Pesquisadores identificaram uma nova classe de emissores cósmicos apelidados de fontes de raios-X hipermoles em galáxias vizinhas à Via Láctea, após reexaminarem dados de arquivo do telescópio espacial Chandra da Nasa. Os registros observacionais analisados foram obtidos entre 1999 e 2017 e apontam corpos celestes com radiação concentrada abaixo de 0,3 keV, comprimento de onda até então ignorado em varreduras convencionais.
O levantamento foi conduzido por cientistas da Universidade do Alabama, em Tuscaloosa, nos Estados Unidos, com publicação no periódico acadêmico Nature Astronomy em 9 de setembro de 2026. A descoberta oferece parâmetros fundamentais para resolver a escassez observacional de progenitores de supernovas do Tipo Ia e compreender os mecanismos de ionização de gás interestelar.
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Chandra revela 145 fontes de raios-X hipermoles em galáxias vizinhas
O grupo liderado por Mustafa Muhibullah, pesquisador e doutorando em Física e Astronomia na Universidade do Alabama, mapeou inicialmente 84 objetos desconhecidos espalhados por seis galáxias próximas, incluindo Andrômeda e a Galáxia do Catavento. Análises complementares expandidas para outras quatro galáxias elevaram o catálogo total para 145 emissores cósmicos com características semelhantes, comprovando que as emissões ocorrem em densidade expressiva em diferentes regiões do Cosmos
A quase totalidade desses pontos emite fótons na faixa de energias inferiores a 0,3 keV, associada a uma forte radiação no espectro ultravioleta extremo. De acordo com os astrônomos, esse tipo específico de luz costuma ser absorvido pelo gás hidrogênio e pelo hélio interestelares antes de alcançar os instrumentos ópticos terrestres. A detecção direta só foi viabilizada porque esses objetos produzem emissões fracas na borda inferior do espectro de raios-X, contornando a barreira imposta pela poeira cósmica.
Mustafa Muhibullah destacou a singularidade do comportamento termodinâmico dos alvos detectados. “Nunca encontramos um grupo de objetos que se comporte dessa forma”, afirmou o pesquisador da Universidade do Alabama, em tradução livre sobre o conjunto de emissores mapeados.
Medições físicas das fontes de raios-X hipermoles
Os parâmetros físicos registrados pelo Observatório de Raios X Chandra detalham o comportamento térmico e energético dos novos sistemas cósmicos catalogados pelos astrofísicos:
- Faixa de energia espectral: inferior a 0,3 keV em quase toda a radiação emitida
- População inicial confirmada: 84 objetos celestes mapeados no primeiro levantamento
- Amostra galáctica inicial: 6 galáxias do universo local avaliadas na publicação preliminar
- Censo estendido de emissores: 145 fontes hipermoles catalogadas no conjunto de dez galáxias
Arquivo do telescópio Chandra e a filtragem de dados
Durante mais de duas décadas, os dados de energia mais branda obtidos pelo Chandra eram descartados durante o processamento de rotina pela comunidade astronômica. Como os sensores eletrônicos do telescópio espacial registram ruídos e calibrações imprecisas nas faixas de energia extremamente baixas, os cientistas habitualmente aplicavam filtros de software para excluir detecções situadas abaixo dos limites usuais de observação.
Jimmy Irwin, professor de Física e Astronomia na Universidade do Alabama e coautor da pesquisa, iniciou a revisão dos registros brutos arquivados há cerca de 12 anos. O docente identificou corpos conhecidos, como estrelas de nêutrons e buracos negros isolados, mas também notou rastros de radiação confinada apenas nas frequências mais fracas do espectro. O trabalho recebeu o apoio de Rosanne Di Stefano, astrofísica do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian, que sugeriu que a assinatura correspondia a objetos brilhantes em ultravioleta extremo até então ocultos pelas nuvens de gás interestelar.
Marcos cronológicos das pesquisas com o telescópio Chandra
A identificação e a checagem das novas fontes astronômicas seguiram uma sequência de etapas laboratoriais e revisões observacionais:
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- 1999 a 2017 — Intervalo de coleta contínua das observações brutas arquivadas pelo telescópio espacial Chandra da Nasa
- 5 de fevereiro de 2026 — Publicação da versão preliminar do estudo acadêmico no repositório de pesquisas arXiv
- 9 de setembro de 2026 — Divulgação oficial das descobertas pela Nasa e publicação do artigo na revista científica Nature Astronomy
Origem das supernovas do Tipo Ia e modelos teóricos
As fontes de raios-X hipermoles fornecem subsídios para entender as supernovas do Tipo Ia, explosões termonucleares que apresentam luminosidade padronizada e atuam como réguas de medição de distâncias no Universo. Os modelos vigentes apontam que essas detonações acontecem quando uma anã branca absorve material estelar vizinho até ultrapassar sua massa crítica. Entretanto, a quantidade de candidatas a anã branca registradas em levantamentos anteriores permanecia numericamente abaixo da frequência das explosões observadas no espaço visível.
“Se pudéssemos encontrar uma maneira de identificar essas explosões de supernovas do Tipo Ia antes que elas ocorram, isso seria realmente importante. No momento, nós as estudamos depois que já explodiram, e os astrônomos têm lutado para entender o que é de fato detonado”, afirmou Jimmy Irwin, em tradução livre.
Hipóteses alternativas para explicar os emissores foram apresentadas por Sergei Popov, astrofísico do Instituto Astronômico Sternberg, na Rússia, e por Galina Lipunova, astrofísica do Instituto Max Planck de Radioastronomia, na Alemanha. A dupla propôs a existência de sistemas estelares triplos compostos por dois buracos negros em órbita mútua e uma terceira estrela convencional fornecedora de matéria, situação em que o gás formaria um disco aquecido sem gerar raios-X duros.
A natureza física exata de cada um dos 145 objetos mapeados ainda carece de confirmação observacional individual, dependendo do acompanhamento sistemático para determinar se os pontos representam anãs brancas pré-supernova, sistemas binários convencionais ou configurações com múltiplos buracos negros.
