Cientistas detectam no espaço molécula associada à origem da vidaPor Beatriz
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Pesquisadores identificaram no espaço interestelar a maior molécula orgânica com enxofre já registrada, em estudo divulgado em 2026. Os cientistas classificam o achado como peça central para decifrar a evolução química que antecedeu os primeiros organismos vivos.
O enxofre ocupa o décimo lugar entre os elementos mais abundantes de todo o Universo. Na Terra, o componente integra estruturas biológicas essenciais, como enzimas e proteínas. Astrônomos já sabiam da presença do elemento em meteoritos, mas não encontravam estruturas moleculares volumosas nas nuvens interestelares de gás.
“O enxofre veio do espaço para a Terra há muito tempo”, afirmou Mitsunori Araki, astrofísico do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, na Alemanha, e autor principal do trabalho publicado na revista Nature Astronomy.
O cientista explicou o mistério da baixa concentração detectada até hoje. “Encontramos apenas uma quantidade muito restrita de moléculas com enxofre no espaço, algo bastante curioso quando consideramos sua abundância teórica”, declarou Araki.

Cientistas de outros centros propuseram antes a hipótese de que o enxofre cósmico permanece retido no gelo interestelar.
A nova observação traz respostas a esse enigma astronômico. “Esta se consolidou como a maior estrutura com enxofre localizada no meio interestelar”, disse Araki. Ela contém 13 átomos.
O pesquisador esclareceu que o registro diminui a distância teórica entre compostos celestes simples e a matéria orgânica achada em fragmentos de asteroides.
Identificada tecnicamente como 2,5-cicloexadieno-1-tiona, a estrutura reúne átomos de enxofre, carbono e hidrogênio entre mais de 300 compostos catalogados fora do sistema solar. Araki avalia que os instrumentos atuais permitirão encontrar partículas ainda mais complexas no futuro.
O sinal químico partiu da nuvem molecular G+0,693–0,027, localizada a cerca de 27.000 anos-luz da Terra, na direção do centro galáctico.
Nuvens moleculares acumulam grandes volumes gelados de gás que viabilizam reações químicas complexas. A concentração de matéria nesses locais atua diretamente na formação de novas estrelas.
“É no interior das nuvens moleculares que as estrelas nascem”, disse Valerio Lattanzi, pesquisador do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre e coautor do artigo.
Lattanzi detalhou a evolução dessas estruturas cósmicas ao longo do tempo. Elas originam discos que formam planetas semelhantes aos do nosso sistema. “A matéria-prima presente na nuvem passa diretamente para esses corpos celestes”, explicou o coautor. Os astrônomos buscam traçar a rota exata que transformou elementos simples em estruturas orgânicas ativas.
Os pesquisadores sintetizaram o composto no laboratório aplicando uma descarga elétrica sobre tiofenol, substância líquida de odor desagradável formada por enxofre, carbono e hidrogênio, antes de cruzarem o sinal de rádio obtido com as informações colhidas pelos radiotelescópios IRAM-30m e Yebes, na Espanha.
Lattanzi lembrou que medições anteriores já comprovavam a fartura de elementos químicos naquela área do centro galáctico. Por essa razão, os cientistas concentraram a busca no setor. “A colisão passada de bólidos como cometas contra o nosso planeta deve ter depositado essas estruturas aqui”, disse o autor.
Cientistas comparam descoberta interestelar a caso investigativo
A professora de geociências Kate Freeman, ligada à Universidade Estadual da Pensilvânia, definiu o trabalho como uma investigação detalhada possibilitada pelo alcance dos telescópios modernos.
Freeman observou que meteoritos guardam materiais ricos em enxofre. Ela considera provável que impactos espaciais tenham enriquecido o ambiente primordial terrestre.
A pesquisadora ponderou sobre o transporte inicial desses componentes até os meteoritos. Os cientistas não sabiam como essa fixação química ocorria antes da formação dos corpos celestes menores. “O trabalho atual indica que os compostos surgiram antes mesmo do nascimento do sistema solar”, disse Freeman.
O enxofre compõe a lista restrita dos seis elementos vitais na Terra, de acordo com Sara Russell, docente de ciências planetárias no Museu de História Natural de Londres.
Russell afirmou que esses blocos orgânicos nas proximidades do centro da Via Láctea mostram que a matéria necessária para a biologia está disseminada pelas galáxias. Ela apontou que a detecção fora da Terra amplia a probabilidade estatística de evolução biológica em outros pontos do cosmos.
Ryan Fortenberry, professor de química da Universidade do Mississippi, analisou as propriedades do átomo detectado. O elemento apresenta configurações que viabilizam reações inacessíveis a composições baseadas exclusivamente em carbono ou oxigênio. “Rastrear o enxofre orienta onde a química biológica começou”, declarou o docente.
O químico afirmou que meio século atrás os especialistas consideravam inviável detectar estruturas desse tipo no espaço interestelar.
A comunidade científica supunha que as condições extremas de radiação destruíam rapidamente arranjos moleculares. “Aparecem agora estruturas com dezenas de átomos”, comentou Fortenberry.
O professor encerrou sua avaliação afirmando ter certeza de que telescópios encontrarão aminoácidos livres além das fronteiras do nosso sistema planetário.







