Pesquisa com enzima IP6K abre rota para remédios menos tóxicos contra a doença de Chagas

Médico, prontuário Foto: Médico, prontuário - khunkornStudio/Shutterstock.com

Pesquisadores identificaram na enzima IP6K um alvo contra o Trypanosoma cruzi, protozoário responsável pela doença de Chagas. A inibição dessa molécula impediu a reprodução do parasita em células do coração humano e abre caminho para novas opções terapêuticas contra uma enfermidade que afeta cerca de 8 milhões de pessoas no mundo.

O trabalho conjunto reuniu equipes da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Conforme os dados apresentados na terça-feira (6), a perda controlada da proteína bloqueou a diferenciação do agente infeccioso em cardiomiócitos, evitando que ele avançasse para fases destrutivas no tecido muscular cardíaco.

Edição genética e bloqueio do Trypanosoma cruzi em laboratório

Durante a fase experimental, os cientistas utilizaram técnicas de edição gênica para examinar como a supressão da IP6K afetava o comportamento do Trypanosoma cruzi. A remoção completa das duas cópias do gene causou a morte imediata dos parasitas em cultura, o que confirmou a função vital exercida pela enzima.

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Remédios, medciamentos e Pílulas
Foto: Remédios, medciamentos e Pílulas – Foto: MOLEQL/shutterstock.com

O biólogo queniano Bryan Etindi Abuchery, primeiro autor do artigo e doutorando no Instituto de Química da USP (IQ-USP), detalhou a metodologia adotada para viabilizar os testes celulares:

“Quando eram deletadas as duas cópias do gene que codifica a proteína IP6K, por meio de edição gênica, os parasitas simplesmente não sobreviviam para que os testes pudessem ser feitos nas células cardíacas. Por isso, os parasitas usados no estudo ainda tinham uma cópia desse gene”, afirmou Abuchery.

Com a linhagem parcialmente deficiente, a equipe monitorou a interação do patógeno com o tecido cardíaco humano. A pesquisadora Thaise Lara Teixeira, coautora do trabalho e professora visitante no Programa de Pós-Graduação em Imunologia e Parasitologia Aplicadas da UFU (PPGIPA-UFU), descreveu o impacto dessa escassez enzimática:

“Desenvolvemos uma versão do parasita deficiente para a proteína IP6K. Ele até entra na célula e se replica, mas com dificuldade. Sua diferenciação em formas infectantes é prejudicada, o que leva à redução das formas sanguíneas a cada novo ciclo de infecção intracelular”, disse Teixeira.

Enzima IP6K tem 25% de semelhança com a versão humana

Um aspecto central revelado pela investigação envolve a distância estrutural entre a enzima encontrada no parasita e a sua variante equivalente no corpo humano. As análises apontaram uma homologia de cerca de 25% entre as duas versões da proteína IP6K.

Essa baixa similaridade estrutural é um indicativo favorável para a indústria farmacêutica, pois permite desenhar substâncias químicas capazes de atacar a molécula do patógeno sem se ligar à proteína do hospedeiro humano, diminuindo a probabilidade de reações tóxicas severas nos pacientes.

O professor do IQ-USP e coordenador da pesquisa, Marcelo Santos da Silva, apontou o potencial da descoberta para futuros medicamentos:

“Se com baixos níveis de expressão de IP6K o parasita já fica tão prejudicado, é possível crer que, caso seja desenvolvido um fármaco que possa atuar especificamente nesta proteína, tenhamos um tratamento eficaz”, declarou Silva.

Ciclo biológico do Trypanosoma cruzi e lesões no músculo cardíaco

O Trypanosoma cruzi possui um ciclo biológico que depende de dois hospedeiros, transitando entre o inseto triatomíneo, popularmente conhecido como barbeiro, e mamíferos como seres humanos, cães e animais silvestres. No vetor invertebrado, o parasita assume as formas epimastigota e metacíclica. Esta última é eliminada nas fezes e urina do inseto durante a alimentação sanguínea, alcançando a circulação humana quando o indivíduo coça o ferimento aberto pela picada na pele.

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Ao penetrar nos tecidos, o protozoário invade as células corporais e passa para a forma amastigota, multiplicando-se até se converter na forma tripomastigota sanguínea. Essas unidades rompem a célula hospedeira para invadir novas estruturas ou ser ingeridas por outro vetor hematófago. A afinidade do parasita por cardiomiócitos desencadeia um processo inflamatório contínuo que destrói as fibras, reduz a força de contração muscular e culmina no aumento patológico do coração ao longo dos anos.

Cerca de 400 casos no Brasil e limitações dos tratamentos de Chagas

Atualmente, as únicas opções farmacológicas disponíveis na rede pública contra a infecção são o benznidazol e o nifurtimox. Descobertos na década de 1970, esses compostos têm eficácia restrita à fase aguda e desencadeiam efeitos colaterais intensos que frequentemente resultam no abandono do tratamento antes de seu encerramento.

O monitoramento epidemiológico oficial aponta os números associados à enfermidade no território brasileiro e internacional:

  • Cerca de 400 casos da doença notificados no Brasil ao longo do ano de 2025, segundo o Ministério da Saúde.
  • Estimativa de 8 milhões de indivíduos portadores da infecção em escala global, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
  • Período de 4 a 8 semanas de duração na fase aguda inicial, caracterizada pela ausência de sinais claros ou sintomas inespecíficos.
  • Índice de 20% a 30% dos pacientes em fase crônica que apresentam complicações cardíacas com risco de morte.
  • Cerca de 10% dos casos crônicos que manifestam alterações e complicações no aparelho digestivo.

Próximas etapas com a enzima IP6K e testes em leishmaniose

O estudo completo foi publicado em 14 de agosto de 2026 na revista Communications Biology, do grupo Nature, com suporte de cooperação acadêmica internacional realizada na Universidade de Cincinnati, nos Estados Unidos.

Com a comprovação inicial em cultura celular, os cientistas mantêm linhas de trabalho voltadas a desdobramentos adicionais. Abuchery investiga em seu doutorado na USP se a proteína IP6K participa diretamente dos mecanismos de reparo de DNA no parasita, o que justificaria o colapso do micro-organismo quando o gene correspondente é inativado.

Em Uberlândia, Teixeira analisa como o sistema de defesa imunológico humano reage especificamente diante das cepas de Trypanosoma cruzi desprovidas de níveis habituais da enzima. No IQ-USP, Silva conduz ensaios paralelos para verificar a relevância funcional dessa mesma molécula na sobrevivência de protozoários do gênero Leishmania.

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