Evidências de vento perdido são detectadas em Sagitário A*, o buraco negro da Via Láctea

buraco negro
Foto: buraco negro - DesignCrowd Stock/Shutterstock.com

Novas pesquisas revelam a detecção de indícios de um fluxo de partículas em escala cósmica que emana de um buraco negro supermassivo localizado no núcleo da Via Láctea, conforme anunciado na terça-feira, 16 de junho de 2026. Essa descoberta pode solucionar um enigma que intrigava a comunidade astronômica há décadas.

Sagitário A*, uma formação colossal que possui o equivalente a 4 milhões de massas solares, tem sido objeto de fascínio e perplexidade para os cientistas por mais de meio século. As teorias cosmológicas indicam que buracos negros não apenas absorvem matéria, mas também deveriam ejetar parte dela sob a forma de ventos ou jatos energéticos. Contudo, Sagitário A* contrastava com essa expectativa, mantendo-se misteriosamente inativo. Apesar de extensa investigação ao longo das últimas décadas, as únicas provas de emissões de vento remontavam a períodos superiores a 20 mil anos, sem registros de atividade recente, o que tornava o objeto uma anomalia fundamental para a compreensão dos buracos negros em geral.

Mark Gorski, professor assistente de pesquisa na Universidade Northwestern em Evanston, Illinois, destacou a singularidade de Sagitário A* como o buraco negro mais próximo e detalhadamente analisado. Segundo ele, apesar de ser o único que permite observar sua física circundante em alta resolução, a ausência aparente de um vento era um paradoxo significativo, já que a maioria dos buracos negros no cosmos exibe tal comportamento.

Após um período de cinco anos de intensas observações, Gorski, em colaboração com Lena Murchikova, também professora assistente de física e astronomia na Northwestern, afirmou que eles descobriram evidências do vento que estava ausente. Por meio de uma representação gráfica altamente detalhada da região que envolve o buraco negro, os dois pesquisadores identificaram uma extensa formação cônica, notavelmente vazia de gás frio.

Conforme os pesquisadores, ambos coautores de um estudo detalhado sobre a descoberta, divulgado em 4 de junho na publicação The Astrophysical Journal Letters, a existência dessa estrutura só pode ser explicada pela ação de um fluxo de gás quente emitido diretamente do próprio buraco negro.

“O vento emanado do buraco negro opera de maneira similar a um secador de cabelo”, comparou Gorski. Ele explicou que essa corrente de ar quente e turbulento atua sobre a matéria mais fria e densa, removendo e aquecendo o gás circundante sem desintegrá-lo completamente. Dessa forma, o gás quente do fluxo deixou uma marca evidente ao dispersar o gás frio nas proximidades, como apontado no estudo.

Buraco negro - Reprodução/ Nasa
Buraco negro – Reprodução/ Nasa

A função dos fluxos de energia no crescimento galáctico

Fluxos de energia análogos, manifestando-se como jatos concentrados ou ventos expansivos, já foram observados em buracos negros supermassivos situados nos centros de outras galáxias. Christopher Reynolds, professor de astronomia na Universidade de Maryland, College Park, que não esteve envolvido no estudo, enfatizou que esses fluxos são essenciais para a forma como os buracos negros transferem energia para suas respectivas galáxias e controlam seu desenvolvimento.

Em sua avaliação, Reynolds observou que a detecção desses fluxos em nosso próprio buraco negro supermassivo era historicamente desafiadora, mas essa situação mudou com a nova pesquisa. Ele descreveu o estudo como apresentando provas convincentes de que um vento originário de Sagitário A* se espalhou pelo gás e poeira ao redor. Embora os cientistas não tenham visualizado diretamente o vento, sua existência é inquestionável, um resultado que demandou uma análise meticulosa de quase cinco anos de dados do radiotelescópio mais sensível do planeta, configurando um feito extraordinário.

Compreendendo as características dos buracos negros

Buracos negros são objetos cósmicos cuja força gravitacional é tão intensa que nem a luz consegue escapar de seu domínio. A maioria das grandes galáxias abriga um buraco negro supermassivo central, com massas que podem ser bilhões de vezes maiores que a do nosso Sol. Enquanto os buracos negros de menor porte são resquícios de estrelas massivas que morreram, a origem dos supermassivos ainda é um tema de intensa investigação e pouca compreensão.

O horizonte de eventos marca o ponto de não retorno de um buraco negro, de onde nada pode escapar. Contudo, o material que orbita esses gigantes celestes pode aquecer e irradiar energia em decorrência do atrito e das poderosas forças de maré, gerando ondas de rádio e raios X. No processo de alimentação por gás, o buraco negro expulsa partículas na forma de ventos ou jatos que se movem a velocidades próximas à da luz, percorrendo distâncias de até milhares de anos-luz pelo espaço, onde um ano-luz equivale a 9,46 trilhões de quilômetros.

