Terapia hormonal na menopausa diminui em 69% a perda de massa óssea
Mulheres na pós-menopausa submetidas à terapia hormonal têm 69% menos chance de apresentar baixa densidade mineral óssea na coluna lombar e no quadril. A conclusão consta em pesquisa de coorte retrospectiva apresentada no congresso anual da Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos, o ENDO 2026, com repercussão médica registrada na última sexta-feira (2).
O levantamento clínico analisou os resultados de exames de densitometria óssea realizados entre 2021 e 2025 por 387 pacientes após a interrupção definitiva dos ciclos menstruais. A taxa de baixa densidade mineral óssea atingiu 31,8% no grupo que utilizava reposição de hormônios, enquanto o índice saltou para 56,2% entre as mulheres que não faziam esse acompanhamento terapêutico.
Resultados e metodologia do levantamento clínico do ENDO 2026
- Total de participantes analisadas: 387 mulheres na pós-menopausa
- Período de realização dos exames: 2021 a 2025
- Pacientes em terapia de reposição hormonal: 129 mulheres (33% da coorte)
- Pacientes sem terapia hormonal: 258 mulheres (67% da coorte)
- Índice de perda óssea com reposição: 31,8%
- Índice de perda óssea sem reposição: 56,2%
- Redução verificada no risco de osteopenia ou osteoporose: 69%
O estudo foi conduzido pelo médico endocrinologista Diego Espinoza-Peralta, vice-presidente da Sociedade Mexicana de Nutrição e Endocrinologia e pesquisador principal da Investigación Médica Sonora. A exposição dos dados ocorreu presencialmente em Chicago, nos Estados Unidos, no dia 14 de junho de 2026, reunindo especialistas internacionais da área metabólica.
“Em termos simples: a terapia hormonal da menopausa parece proteger os ossos de forma independente, e não apenas por coincidência”, afirmou Diego Espinoza-Peralta, em tradução livre. O médico ressaltou a mudança de perspectiva científica gerada pelos números apurados na amostra hospitalar.
“Por anos, muitas mulheres evitaram a terapia hormonal da menopausa por causa de preocupações com segurança e alertas em bulas. Este estudo revisita essa narrativa e demonstra que a reposição hormonal pode ter um importante benefício adicional: a proteção da saúde óssea. Isso muda a conversa de evitar sempre que possível para reconsiderar no paciente correto”, declarou o autor principal, em tradução livre.
Ação do estrogênio sobre o esqueleto feminino
A proteção conferida pela terapêutica decorre diretamente da manutenção dos níveis de estrogênio no organismo. Esse hormônio atua como regulador do turnover do esqueleto, mediando o ritmo entre o desgaste natural da estrutura e a regeneração celular necessária para preservar a sustentação mecânica do corpo.
“Ele ajuda a manter o equilíbrio entre a formação e a reabsorção do osso. Quando sua produção cai na menopausa, aumenta a atividade das células responsáveis pela reabsorção óssea, acelerando a perda de massa óssea”, explicou a médica ginecologista Helena Hachul, do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo.
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A perda da densidade mineral intensifica-se de forma acentuada durante a transição menopáusica e ao longo dos primeiros cinco anos após a última menstruação. Esse intervalo representa o momento de maior vulnerabilidade biológica para o surgimento precoce de quadros de osteopenia, que antecedem a osteoporose severa e ampliam as chances de fraturas decorrentes de quedas simples.
A vantagem estatística de 69% a favor do grupo medicado permaneceu sólida mesmo após os pesquisadores realizarem ajustes matemáticos para anular a influência de fatores secundários. A modelagem considerou as diferenças de idade, os anos acumulados desde o início da menopausa, a carga de tabagismo, as taxas séricas de vitamina D e as comorbidades preexistentes de cada paciente.
Quem pode fazer o tratamento com terapia hormonal?
A prescrição da reposição hormonal não deve ser estendida a todas as pessoas de forma indiscriminada. As sociedades médicas estabelecem que a melhor relação entre benefícios e riscos clínicos concentra-se em mulheres com menos de 60 anos ou que estejam dentro da janela de até dez anos desde o início da menopausa, período em que os vasos sanguíneos toleram melhor a medicação.
O tratamento tem contraindicação formal para pacientes com histórico prévio ou atual de câncer de mama, episódios documentados de trombose venosa profunda, embolia pulmonar, acidente vascular cerebral, disfunção hepática em atividade ou classificação de risco cardiovascular elevado. Para essas populações, a indicação exige opções não hormonais voltadas especificamente para o metabolismo do cálcio.
Além das contraindicações formais, a comunidade médica pontua a existência de variáveis de comportamento que diferenciam quem recebe o tratamento hormonal na rotina clínica cotidiana, um aspecto que demanda cautela na interpretação definitiva de pesquisas retrospectivas.
“Existe o chamado viés de seleção: mulheres que utilizam terapia hormonal podem ter melhor acesso a acompanhamento médico, maior adesão à atividade física, alimentação mais adequada, suplementação, menor prevalência de comorbidades. Mesmo com ajustes estatísticos, sempre podem haver fatores de confusão”, disse Helena Hachul.
Histórico do estudo WHI e debates sobre segurança
O uso de medicamentos para reposição hormonal sofreu uma retração expressiva a partir de 2002 em todo o mundo. A queda ocorreu com a divulgação dos primeiros relatórios do ensaio clínico norte-americano Women’s Health Initiative, que associou a administração indiscriminada combinada de hormônios ao aumento de doenças cardiovasculares e neoplasias mamárias em mulheres mais velhas.
Embora aquele mesmo levantamento internacional já apontasse uma redução de 34% nos episódios de fraturas graves de quadril e vértebras, o temor de efeitos adversos graves afastou médicas e usuárias da intervenção por mais de duas décadas. Médicos como a ginecologista e obstetra Ruthann Devera, do MemorialCare Medical Group, localizado em Long Beach, na Califórnia, monitoram essa evolução de condutas.
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Para além de qualquer estratégia farmacológica, a manutenção da estrutura óssea ao longo do envelhecimento exige suporte não medicamentoso contínuo. A prática programada de musculação e exercícios com carga mecânica, o consumo diário balanceado de proteínas e fontes de cálcio, níveis sanguíneos adequados de vitamina D e intervenções residenciais voltadas a evitar quedas integram os protocolos terapêuticos de rotina.
Embora as conclusões parciais da pesquisa tenham sido debatidas por especialistas no encontro ENDO 2026, os resultados integrais da coorte ainda aguardam a publicação definitiva em periódico médico com revisão por pares.
