baleia “52” e lançou uma campanha no Kickstarter em 2015. O objetivo era financiar a produção de um documentário focado na busca e eventual identificação do animal. A meta inicial era arrecadar 300 mil dólares, valor que foi amplamente superado, com 3.833 apoiadores contribuindo com um total de 405.937 dólares.

Essa iniciativa culminou no lançamento de “A Baleia Mais Solitária do Mundo” em 2021, um documentário dirigido por Joshua Zeman. Embora a equipe não tenha conseguido identificar o animal de forma conclusiva, a jornada de busca proporcionou profundas percepções sobre a complexa interação entre baleias e seres humanos. A baleia, portanto, continua sendo um mistério, e sequer há certeza de que outras baleias não consigam, de fato, ouvi-la.

Christopher Willes Clark, cientista da Universidade Cornell em Ithaca e responsável por registrar o som de 52 hertz da baleia em 1993, contestou a ideia de que o animal vive em total isolamento. Em declaração, ele enfatizou que “o animal canta com muitas das características de um típico canto de baleia-azul. Baleias-azuis, baleias-fin e baleias-jubarte: todas essas baleias conseguem ouvir esse cara, elas não são surdas. Ele é apenas estranho.”

A principal preocupação não reside na capacidade da baleia de se comunicar através de seus cantos. Afinal, sua presença tem sido detectada por mais de 35 anos, e a frequência de seus chamados diminuiu com o tempo, indicativo de seu crescimento e, provavelmente, de sua boa saúde.

Na realidade, as baleias em todos os oceanos enfrentam diariamente desafios muito mais severos. Milhares de hélices de embarcações, ruídos intensos de trabalhos submarinos e a detecção por sonares militares comprometem gravemente a saúde e a vida desses animais. A lembrança do caso da baleia Timmy, que esteve debilitada em um espetáculo de verão, ainda persiste na memória coletiva. Essa crescente poluição sonora, um dos elementos de valor que outras notícias raramente aprofundam, representa uma ameaça contínua.

A intensa paisagem sonora dos oceanos não apenas encobre os cantos das baleias, que, em condições ideais, poderiam percorrer milhares de quilômetros sem interferência, mas também gera estresse significativo para os animais. Além da sobrepesca, da caça excessiva, do aquecimento dos oceanos impulsionado pela crise climática e dos impactos de colisões com navios, o ruído submarino emerge como um fator antropogênico crítico que afeta negativamente as populações de cetáceos globalmente.

A questão sobre a unicidade da baleia ainda não está resolvida. Existem indícios de uma segunda fonte de 52 hertz, com registros de sons semelhantes em dois locais geograficamente distantes em 2010. Se o animal estiver saudável e seu desaparecimento não tiver sido causado por fatores não naturais, a identificação definitiva pode levar ainda algum tempo, visto que baleias-azuis, por exemplo, podem viver por cem anos ou mais.

Watkins, infelizmente, não testemunhou grande parte da repercussão cultural de sua descoberta. Ele faleceu em outubro de 2004, aos 78 anos, pouco depois da publicação do estudo que durou doze anos. Contudo, seu trabalho deixou um legado imenso em dados de pesquisa sobre baleias e outras formas de vida marinha. Em reconhecimento à sua contribuição, um banco de dados online contendo gravações de baleias e outros animais marinhos foi estabelecido em sua homenagem.

Veja Também Ciência

Starship da SpaceX tem 13º voo de teste com pousos bem-sucedidos apesar de problemas nos motores
Ciência • 13/08/2026

Starship da SpaceX tem 13º voo de teste com pousos bem-sucedidos apesar de problemas nos motores

Telescópio Webb da NASA descobre novo planeta gigante com método inovador
Ciência • 13/08/2026

Telescópio Webb da NASA descobre novo planeta gigante com método inovador

Foguete da SpaceX colide com a Lua em evento monitorado pela NASA, que afasta riscos à Terra
Ciência • 13/08/2026

Foguete da SpaceX colide com a Lua em evento monitorado pela NASA, que afasta riscos à Terra

Telescópio Webb descobre objeto inédito no universo primitivo
Ciência • 13/08/2026

Telescópio Webb descobre objeto inédito no universo primitivo

Sonda Perseverance da NASA atinge marco histórico de maratona ao percorrer 42 quilômetros em Marte
Ciência • 13/08/2026

Sonda Perseverance da NASA atinge marco histórico de maratona ao percorrer 42 quilômetros em Marte

Eclipses e Superluas marcam 2026 com espetáculos celestes no Brasil
Ciência • 13/08/2026

Eclipses e Superluas marcam 2026 com espetáculos celestes no Brasil

Cometa 3I/Atlas muda composição após se aproximar do Sol, mostra telescópio Subaru
Ciência • 13/08/2026

Cometa 3I/Atlas muda composição após se aproximar do Sol, mostra telescópio Subaru

Pico da chuva de meteoros Perseidas será em agosto; saiba como observar no Brasil
Ciência • 13/08/2026

Pico da chuva de meteoros Perseidas será em agosto; saiba como observar no Brasil

Fenômeno cósmico: eclipse solar total de 2026 maravilha milhões em diversos continentes
Ciência • 13/08/2026

Fenômeno cósmico: eclipse solar total de 2026 maravilha milhões em diversos continentes

Prepare-se para o eclipse solar de 2027: locais ideais e duração recorde
Ciência • 13/08/2026

Prepare-se para o eclipse solar de 2027: locais ideais e duração recorde

Cometa verde ilumina o céu da Namíbia em fotografia astronômica
Ciência • 12/08/2026

Cometa verde ilumina o céu da Namíbia em fotografia astronômica

Engenheiros da Katalyst buscam restaurar controle do satélite Link para salvar missão Swif
Ciência • 12/08/2026

Engenheiros da Katalyst buscam restaurar controle do satélite Link para salvar missão Swif

Europa observa eclipse solar total que escureceu o dia pela primeira vez em décadas
Ciência • 12/08/2026

Europa observa eclipse solar total que escureceu o dia pela primeira vez em décadas

Telescópio Daniel K. Inouye revela vórtices na superfície do Sol nunca antes vistos
Ciência • 12/08/2026

Telescópio Daniel K. Inouye revela vórtices na superfície do Sol nunca antes vistos

Moscas-das-frutas usam memória para rastrear cheiros e encontrar origem
Ciência • 12/08/2026

Moscas-das-frutas usam memória para rastrear cheiros e encontrar origem