Mitomania: psiquiatra detalha operação do mentiroso patológico e impactos

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Homem com dedo cruzados, conceito de mentira, mentiroso - New Africa/shutterstock.com Foto: Homem com dedo cruzados, conceito de mentira, mentiroso - New Africa/shutterstock.com

O psiquiatra Antonio Egídio Nardi detalhou o funcionamento da mitomania em ensaio clínico divulgado na quarta-feira, 30 de setembro de 2026, no Rio de Janeiro. O pesquisador explicou os mecanismos psíquicos da mentira patológica, conhecida na medicina como pseudologia fantástica, e ressaltou que o quadro não constitui um diagnóstico independente nos manuais internacionais de classificação psiquiátrica.

A publicação do médico estabelece uma linha divisória entre as invenções ocasionais da rotina e a compulsão sistemática de inventar relatos. “Nessa condição, a fabricação de histórias torna-se persistente, desproporcional e, por vezes, aparentemente compulsiva. Essa condição passa a constituir uma característica marcante do funcionamento interpessoal do indivíduo”, afirmou Antonio Egídio Nardi, que preside a Academia Nacional de Medicina e leciona como professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Antonio Egídio Nardi detalha a separação entre mentira patológica e delírio

O comportamento mitômano afasta-se da mentira utilitária comum, que geralmente busca evitar atritos momentâneos ou proteger a privacidade. Na manifestação patológica, o indivíduo articula enredos contínuos em que fatos reais sofrem distorções graduais, ganhando proporções épicas para colocá-lo como protagonista de feitos extraordinários, mártir de injustiças graves ou vítima central de episódios dramáticos.

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Essa arquitetura narrativa distingue-se do quadro puramente psicótico. Segundo a análise técnica, o paciente mitômano preserva o teste da realidade quando confrontado de maneira irrefutável com os fatos. “Um aspecto importante é que isso difere do delírio porque, diante de evidências inequívocas, a pessoa reconhece que determinados fatos narrados não ocorreram”, declarou Antonio Egídio Nardi.

Estudos clínicos contemporâneos indicam que a motivação do narrador patológico costuma girar em torno da busca constante por atenção social e mecanismos de autovalorização. Por ser um fenômeno heterogêneo, a condição manifesta-se em diferentes estruturas de personalidade, o que impede a psiquiatria de rotular todo mentiroso patológico sob uma mesma categoria diagnóstica fechada.

Dia da Mentira
Foto: Dia da Mentira – Foto: aleks333/Shutterstock.com

Acomodação relacional marca a convivência diária com o mitômano

O impacto do comportamento sobre os círculos de convivência foi um dos pontos centrais da análise clínica. Com o passar do tempo, familiares, colegas de trabalho e amigos próximos passam por uma transformação profunda na forma de acolher os relatos. Inicialmente, o grupo tende a acreditar nas informações apresentadas, até que discrepâncias, contradições evidentes e dados inverificáveis começam a se acumular na rotina.

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Para conter o desgaste psíquico e frear disputas cotidianas ininterruptas, o ambiente doméstico e profissional desenvolve um mecanismo denominado acomodação relacional. Nesse estágio, o interlocutor abandona a pergunta básica sobre a veracidade do relato e passa a encarar o conteúdo apenas como uma versão pessoal sustentada pela pessoa. O grupo passa a selecionar quais afirmações exigem checagem concreta e quais podem ser toleradas sem debate direto.

A mentira patológica ganha, com isso, uma dimensão compartilhada nas relações humanas. Estabelece-se um arranjo interpessoal no qual o círculo social percebe que determinados fatos não aconteceram, mas opta por não desmenti-los abertamente para preservar a convivência e evitar custos emocionais desmedidos.

Origem médica da pseudologia fantástica começou há mais de 1 século

O estudo sistemático desse fenômeno psíquico começou formalmente há mais de 1 século na Europa, quando especialistas tentaram catalogar pacientes que apresentavam fabulações contínuas sem comprometimento intelectual severo ou perda completa da lucidez.

Em 1891, o psiquiatra alemão Anton Delbrueck cunhou a expressão técnica pseudologia fantástica para classificar indivíduos que estruturavam narrativas irreais complexas, diferenciando-os dos quadros clássicos de demência ou delírio fixo. Posteriormente, em 1905, o psiquiatra francês Ernest Dupré introduziu o termo mitomania no vocabulário médico ocidental, definindo a tendência patológica à invenção como traço central de desajustes afetivos e relacionais.

Evolução temporal e marcos dos estudos sobre a mitomania

A literatura científica consolidou marcos cronológicos fundamentais para estruturar a compreensão clínica do distúrbio:

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  • 1891: o médico alemão Anton Delbrueck descreve formalmente o quadro clínico e introduz o termo pseudologia fantástica.
  • 1905: o psiquiatra francês Ernest Dupré formula o conceito de mitomania na medicina clínica.
  • 30 de setembro de 2026: veiculação original do ensaio clínico elaborado pelo professor Antonio Egídio Nardi.
  • 1 de outubro de 2026: disponibilização institucional da íntegra da análise acadêmica no portal da Academia Brasileira de Ciências.

Recomendações terapêuticas e limites diagnósticos no DSM e na CID

As diretrizes para o manejo terapêutico de indivíduos com mentira patológica desaconselham estratégias punitivas ou embates agressivos dentro do consultório. A literatura médica salienta que transformar a consulta em uma inquirição sobre a verdade factual tende a romper a aliança terapêutica e afastar o paciente dos serviços de saúde mental.

O foco clínico indicado concentra-se no acolhimento, na criação de vínculo assistencial e no diagnóstico de outros quadros psiquiátricos associados, que frequentemente desencadeiam ou agravam a fabulação desmedida. “Compreender por que a narrativa precisa continuar pode ser clinicamente mais importante do que simplesmente demonstrar que ela é falsa”, afirmou Antonio Egídio Nardi ao defender a investigação da função afetiva que a fantasia cumpre para a pessoa.

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Ainda não há critérios consensuais nos manuais oficiais de psiquiatria, como a CID-11 da Organização Mundial da Saúde e o DSM-5-TR da Associação Americana de Psiquiatria, para catalogar a mitomania como um transtorno mental independente. A condição permanece classificada no meio médico como sintoma heterogêneo ou manifestação comportamental integrada a outros diagnósticos clínicos.

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