Rejuvenescimento cerebral em idosos depende de quatro pilares essenciais, aponta pesquisaPor Beatriz
5 min de leitura
![]() |
Um novo estudo, abrangendo 1.065 idosos em 11 nações da América Latina, acaba de fornecer uma resposta há muito procurada pela ciência: é possível proteger o cérebro contra a demência através de mudanças no estilo de vida. Os resultados, divulgados recentemente, revelam que indivíduos que aderiram por dois anos a um plano intensivo de atividade física, alimentação e treino mental apresentaram um aumento de 55% no desempenho cognitivo, comparados àqueles que receberam apenas orientações gerais de saúde.
Esta pesquisa representa o maior e mais substancial experimento de seu tipo já realizado na região. Ela marca um marco ao comprovar a eficácia dessa estratégia fora dos tradicionais centros de pesquisa na Europa e nos Estados Unidos, demonstrando sua aplicabilidade em contextos culturais e socioeconômicos diversos.
Publicado na renomada revista The Lancet, o levantamento foi conduzido em países como Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, México, Peru e Uruguai. Ele acompanhou pessoas com idade entre 60 e 77 anos, todas com alto risco de desenvolver demência devido a fatores cardiovasculares, idade avançada ou desempenho cognitivo já comprometido.
Diferentes abordagens no estudo para combater a demência
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos distintos. Um deles, denominado SLI (Intervenção Sistemática no Estilo de Vida), seguiu um protocolo supervisionado e multifacetado por dois anos. O outro, o FLI (Intervenção Flexível no Estilo de Vida), recebeu apenas aconselhamento básico sobre saúde, similar a uma consulta médica de rotina.
O grupo submetido ao protocolo intensivo adotou uma combinação de quatro frentes simultaneamente:
- Exercício físico realizado quatro vezes por semana, incluindo atividades aeróbicas, de força e de equilíbrio;

- Adoção da dieta MIND, uma variação da alimentação mediterrânea focada especificamente na proteção cerebral;

- Treino cognitivo semanal com o uso de exercícios computadorizados da plataforma BrainHQ;

- Monitoramento rigoroso de indicadores de saúde como pressão arterial, glicose e colesterol.

Resultados notáveis do programa intensivo
A disparidade entre os dois grupos foi notável. Aqueles que seguiram o protocolo completo alcançaram uma evolução cognitiva 55% superior por ano em comparação aos que receberam orientações básicas. Os pesquisadores classificam essa diferença como estatisticamente relevante, indicando que a melhoria dificilmente ocorreu por acaso.
Na prática, esses avanços se traduzem em ganhos reais em funções como memória, capacidade de raciocínio e velocidade de processamento cerebral. O estudo não apenas sugere uma desaceleração do declínio cognitivo, mas demonstra um aumento efetivo no desempenho ao longo do tempo.
Além dos números, a composição dos participantes do estudo é um ponto de destaque. Do total de voluntários, 75% eram mulheres, e a amostra refletiu a rica diversidade étnica latino-americana: 59% se declararam mestiços, 27% brancos, 7% mulatos, 2% negros e 1% indígenas, além de outros que se identificaram como “mistos” ou preferiram não informar.
É precisamente essa diversidade que os pesquisadores apontam como um dos grandes méritos do trabalho. Pela primeira vez, uma intervenção multidimensional de larga escala foi testada e adaptada culturalmente para populações historicamente sub-representadas em ensaios clínicos sobre a prevenção da demência, ampliando a relevância global dos achados.
Aspectos de adesão, segurança e abandono do programa
Embora o programa exigisse dedicação, a maioria dos participantes manteve o ritmo. Dos 1.065 voluntários, 82,3% completaram os dois anos de acompanhamento. A taxa de abandono foi mais alta no grupo de orientação básica (20,2%) em comparação com o grupo de protocolo intensivo (15,2%), sugerindo que o acompanhamento mais próximo pode ter contribuído para um maior engajamento.
Em relação à segurança, o programa demonstrou ser seguro e bem tolerado. Os efeitos adversos mais relatados incluíram dores musculoesqueléticas (21% no grupo intensivo contra 2% no grupo de controle) e infecções respiratórias leves. Oito óbitos foram registrados durante o estudo, sendo três no grupo intensivo e cinco no grupo de controle, porém nenhum deles foi atribuído diretamente à intervenção.
A demência apresenta um avanço preocupante em países de baixa e média renda, com a América Latina no epicentro dessa curva. Ao demonstrar que um protocolo estruturado e supervisionado, mas replicável, é eficaz mesmo em contextos de maior vulnerabilidade social, o estudo pavimenta o caminho para que políticas públicas de saúde na região possam incorporar essas estratégias como ferramentas concretas de prevenção, indo além das recomendações genéricas de “vida saudável”.
O financiamento principal da pesquisa veio da Alzheimer’s Association, uma organização internacional de destaque na área, que também teve papel no desenvolvimento do projeto. O esforço envolveu centenas de pesquisadores de 12 centros de estudo em toda a América Latina, incluindo a Universidade de São Paulo (USP), com recrutamento de participantes entre outubro de 2021 e julho de 2023, e o acompanhamento final previsto para novembro de 2025.







