O fenômeno climático El Niño apresenta probabilidade superior a 83% de atingir intensidade forte a muito forte entre janeiro e março de 2027, segundo atualização técnica divulgada pelo Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos. O órgão governamental, sediado em College Park, no estado de Maryland, indicou que o evento em desenvolvimento tem potencial para ultrapassar todos os registros de intensidade catalogados desde 1950.
“As chances continuam altas de que ocorra um evento histórico que exceda a intensidade dos eventos anteriores do El Niño, que remontam a 1950”, informou o relatório técnico publicado nesta quinta-feira (8) pela entidade meteorológica norte-americana.
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Projeções da intensidade do El Niño e estimativas da OMM
A curva de aquecimento das águas do Oceano Pacífico indica que o atual ciclo continuará em fase de fortalecimento nas próximas semanas. Especialistas apontam que a anomalia térmica deve alcançar o estágio de maior severidade nos últimos dias de 2026, mantendo reflexos prolongados sobre a circulação atmosférica global ao longo do primeiro semestre do próximo ano.
De acordo com o meteorologista-chefe internacional da AccuWeather, Jason Nicholls, a trajetória atmosférica mostra estabilidade na expansão das temperaturas marítimas. “O El Niño continua a se intensificar e deve atingir seu pico em dezembro e persistir durante grande parte da primavera do Hemisfério Norte”, declarou o especialista ao analisar os dados de monitoramento oceânico.
A Organização Meteorológica Mundial também emitiu avaliações convergentes sobre a estabilidade do evento climático. A agência multilateral vinculada à Organização das Nações Unidas calcula em quase 100% a probabilidade de que as condições características do fenômeno permaneçam plenamente ativas até fevereiro de 2027. O patamar térmico das superfícies marinhas no Pacífico equatorial segue em níveis atípicos, o que assegura a sustentação do padrão de circulação durante a transição de ano.
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Aquecimento oceânico e alterações no mercado agrícola
O El Niño se estabelece a partir do enfraquecimento contínuo dos ventos alísios na faixa equatorial do Oceano Pacífico. Em condições normais, essas correntes de ar empurram as águas superficiais aquecidas em direção ao oeste; quando os ventos perdem força, o calor se concentra nas porções central e leste do oceano. Essa redistribuição de calor altera de forma profunda a troca de energia entre o mar e a atmosfera, gerando desvios substanciais no regime regular de umidade e circulação de ar em escala planetária.
Essa desordem atmosférica resulta em anomalias severas na distribuição pluviométrica em diferentes continentes, produzindo estiagens severas em algumas regiões e temporais volumosos em outras bacias hidrográficas. A desregulação afeta diretamente os calendários de plantio e colheita nos principais polos produtores de alimentos, pressionando a produtividade das lavouras comerciais e trazendo incerteza ao abastecimento e às cotações das commodities agrícolas internacionais diante da ameaça de quebras simultâneas de safra.
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Impacto do El Niño na formação de furacões no Atlântico
A influência atmosférica gerada pelas águas superaquecidas do Pacífico também modificou de maneira incomum o comportamento dos ciclones tropicais na bacia do Oceano Atlântico Norte em 2026. A intensificação do El Niño costuma ampliar o cisalhamento vertical do vento, que consiste na variação abrupta de velocidade e direção do vento em diferentes altitudes. Esse mecanismo funciona como uma barreira física que desorganiza a estrutura vertical das tempestades em estágio inicial.
Como consequência dessa barreira mecânica, a temporada atlântica de 2026 registrou um atraso sem precedentes no surgimento de tempestades de grande porte. A primeira formação a atingir a categoria de furacão na bacia foi o Isaias, que ganhou força apenas na noite de quarta-feira (7 de outubro de 2026), rumando em direção ao norte da Costa do Golfo norte-americana após semanas de calmaria atípica no oceano.
O meteorologista agrícola Donald Keeney, da Vaisala Weather, detalhou a relação direta entre as anomalias do Pacífico e o atraso nas tempestades tropicais atlânticas. “O furacão Isaias é o primeiro furacão da temporada do Atlântico, e essa temporada muito lenta e atrasada foi, de facto, impulsionada pelo cisalhamento do vento induzido pelo El Niño”, afirmou Keeney.
Cronologia e dados de projeção do El Niño
- 1950: marco inicial da série histórica utilizada pelo Centro de Previsão Climática dos EUA para comparar a intensidade dos eventos de aquecimento.
- 7 de outubro de 2026: registro do furacão Isaias como o primeiro evento ciclônico de sua categoria na temporada do Atlântico Norte.
- 8 de outubro de 2026: divulgação da atualização diagnóstica do órgão dos Estados Unidos apontando risco superior a 83% de evento forte a muito forte.
- 1 de dezembro de 2026: previsão de início da janela de ápice térmico e intensidade máxima do fenômeno na bacia equatorial.
- 1 de fevereiro de 2027: data limite até a qual a Organização Meteorológica Mundial projeta certeza de quase 100% de persistência do ciclo ativo.
Calor extremo e projeções de mortalidade pelo Laboratório de Impacto Climático
Além dos desdobramentos operacionais sobre safras e navegação marítima, a manutenção de temperaturas globais elevadas decorrente da sobreposição do evento oceânico ao quadro de mudanças climáticas gerou alertas na área de saúde pública. Pesquisadores do Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago divulgaram estimativas que quantificam o custo humano da exposição contínua ao calor extremo associado a este ciclo extremo do El Niño.
Os cálculos desenvolvidos pela equipe acadêmica, cofundada pelo professor Michael Greenstone, da Universidade de Chicago, projetam que o calor excessivo verificado em escala global pode acarretar até 451 mil mortes excedentes em todo o mundo. A medição estatística compreende o intervalo iniciado em junho de 2026 e que se estende até fevereiro de 2027, momento em que o fenômeno ainda apresentará índices de anomalia térmica bastante pronunciados nas regiões tropicais e subtropicais.
A evolução dos índices de temperatura da água do mar continuará sob acompanhamento semanal das estações de monitoramento marítimo. O próximo relatório diagnóstico completo do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos está previsto para atualizar os parâmetros de probabilidade e comportamento atmosférico no decorrer de novembro de 2026.
