Papiros de Herculano carbonizados pela erupção do Monte Vesúvio podem ser decifrados sem abertura física graças à identificação de chumbo na tinta por raios-X. O método foi validado por cientistas da Universidade da Califórnia em Berkeley e do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos, o NIST, após testes com réplicas fabricadas e queimadas em laboratório.
A formulação desenvolvida pelos pesquisadores revelou que o chumbo absorve até 25 vezes mais radiação de raios-X do que as fibras do papiro carbonizado, gerando o contraste necessário para destacar caracteres ocultos. “Se houver chumbo nos rolos, muito provavelmente conseguiremos lê-los”, afirmou o pesquisador Douglas Seiler, primeiro autor da pesquisa.
Chumbo na tinta amplia contraste sob raios-X em até 25 vezes
Para reproduzir os efeitos térmicos da catástrofe ocorrida em 79 d.C. na antiga cidade romana, os cientistas produziram rolos com papiro importado do Egito e aplicaram tintas contendo diferentes concentrações de sais metálicos. Estudantes escreveram nos documentos passagens bíblicas, trechos de Star Wars e diálogos da série The Outer Limits. Em seguida, os volumes foram selados em uma fornalha com baixa oxigenação para simular o soterramento piroclástico. Nas análises radiográficas posteriores, as letras redigidas com as misturas metálicas permaneceram nítidas até mesmo na concentração mínima de 25 microgramas por centímetro quadrado.
Segundo Jacob Michael LaManna, físico do NIST e coautor do trabalho, o resultado visual surpreendeu a equipe técnica no momento em que os equipamentos foram ativados. “Foi realmente incrível ver o texto aparecer imediatamente no rolo”, declarou o físico. Em declaração complementar sobre a assinatura espectral do material, Douglas Seiler apontou a relevância do composto: “Com chumbo na tinta, você obtém um sinal enorme, então é preciso realmente procurar por rolos que contenham chumbo”, disse, em tradução livre.
Como a fluorescência portátil acelera a triagem dos manuscritos?
O estudo apontou que a utilização de aparelhos portáteis de espectrometria de fluorescência de raios-X, conhecida pela sigla XRF, viabiliza a localização do metal sem a necessidade de tocar nas peças históricas. Esse equipamento não realiza a leitura integral dos caracteres textuais, mas opera como uma ferramenta preliminar de triagem capaz de inspecionar centenas de peças nas próprias prateleiras dos arquivos. Os volumes que apresentarem assinatura positiva de chumbo podem ser encaminhados com prioridade para exames aprofundados de tomografia computadorizada.
A suspeita sobre o emprego de substâncias minerais na escrita antiga ganhou sustentação científica em 2016, quando um grupo que incluía o físico Vito Mocella, do Conselho Nacional de Pesquisas da Itália, detectou vestígios metálicos em fragmentos já abertos da coleção. Os pesquisadores ainda investigam se o chumbo era adicionado deliberadamente para acelerar a secagem dos traços, se atuava como pigmento auxiliar ou se decorria de contaminações no processo de fabricação dos instrumentos.
- Menor densidade superficial detectada: 25 microgramas de chumbo por centímetro quadrado de papiro
- Capacidade de bloqueio radiológico: 25 vezes superior à do suporte vegetal carbonizado
- Acervo fechado remanescente: mais de 600 rolos de papiro sob custódia na Biblioteca Nacional de Nápoles
- Trecho decifrado no pergaminho PHerc. 1667: 1,4 metro de texto contínuo em 22 colunas
- Premiação científica internacional: 50 mil dólares concedidos em 2023 à equipe do Vesuvius Challenge
Algoritmo de baterias de íons de lítio reconstrói camadas internas
Depois da captação volumétrica por tomografia tridimensional, o processo de desenrolamento digital exige a separação milimétrica de dezenas de camadas que se fundiram sob a ação do calor e da pressão geológica. Para solucionar essa barreira computacional, o pesquisador Michael Cyrus Daugherty, eletroquímico e pós-doutorando do NIST, adaptou um algoritmo matemático estruturado originariamente para examinar o desgaste de lâminas cilíndricas enroladas no interior de baterias recarregáveis de íons de lítio. A programação computacional mapeia as folhas comprimidas e reconstrói o traçado do papiro em um plano bidimensional legível para os tradutores.
Odemir Martinez Bruno, professor do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo, pontuou que o algoritmo depende diretamente da definição das matrizes obtidas nos escaneamentos. “A gente tem que detectar o que é tinta e o que é papiro sem tinta”, explicou o professor, indicando que sem imagens radiológicas de resolução apropriada os modelos de inteligência artificial falham na reconstituição das palavras.
Marcos históricos da biblioteca da Villa dos Papiros
O conjunto textual preservado em Herculano compõe a única biblioteca que sobreviveu fisicamente intacta desde o período clássico greco-romano. A maior parte das obras decifradas até o momento reúne reflexões de pensadores adeptos do epicurismo, corrente de pensamento iniciada na Grécia que elegia o prazer moderado como fundamento ético da existência. Segundo Markus Figueira da Silva, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o resgate das obras pode solucionar lacunas teóricas sobre Epicuro, embora isso dependa da extensão dos futuros exames.
- 79 d.C.: Erupção do Monte Vesúvio soterra as cidades de Herculano e Pompeia com cinzas e material vulcânico
- 1752 a 1754: Escavações na Villa dos Papiros resgatam cerca de 1.800 fragmentos e 800 volumes fechados
- 2016: Pesquisa italiana comprova a presença de chumbo em fragmentos desprendidos de manuscritos
- 2023: Equipe com pesquisadores brasileiros empata em segundo lugar na maratona científica Vesuvius Challenge
- Junho de 2026: Pesquisadores decifram integralmente pela primeira vez um rolo lacrado, o rolo PHerc. 1667
- 16 de setembro de 2026: Estudo sobre réplicas queimadas e absorção radiológica é publicado na revista PLOS ONE
Aplicação no acervo de Nápoles depende de liberação oficial
Apesar do êxito na leitura dos pergaminhos recriados em laboratório, o método ainda não foi testado nos exemplares originais preservados no sul da Itália. As peças são extremamente sensíveis a qualquer movimentação física, com risco iminente de desintegração caso manipuladas sem protocolos estritos de conservação patrimonial.
O método testado em laboratório ainda aguarda autorização formal das autoridades da Biblioteca Nacional de Nápoles para aplicação direta no acervo original de Herculano. Cientistas planejam iniciar a triagem das peças por fluorescência móvel assim que as permissões forem expedidas pelo governo italiano.
