Pessoas autodeclaradas canhotas se posicionam mais à esquerda no espectro político do que indivíduos destros, segundo um estudo conduzido por pesquisadores europeus divulgado nesta sexta-feira (25). A apuração aponta que o fenômeno está ligado a mecanismos de identificação e simbolismo social, e não a determinações biológicas ou neurológicas.
O levantamento foi realizado com 1.404 participantes em 18 países ocidentais e constatou que indivíduos que se identificam como canhotos situam-se, em média, meio ponto mais à esquerda em uma régua de dez pontos. “Em uma escala política de dez pontos, os canhotos ficam, em média, cerca de meio ponto mais à esquerda. Pode parecer pouco, mas a diferença é maior do que a observada entre homens e mulheres”, afirmaram os autores Jérémie Bertrand, Caroline Perrin e Laurent Weill.
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Diferença entre autodeclaração e uso prático das mãos
O efeito ideológico desaparece por completo quando a medição deixa de considerar como o indivíduo se define e passa a registrar as ações motoras reais executadas no dia a dia. Ao avaliarem tarefas rotineiras, os cientistas constataram que a correlação com preferências políticas não se sustenta no plano físico e funcional.
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“Em vez de simplesmente perguntar às pessoas se elas se consideravam canhotas, observamos qual mão realmente usavam em diferentes atividades do cotidiano: escrever, usar uma tesoura, escovar os dentes ou arremessar uma bola. Nesse caso, a associação com as opiniões políticas desaparece”, explicaram Bertrand, professor de Finanças na IÉSEG School of Management e pesquisador do LEM-CNRS, Perrin, pesquisadora de pós-doutorado na Comissão Europeia, e Weill, professor de Economia e Finanças na Universidade de Estrasburgo e Sciences Po Strasbourg.
Essa quebra estatística afasta a hipótese de que a organização cerebral entre os dois hemisférios determine as convicções eleitorais de forma direta. Caso a conformação neurológica fosse o elemento motor primário da ideologia, o ato motor de usar o braço esquerdo para arremessar ou cortar objetos deveria apresentar a mesma correspondência política que o relato verbal de pertencer ao grupo dos canhotos, o que os testes práticos descartaram.
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Números e parâmetros da amostragem internacional
- 1.404 participantes responderam ao questionário em 18 nações ocidentais
- 10 pontos formaram a escala ideológica utilizada, variando da direita à esquerda
- 0,5 ponto foi a inclinação média a mais em direção à esquerda registrada pelos canhotos
- 0,4 ponto foi a distância média observada entre mulheres e homens na mesma escala
- 10% a 15% da população global é canhota, grupo minoritário analisado no estudo
Egotismo implícito e histórico de minoria social
Os pesquisadores sugerem explicações psicológicas e sociológicas para o resultado, incluindo o conceito de egotismo implícito, que descreve a tendência humana involuntária de demonstrar apreço por termos, locais ou marcas que guardem semelhança com a própria identidade. Dessa maneira, pessoas que usam o termo esquerda com frequência para caracterizar a própria lateralidade física desenvolvem maior proximidade intuitiva com forças e ideias rotuladas sob o mesmo vocábulo no espectro político formal.
Outro vetor apontado pelos pesquisadores reside na vivência coletiva de integrar uma minoria que enfrentou discriminações históricas, já que crianças canhotas chegaram a ser forçadas a escrever com a mão direita até a década de 1970 em escolas ocidentais. Em idiomas de origem latina, como o francês e o italiano, expressões ligadas ao lado esquerdo ainda carregam acepções negativas, o que fortalece a identificação dessa população com pautas progressistas voltadas à proteção de grupos minoritários.
Efeito simbólico em países de língua latina
A correlação entre declarar-se canhoto e tender a posicionamentos de esquerda revelou-se mais acentuada em países latinos, como França, Espanha e Itália. Nestas nações, a clivagem conceitual entre esquerda e direita organiza de maneira contínua o debate partidário e o noticiário, elevando o peso do rótulo no imaginário coletivo dos cidadãos.
Os responsáveis pela análise ponderam, no entanto, que o segmento não age em bloco nas urnas. “O fato de Fidel Castro e Benjamin Netanyahu serem canhotos, apesar de suas posições políticas muito diferentes, mostra que os canhotos não podem ser tratados como uma categoria eleitoral homogênea”, pontuaram Bertrand, Perrin e Weill.
Artigo de divulgação e etapas acadêmicas
O texto de divulgação científica dos autores circulou em 25 de agosto de 2026 na plataforma canadense Tolerance.ca, antes de ter sua análise veiculada em 29 de agosto de 2026 pelo jornal britânico The Independent. A literatura precedente já contava com investigações sobre disposições pessoais e ideologia, a exemplo dos estudos com gêmeos de Alford, Funk e Hibbing em 2005 e das pesquisas comportamentais conduzidas por Gerber e Mondak em 2010.
A publicação formal do documento de trabalho em versão final indexada, com volume e edição definidos em periódico de ciência política revisado por pares, ainda não ocorreu.
