Islatravir e lenacapavir em dose semanal mantêm controle do HIV

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teste de HIV - Towfiqu ahamed barbhuiya/Shutterstock.com Foto: teste de HIV - Towfiqu ahamed barbhuiya/Shutterstock.com

O tratamento semanal para o HIV que combina os antirretrovirais islatravir e lenacapavir comprovou eficácia equivalente à terapia diária de dose única na manutenção da carga viral indetectável. O resultado integra a análise primária do estudo clínico internacional de fase 3 ISLEND-1, que acompanhou voluntários adultos com o vírus controlado.

Na 48ª semana de avaliação do ensaio clínico, 93,4% dos participantes tratados com a pílula semanal mantiveram a carga viral abaixo de 50 cópias por mililitro de sangue, patamar que caracteriza o controle da infecção. No grupo de comparação submetido ao regime oral diário padrão, o índice de supressão virológica registrado foi de 92,4%.

Números do ensaio clínico ISLEND-1 com islatravir e lenacapavir

A pesquisa avaliou a substituição do tratamento em voluntários com o HIV-1 estáveis e com carga viral suprimida há pelo menos seis meses antes da triagem. O protocolo excluiu participantes que possuíam histórico prévio de falha virológica ou coinfecção ativa pelo vírus da hepatite B.

  • Total de participantes na análise primária: 607 voluntários adultos.
  • Abrangência internacional: 106 centros clínicos distribuídos por 12 países.
  • Composição da dose semanal: 2 mg de islatravir combinados a 300 mg de lenacapavir.
  • Incidência de falha virológica no grupo semanal na semana 48: 0% dos pacientes.
  • Incidência de falha virológica no grupo diário na semana 48: 0,3% dos pacientes, correspondendo a um caso.
  • Taxa de interrupção por efeitos adversos: 2% na terapia semanal contra 1,7% no regime diário.
HIV
Foto: Melnikov Dmitriy/ Shutterstock.com

Como funciona o comprimido semanal contra o HIV?

A formulação reúne dois medicamentos desenvolvidos com mecanismos de ação complementares, voltados a bloquear diferentes etapas do ciclo biológico do vírus no corpo humano. O islatravir atua como um inibidor da translocação da transcriptase reversa análogo de nucleosídeo (NRTTI), classe farmacológica que impede a multiplicação celular do HIV ao interferir na síntese do material genético viral. O lenacapavir exerce sua atividade em uma fase anterior, quebrando as funções estruturais do capsídeo, o invólucro proteico responsável por proteger e transportar o código genético do micro-organismo.

“Os dois medicamentos atuam em ciclos diferentes da replicação do vírus HIV. Nesse caso, como há o bloqueio de diferentes mecanismos, estas medicações se complementam, aumentando a potência da terapia e reduzindo o risco de desenvolvimento da resistência viral”, explicou Emy Akiyama Gouveia, infectologista do Einstein Hospital Israelita e coordenadora médica do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) do Hospital Ipiranga.

A condução científica teve coordenação de Jürgen K. Rockstroh, pesquisador principal do ensaio e professor do Hospital Universitário de Bonn, na Alemanha, e de Chloe Orkin, autora sênior da investigação e professora da Queen Mary University of London, no Reino Unido.

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Adesão e evolução histórica das terapias antirretrovirais

A simplificação posológica representa um dos principais eixos de pesquisa científica desde a década de 1990, período em que os indivíduos diagnosticados precisavam ingerir dezenas de comprimidos distribuídos em horários rígidos ao longo do dia, formação conhecida inicialmente como coquetel contra a Aids. Com o avanço das formulações químicas, a indústria consolidou regimes de dose única diária, que concentram os componentes ativos em um único comprimido.

“Desde o início da disponibilização da terapia antirretroviral para o tratamento do HIV, cada vez mais vemos simplificar esquemas complexos, que passaram de múltiplos comprimidos diários para tratamentos cada vez mais simplificados e eficazes de dose única diária. Agora o desenvolvimento de uma terapia semanal traz uma estratégia que pode proporcionar qualidade de vida ao paciente, sem perda da eficácia”, declarou Emy Akiyama Gouveia.

A manutenção da carga viral indetectável impede a transmissão do vírus por via sexual e evita a deterioração do sistema imunológico. “Há um grande desafio do tratamento do HIV, que é o de manter a adesão ao longo de décadas. Simplificar o tratamento contribui para uma melhor adesão e um desfecho clínico mais favorável a longo prazo”, afirmou a infectologista.

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Marcos temporais da pesquisa e da incorporação de terapias

  • 29 de julho de 2026 — Publicação dos resultados de eficácia do estudo de fase 3 ISLEND-1 no periódico científico New England Journal of Medicine e apresentação na conferência AIDS 2026.
  • Agosto de 2026 — O Sistema Único de Saúde (SUS) inicia no Brasil a distribuição do comprimido único diário composto por bictegravir, emtricitabina e tenofovir alafenamida (BIC/FTC/TAF).
  • 2 de outubro de 2026 — Divulgação de dados complementares sobre a viabilidade clínica da terapia semanal e desafios de acesso a antirretrovirais pela Agência Einstein.

Acesso a medicamentos e situação regulatória no Brasil

O oficial de Igualdade e Direitos do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) no Brasil, Gustavo Passos, pondera que a tecnologia em saúde precisa superar barreiras socioeconômicas para beneficiar quem convive com o diagnóstico em diferentes territórios.

“Os tratamentos de longa duração não surgem para substituir, mas para completar as possibilidades de tratamento. O ideal é que os médicos e as pessoas que vivem com a infecção possam encontrar quais são as melhores estratégias para si”, declarou Passos. Ele reforça que desigualdades regionais ainda dificultam o acesso a métodos preventivos e terapêuticos já existentes no país.

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“Essa simplificação ainda não está acessível para todo mundo. Enfrentamos barreiras de preço, distribuição e até do acesso e aconselhamento médico. Se tomarmos, por exemplo, a distribuição de PrEP oral, que é uma estratégia preventiva do SUS, gratuita. Vemos que os dados são ótimos no nível nacional, mas escondem que ainda é muito complicado consegui-la no Norte e Nordeste do nosso país. A PrEP oral não foi a bala de prata que acabou com o HIV. O lenacapavir também não será. Não há uma resposta única para lidar com esse problema. Precisamos de iniciativas que vão para muito além da tecnologia farmacêutica de ponta”, concluiu o oficial do Unaids.

Em relação à disponibilidade no mercado nacional, o lenacapavir já obteve registro emitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) restrito ao manejo de infecções causadas por HIV multirresistente. O islatravir não possui aprovação sanitária para comercialização e uso rotineiro no Brasil, e os responsáveis pela pesquisa mantêm o monitoramento do ensaio ISLEND-1 até a conclusão do cronograma total de 96 semanas.

Até o momento, não existe prazo oficial definido para a submissão formal de pedido de registro regulatório da associação islatravir e lenacapavir perante a Anvisa.

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