Pesquisa revela avanço de água quente sob gelo na AntárticaPor Janderson Luiz
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Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine identificaram que correntes oceânicas quentes penetram quilômetros abaixo da base da Geleira Thwaites, na Antártica Ocidental. O estudo mapeou a linha de contato onde a camada congelada se separa da rocha continental e passa a flutuar diretamente sobre o mar polar. Os dados indicam que a água salgada entra com pressão contínua sob o gelo e acelera a perda de massa em setores considerados vitais para a retenção do manto polar.
A intrusão do mar alcança até 12 quilômetros além do limite que os modelos matemáticos previam anteriormente para a Geleira Thwaites.
As medições no Oceano Antártico registraram bolsões de água com temperaturas até 2 graus acima do ponto de congelamento local. Esse fluxo térmico atua como um conduto subterrâneo que corrói a base da placa de gelo a uma profundidade superior a 600 metros.
O glaciologista Eric Rignot afirmou que a circulação forçada do oceano torna a estrutura muito mais vulnerável do que se calculava nos inventários climáticos de 1990. A Geleira Thwaites cobre uma extensão territorial comparável ao tamanho do estado do Paraná. O colapso total dessa formação elevaria o nível global dos mares em mais de 65 centímetros ao longo dos próximos séculos. A dinâmica afeta todo o equilíbrio costeiro mundial.
Mecanismo de pressão empurra correntes para debaixo do gelo
A professora Christine Dow, da Universidade de Waterloo, explicou que as marés funcionam como um pistão que bombeia o líquido denso para as fendas profundas da rocha. A elevação da maré levanta a plataforma e abre espaço imediato para a entrada rápida do oceano aquecido.
O recuo na Baía de Amundsen ocorre porque a água salgada preserva calor sob pressões elevadas e dissolve o gelo glacial em velocidade três vezes maior. “O contato vigoroso com a água do mar expõe áreas internas que nunca haviam sofrido corrosão líquida”, disse Christine Dow. As cavidades formadas pela erosão hídrica atingem alturas de até 200 metros em túneis subglaciais contínuos.
- Penetração da água salgada: 12 quilômetros terra adentro a partir da margem de flutuação
- Temperatura da corrente intrusiva: 2,2 graus Celsius acima da média da água congelada local
- Volume total de gelo em risco imediato na bacia: 480 mil quilômetros cúbicos
- Velocidade média de avanço do mar sob a placa: 800 metros por ciclo sazonal de degelo
A topografia irregular do leito na Terra de Marie Byrd canaliza essa água para áreas ainda mais rebaixadas do continente.
Satélites de radar mapearam deformação do solo congelado
A equipe da Finlândia utilizou a constelação de satélites ICEYE para monitorar as oscilações milimétricas da superfície branca durante 2023 e 2024. Os sensores de radar de abertura sintética coletaram registros em intervalos curtos de menos de 24 horas. Essa frequência de imageamento inédita revelou que a plataforma sofre elevações de até 80 centímetros conforme a água invade os canais basais.
O deslocamento vertical coincide com os períodos de maré alta registrados pelas boias oceanográficas fundeadas ao largo da costa polar. Esse movimento desestabiliza a aderência da massa congelada sobre os cumes rochosos submersos.
Registros semelhantes começaram a ser verificados também na vizinha Geleira Pine Island ao longo dos primeiros meses de 2024. A taxa de fusão basal nessas duas bacias responde por quase metade de todo o gelo que a Antártica perde anualmente para os oceanos. Medições de campo indicam que o derretimento inferior supera em quatro vezes a perda superficial provocada pela atmosfera. O processo segue contínuo.
Submarinos autônomos revelam formas incomuns esculpidas na base
Pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, liderados pela oceanógrafa Anna Wåhlin, enviaram o veículo submarino não tripulado Ran para mergulhar sob a Plataforma Dotson. O robô viajou por 17 quilômetros sob a abóbada sólida e registrou relevos côncavos em formato de lágrimas esculpidos pelas correntes marinhas.
Anna Wåhlin relatou que a rotação da Terra desvia as massas de água doce geradas pelo degelo e cria vórtices que perfuram tetos de gelo com espessuras superiores a 25 metros. O levantamento acústico identificou desfiladeiros subaquáticos que não apareciam em nenhum mapa geofísico anterior. Esses cânions direcionam fluxos oceânicos concentrados contra as paredes mais frágeis da geleira.
O submarino registrou que a taxa de dissolução varia bruscamente em distâncias curtas de apenas 50 metros ao longo da rota submersa.
Impactos do recuo polar atingem cidades costeiras globais
Relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas indicam que o derretimento acelerado do manto antártico pode adicionar até 30 centímetros extras ao nível médio dos mares até o ano de 2100. Esse volume adicional aumentará a frequência de inundações em zonas portuárias e cidades litorâneas densamente povoadas em diversos continentes.
Estimativas da agência espacial americana revelam que a Antártica perdeu mais de 3 trilhões de toneladas de gelo entre 2000 e 2024. A bacia do Mar de Amundsen concentra a maior parte dessa drenagem acelerada para o Atlântico e o Pacífico. Embora os modelos climáticos tradicionais assumissem que a camada estaria totalmente protegida pelo relevo das bacias continentais profundas, as observações físicas subglaciais mais recentes comprovam de forma irrefutável que a intrusão contínua da água marinha opera como a força motriz determinante para a retração veloz de todo o manto polar antártico.
Equipes técnicas da estação McMurdo instalaram 14 sensores sismológicos e de pressão na extremidade da barreira de gelo. O sistema transmitirá dados contínuos de condutividade térmica durante as expedições previstas para outubro de 2025.







