Os caminhos percorridos por Régis Fernandes da Silva não o levam mais aos gramados onde teve momentos de destaque. Atualmente, ele se encontra em uma jornada sem rumo, enfrentando um adversário implacável: o vício em crack. Aos 49 anos, o antigo jogador que vestiu as camisas de Ponte Preta, Corinthians e Vasco, trava uma batalha diária contra a dependência química, conforme apurado em 2 de setembro de 2026.
Há cerca de dois meses, Régis Pitbull, nome pelo qual era reconhecido em sua carreira, fixou residência nas vielas e praças de Pirituba, na Zona Norte de São Paulo. A dependência o levou a perder seu lar, o apoio de grande parte de seus amigos e sua dignidade.
A fisionomia de um atleta outrora conhecido deu lugar a um semblante que a ação do tempo, a dependência química e a dura realidade das ruas em uma das maiores metrópoles do mundo tornaram quase irreconhecível.
A condição atual de Régis veio a público através de relatos de ex-colegas de um time de várzea do bairro onde ele cresceu.
As condições desafiadoras que Régis Pitbull enfrenta diariamente
O frio e a umidade de uma manhã em São Paulo impulsionaram Régis a buscar refúgio em um abrigo improvisado, montado com lonas, cobertores e papelões, em uma pequena praça. Entre restos de construções e lixo acumulado, ele busca algum tipo de recuperação pessoal.
A vida nas ruas se tornou sua única alternativa após períodos em que morou de favor com parentes e amigos. Dívidas relacionadas a taxas de condomínio e IPTU ameaçam a perda de seu apartamento próprio, objeto de uma ação judicial. Apesar disso, Régis ainda nutre a esperança de reocupar o imóvel, o único bem que lhe resta. A saída do apartamento ocorreu depois que o ex-jogador foi detido por agredir o síndico em 2025.
O despertar de Régis, impulsionado pela fome, ocorreu pouco depois das oito da manhã. Ao cruzar uma rua movimentada por carros e pessoas em direção ao trabalho, ele repetiu um de seus poucos rituais: ir a um restaurante e pedir café com muitas colheres de açúcar.
Nesta ocasião, ele consumiu algumas esfihas e mais dois copos de café. Um funcionário do estabelecimento, torcedor do Corinthians, brincava a cada interação com aquela figura que já não remetia ao atleta que havia atuado em sete jogos pelo clube em 2004.
“O pessoal da torcida veio aí no domingo conversar comigo, querem me ajudar. Eu sou Corinthians demais, eles lembram sempre de mim. Me dá mais um café aí, mas coloca mais açúcar porque tá amargo”, disse Régis, que utiliza o restaurante para ir ao banheiro e carregar seu celular, o qual serve como seu único meio de contato e é frequentemente usado para efetuar pagamentos por drogas.
Na noite anterior àquele encontro, Régis revelou ter utilizado uma mistura de “flor com ice” — que combina a flor da maconha (o botão da planta Cannabis) com um extrato de alta concentração da mesma planta.
Outra funcionária do restaurante confirmou que o ex-jogador comparece diariamente ao local para receber algumas refeições doadas pela equipe. Segundo ela, são poucos os dias em que ele se encontra em estado de sobriedade.
Com poucas peças de roupa, unhas sem cortar e falta de banho regular, Régis apresentava barba e cabelo aparados graças a um amigo. Na praça onde reside, do outro lado da rua, ele compartilha o espaço com um homem com mais de 60 anos, com quem não demonstra simpatia.
“Velho chato, reclama de tudo. Eu gosto de ficar no meu canto, sem ninguém me encher. Ele quer conversar toda hora. Se quisesse conversar, eu ia na feira aqui perto”, desabafou Régis, que naquele momento tinha outra tarefa urgente: consertar o pneu furado de sua bicicleta.
Nascido e criado em Pirituba, Régis é reconhecido por muitos moradores e frequentadores da região, conhecendo bem suas ruas. O posto de gasolina próximo ao restaurante serve de “estacionamento” para sua bicicleta azul, usada para visitar amigos e comprar entorpecentes.
Régis não tenta esconder seu vício. Desde o início de sua trajetória no futebol, ele lida com a dependência química. Em duas ocasiões, foi pego no doping por uso de maconha, resultando em suspensões antes de retomar a carreira, até ser completamente dominado por substâncias mais pesadas que o fizeram perder o controle de sua vida.
Um de seus raros momentos de liberdade é quando pedala pela vizinhança. Ao pegar a bicicleta com o pneu furado, Régis encontrou o mesmo policial que o havia detido em 2025, quando agrediu o síndico do edifício onde ainda possui seu apartamento, atualmente em processo de perda devido a dívidas.
