Pesquisadores encontram dezenas de espécies novas no AmazonasPor Maria
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Uma equipe de 16 cientistas encerrou em 12 de setembro um trabalho de campo na Serra do Aracá e no maciço do Aracazinho, no norte do Amazonas, com a coleta de dezenas de espécies de animais e plantas provavelmente desconhecidas pela ciência.
O trabalho durou 19 dias. O grupo montou o acampamento principal a 1.260 metros de altitude em um tepui situado a 220 quilômetros do município de Barcelos, em uma área de 210 quilômetros quadrados coberta por formações rochosas de arenito.
Diferenças ecológicas entre o platô principal e o Aracazinho
Para alcançar a floresta nebular a 1.360 metros de altitude, os pesquisadores utilizaram imagens aéreas de drone após duas tentativas terrestres bloqueadas por paredões de pedra. Apoiado em uma pedra e com as botas imersas em um riacho tingido de vermelho pela decomposição de matéria orgânica da floresta, o herpetólogo Taran Grant esforçava-se para manter o silêncio absoluto ao seu redor em meio à mata fechada sob escuridão total para registrar o canto de um pequeno anfíbio. O professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo afirmou que o conjunto biológico do platô pertence ao Pantepui e reúne musgos, cursos d’água e animais com características semelhantes às dos Andes.
Um helicóptero Black Hawk do Exército Brasileiro transportou parte da equipe em 30 de agosto para o Aracazinho, uma montanha desgarrada do maciço principal com 10 quilômetros quadrados e altitude de 850 metros.

Como os pesquisadores catalogaram os animais no laboratório
Diferentemente do topo da Serra do Aracá, o Aracazinho apresentou solo arenoso com vegetação mais alta e seca. A montanha mais baixa reuniu anfíbios de altitude, como os do gênero Myersiohyla, e espécies da planície, a exemplo das pererecas do gênero Osteocephalus.
No laboratório montado na base, o professor emérito Miguel Trefaut registrava dados de localidade, hábitat e horário em cadernos antes de fixar etiquetas numeradas em cada indivíduo. Os animais vivos foram fotografados em recipientes com elementos naturais para registrar cores que desaparecem após a conservação química em formol e álcool. O professor Agustín Camacho, da Universidade Autônoma de Madri, utilizou câmaras térmicas não invasivas para mensurar a temperatura voluntária máxima de lagartos.
Volume de amostras recolhidas durante os trabalhos de campo
A equipe reuniu espécimes zoológicos, botânicos e geológicos em dois pontos isolados:
- Nove espécies de lagartos, sendo cinco prováveis novidades científicas e um possível gênero novo
- Cinco espécies de cobras, incluindo uma serpente inédita
- Dezoito espécies de anfíbios, com cerca de dez potenciais novidades
- Oitenta pequenos mamíferos, distribuídos em aproximadamente 20 espécies de roedores e marsupiais
- Duzentos exemplares de aves, englobando 80 espécies distintas
- Sete mil a 11 mil insetos, reunidos em até 350 morfoespécies
- Quatrocentos registros botânicos, que resultaram em duas mil exsicatas para estudos de flora
- Cinco perfurações de solo entre 50 centímetros e um metro para análise de pólen dos últimos 30 mil anos
O mestrando Lucas Rachid aplicou injeções de colchicina para paralisar a divisão de cromossomos e viabilizar análises citogenéticas em tecidos celulares. O parasitólogo Bruno Fermino, do Instituto Federal do Amazonas, retirou amostras de sangue para identificar parasitas do gênero Trypanosoma.
Rotina sob tempestades e logística na selva
Uma forte ventania de 38 quilômetros por hora atingiu o acampamento secundário na manhã de 3 de setembro e inundou as barracas da equipe. No platô principal, trovoadas e chuvas intensas ocorreram na madrugada de 10 de setembro a partir das 4h.
O resgate aéreo final ocorreu sob temporal às 9h de 12 de setembro no platô principal e às 11h10 no acampamento secundário.
Destino das espécies e materiais coletados no Amazonas
O Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo receberá a maioria dos animais vertebrados e invertebrados fixados na expedição.
O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia cuidará da secagem e catalogação das plantas antes do envio de duplicatas ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro e ao Missouri Botanical Garden. As análises moleculares e de parasitas ficarão a cargo do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo e do Instituto Federal do Amazonas. O Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo analisará os sedimentos de solo recolhidos nas perfurações.
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo financiou o projeto científico, que contou com o suporte operacional do Exército Brasileiro.







