A Comissão Externa de Prevenção e Enfrentamento da Violência Sexual Infantojuvenil da Câmara dos Deputados ouviu, na quarta-feira (21), mães e advogados de quatro crianças desaparecidas no Maranhão, no Rio de Janeiro e no Pará. Os familiares relataram entraves no acompanhamento dos inquéritos, falta de informações oficiais sobre o paradeiro dos filhos e pediram a entrada da Polícia Federal nas apurações.
Na audiência realizada em Brasília, em 21 de outubro de 2026, o coordenador da comissão externa, deputado federal Fernando Rodolfo (PRD-PE), declarou que os parlamentares continuarão acompanhando os casos. O congressista informou que pretende apresentar uma proposta legislativa para autorizar a atuação da Polícia Federal no desaparecimento de crianças sem burocracia, mas ainda não há data definida para o protocolo do texto.
Inquérito sobre irmãos desaparecidos em Bacabal segue sem conclusão após 9 meses
Clarice Cardoso Reis, mãe dos irmãos Ágatha Isabelly, de 6 anos, e Allan Michael, de 4 anos, relatou aos deputados que o inquérito policial sobre o sumiço dos filhos ainda não foi concluído nove meses após a abertura. As duas crianças desapareceram em 4 de janeiro de 2026 na comunidade quilombola São Sebastião dos Pretos, localizada na zona rural do município de Bacabal, no Maranhão, depois que saíram para brincar com o primo Anderson Kauã, de 8 anos, que foi encontrado com vida três dias depois em uma estrada de terra da região.
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“A vida das outras pessoas seguiu, a minha não. Nós, mães, não merecemos passar por isso, nossos filhos não merecem passar por isso”, declarou Clarice na comissão.
A advogada da família maranhense, Nathaly Moraes, afirmou que os filhos de Clarice podem ter sido vítimas de uma rede de tráfico humano e pediu a federalização das investigações sobre sumiço infantil. Ela explicou que a Polícia Civil trabalhava inicialmente com duas hipóteses — a de que os irmãos se perderam na mata ou a de que foram vendidos — e apontou que a culpabilização das mães costuma atrasar o andamento de casos semelhantes.
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“Se eles [policiais civis] estão entendendo que a mãe vendeu as crianças, estamos falando de tráfico de pessoas. E, se estamos falando de tráfico de pessoas, por que não houve naquele momento um pedido de cooperação com a Polícia Federal? Se tinha uma linha de investigação, os procedimentos básicos deveriam ser seguidos”, afirmou a advogada.
Família de Edson Davi contesta tese de afogamento no Rio de Janeiro
No caso do menino Edson Davi, que tinha 6 anos quando sumiu em janeiro de 2024 na Praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, a mãe, Marize Araújo, contestou na Câmara a versão da investigação oficial que aponta afogamento. Segundo o relato de Marize aos parlamentares, as câmeras da orla estavam desligadas na ocasião, a polícia descartou suspeitos sem apurar e o menino foi vítima de sequestro praticado por uma quadrilha.
“Há quase três anos, eu venho lutando por uma investigação digna, justa, com compaixão, por uma vida de uma criança que tinha apenas seis anos. É tudo o que eu preciso. É uma investigação com dignidade”, disse Marize Araújo.
Advogado do caso de Eldorado do Carajás propõe biometria no nascimento
Geycyara Souza Gonçalves, mãe de José Arthur Souza Barros, também declarou na comissão que não recebe respostas satisfatórias das autoridades sobre as buscas pelo filho. O menino, que atualmente tem 2 anos, tinha 1 ano e 6 meses quando desapareceu em março de 2026 enquanto brincava com primos na área externa de casa, nas proximidades de uma rodovia federal e de um rio na zona rural de Eldorado do Carajás, no Pará. Durante o inquérito, dois homens tiveram a prisão temporária decretada, mas foram colocados em liberdade após dois meses pelo fim do prazo legal da detenção.
O advogado da família paraense, Elisson Araújo, avaliou na audiência que o problema das investigações é estrutural e que sequestradores se aproveitam da vulnerabilidade das famílias. Para impedir a falsificação de documentos de menores, ele sugeriu a coleta de biometria facial das crianças logo no nascimento, além da integração entre as forças de segurança pública para acelerar a troca de dados sobre desaparecidos.
Operação nos Estados Unidos e os 84.269 desaparecidos no Brasil em 2025
A suspeita de tráfico internacional levou as famílias do Maranhão e do Pará a procurarem organismos internacionais após uma operação policial nos Estados Unidos resgatar 163 crianças e adolescentes vítimas de exploração infantil e tráfico de pessoas. Em 8 de setembro de 2026, o Núcleo de Cooperação Internacional da Polícia Federal e a Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal, rede que articula polícias de diferentes países) entraram em contato com os parentes dos irmãos de Bacabal, mas confirmaram que nenhuma das crianças brasileiras estava entre os resgatados em território norte-americano.
Os quatro casos levados à Câmara dos Deputados fazem parte das estatísticas nacionais monitoradas pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento registrou um total de 84.269 pessoas desaparecidas no Brasil ao longo de 2025, número que corresponde a uma média de dez desaparecimentos por hora no país.