“O senhor que me prendeu, mas me ajudou muito. Máximo respeito.”
“Eu não te prendi, você que se prendeu. Você sabe, Régis. E a tornozeleira?”, retrucou o policial.
“Já era, tá pago”, afirmou Régis, referindo-se ao aparelho que utilizou por alguns meses por determinação judicial, cumprindo uma medida protetiva após a agressão.
Em uma borracharia a poucos metros do posto, Régis conseguiu consertar o pneu. No percurso, ele recordou o auge de sua carreira e o prestígio que tinha à época, jogando em um grande clube do futebol brasileiro.
“Eu andava de BMW, tive uma Dakota (caminhonete). Um dia fui na churrascaria comer uma costela daquelas top e nem paguei, tiraram fotos e não deixaram pagar a conta. Imagina isso hoje? Você está louco”, comentou, ao chegar ao local.
O borracheiro, que viu o então jovem crescer no bairro antes de se profissionalizar no futebol e, posteriormente, vivenciar o declínio, expressou sua opinião.
“Sempre foi bom de bola, mas era briguento. Ainda é”, disse ele, entre risadas, enquanto Régis aguardava o pneu novo com visível ansiedade.
Embora admita o problema que enfrenta, o semblante de Régis muda ao ouvir as palavras “ajuda” ou “internação”. Ele recusa a ideia de sair das ruas para morar com conhecidos ou de receber tratamento médico para o vício. Ele insiste que tudo de que precisa é de um emprego para reestruturar sua vida.
Com o pneu consertado, Régis montou na bicicleta, fez um breve teste no posto de gasolina, sob o olhar de policiais, e partiu novamente sem um destino definido.
Pouco depois, ele retornou ao seu abrigo improvisado, deitou-se e reassumiu sua condição de cidadão em situação de vulnerabilidade na metrópole mais populosa do Brasil.
Detalhes da carreira de Régis Pitbull no futebol
- Nome: Régis Fernandes da Silva
- Apelido: Régis Pitbull
- Carreira: 170 jogos | 49 gols
- Clubes: Comercial, Marítimo-POR, Ceará, Ponte Preta, Coritiba, Kyoto Sanga (Japão), Gaziantepspor (Turquia), Daejon Citzen (Coreia do Sul), Corinthians, Vasco, Bahia, Portuguesa, Inter de Limeira, ABC, Al Nasr, Rio Branco-MG, Poços de Caldas-MG e São Raimundo-AM.
A persistente recusa de Régis Pitbull por tratamento
Amigos e familiares de Régis, em conversas com a imprensa, são unânimes ao afirmar que a principal barreira para sua recuperação é a falta de vontade dele em aceitar ajuda. Ninguém quis conceder entrevistas sobre o assunto.
Antes de sua atual situação nas ruas, Régis vivia uma rotina de oscilações em sua saúde física e mental. Entre recaídas e momentos de lucidez, ele jogava em times de várzea e conseguia alguma fonte de renda.
Régis é pai de dois filhos e tem irmãos e seu pai ainda vivos. Sua mãe faleceu há alguns anos, sem testemunhar o filho superar a dependência química.
No final da década de 1990, Régis despontou no Comercial, de Ribeirão Preto, e despertou o interesse do Marítimo, de Portugal. Ele atuou por dois anos na Europa antes de retornar ao Brasil para jogar no Ceará.
Nesse período da vida, as drogas já faziam parte da rotina do jogador, que chegou a ficar mais de quatro meses afastado dos campos por duas punições de doping por uso de maconha.
Atacante de beirada de campo, com velocidade e drible como principais atributos, Régis defendeu clubes como Coritiba e Ponte Preta antes de sua passagem pelo Japão.
Sua carreira internacional incluiu atuações na Coreia do Sul, Turquia e Kuwait, além de passagens por grandes clubes brasileiros como Corinthians, Vasco, Bahia, Portuguesa e equipes de menor expressão, até sua aposentadoria do futebol em 2012, aos 34 anos. Foi após a aposentadoria que a dependência química se intensificou.
O ex-jogador foi submetido a uma internação para reabilitação em 2022, mas sofreu uma recaída em menos de um mês após a alta, culminando na perda de seu apartamento neste período recente.
Régis completará 50 anos em 22 de setembro e expressa o desejo de uma comemoração para reunir amigos.
Contudo, na realidade atual, não há motivos para celebrar, como ele mesmo declarou:
“Não quero que ninguém saiba que eu existo. Se acharem que estou morto, é melhor. Não sou um coitadinho.”