Com o uso dos avançados radiotelescópios Atacama Large Millimeter/Submillimeter Array (ALMA), localizados no Chile, Gorski e Murchikova elaboraram o mapa mais preciso já feito do gás frio que circunda Sagitário A*. Depois de eliminar todas as interferências de rádio emanadas do objeto, a imagem resultante revelou uma vasta cavidade, medindo aproximadamente 3 anos-luz de extensão e com um ângulo de abertura de 45 graus, que converge diretamente para o buraco negro.

Posteriormente, a equipe de pesquisa empregou o Observatório de Raios X Chandra da NASA para verificar se o gás frio naquela área estava sendo moldado por plasma quente, ou seja, gás eletricamente carregado, que se origina do centro galáctico. Gorski explicou que uma forte correlação entre o gás frio e o plasma quente seria inexistente se um não estivesse em relação direta com o outro. Ele acrescentou que, embora não tenham observado as partículas do vento em movimento direto, foi possível determinar sua direção e energia.

Gorski apontou duas razões fundamentais para a demora de mais de cinquenta anos na confirmação da existência desse vento, desde a primeira observação de Sagitário A* nos anos 1970. Primeiramente, os equipamentos tecnológicos só recentemente atingiram a capacidade necessária para penetrar o gás e a poeira interestelar que se interpõem entre a Terra e o centro galáctico. Em segundo lugar, Sagitário A* atravessa uma fase de menor atividade, o que faz com que seu vento seja mais tênue e, consequentemente, mais difícil de ser detectado, um comportamento cíclico comum em buracos negros supermassivos, que variam sua intensidade conforme a disponibilidade de matéria.

“Nossos achados demonstram, em essência, que este buraco negro igualmente expele um vento, o que o alinha com as expectativas da física de buracos negros em geral”, declarou Murchikova. Ela complementou que a detecção foi um desafio devido à extrema fraqueza do vento, algo inédito em observações anteriores de fluxos provenientes desses objetos cósmicos.

Murchikova ressaltou que, embora a observação de buracos negros supermassivos em galáxias distantes tenha revelado a presença de jatos extremamente potentes, tais manifestações são infrequentes. Na maioria dos casos, esses objetos permanecem em uma condição de relativa calma, emitindo apenas uma “brisa” suave, cuja identificação é mais complexa pela ausência de eventos espetaculares.

A próxima etapa dos pesquisadores inclui a ampliação do mapeamento do gás frio para abranger uma área maior, permitindo uma análise mais completa do impacto do vento. O grupo também pretende criar uma “animação” do movimento do gás à medida que ele se aproxima do buraco negro, a fim de monitorar a dinâmica das nuvens e quantificar o volume de gás que o buraco negro absorve.

Impacto da revelação no estudo dos buracos negros

Ainda existem muitas incógnitas sobre os mecanismos pelos quais buracos negros supermassivos expelem ventos, mas a hipótese corrente sugere uma relação com a interação dos campos magnéticos que giram em torno do objeto, à medida que o gás orbita. Esta explicação foi apresentada por Dan Wilkins, professor assistente de pesquisa no departamento de astronomia da Universidade Estadual de Ohio, que não fez parte da pesquisa.

Em sua manifestação, Wilkins pontuou que a detecção de evidências de ventos impulsionados por buracos negros na nossa própria galáxia oferece uma perspectiva inovadora para compreender a sua geração. Além disso, a descoberta reafirma que os buracos negros supermassivos continuam a projetar ventos em suas galáxias anfitriãs, mesmo durante fases menos ativas de crescimento acelerado.

Priyamvada Natarajan, professora de Astronomia e Física da Universidade de Yale, que não esteve envolvida no estudo, classificou como “emocionante” a confirmação de que o buraco negro central da nossa galáxia finalmente exibiu a atividade de jatos e ventos, fenômenos já conhecidos da física e frequentemente observados em outros buracos negros supermassivos.

Natarajan destacou que Sagitário A* representava, por um longo período, uma fonte de grande frustração na astrofísica do centro galáctico. Apesar de sua proximidade permitir estudos extremamente detalhados, ele permanecia recalcitrantemente inativo, sem evidências de ventos. Ela enfatizou que “este trabalho modifica completamente essa percepção”, exemplificando o sucesso da observação astronômica paciente e minuciosa.

Apesar da descoberta, Natarajan complementou que diversas questões ainda precisam ser elucidadas, o que é esperado em um artigo de cunho exploratório. “Os autores introduziram uma nova variável observável para a comunidade científica, e os estudos vindouros serão de grande valia”, concluiu.

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