Produtos cosméticos e de cuidados pessoais causaram 42.457 atendimentos de emergência por lesões nos olhos nos Estados Unidos entre 2005 e 2024. A projeção equivale a uma média de aproximadamente 2.100 visitas hospitalares a cada ano ou cerca de seis ocorrências diárias em prontos-socorros do país.
O levantamento foi apresentado na quinta-feira (8) durante o 130º encontro anual da Academia Americana de Oftalmologia, realizado na cidade de Nova Orleans, no estado da Luisiana. O autor principal do trabalho é Aatif Syed, estudante de medicina na Universidade de Missouri-Kansas City, que avaliou os registros clínicos compilados ao longo de duas décadas para identificar os perfis de risco associados ao uso e ao contato acidental com itens de beleza e higiene.
Quais produtos cosméticos oferecem maior risco aos olhos de crianças?
Entre os pacientes menores de 18 anos avaliados no estudo, as queimaduras químicas responderam por 45,8% de todos os traumas oculares atendidos nos serviços de urgência. Esse padrão etário concentra a imensa maioria dos casos de agressão química aos tecidos oculares, visto que 83,2% do total dessas ocorrências registradas em duas décadas envolveram crianças em contato acidental com formulações cosméticas. A distribuição dos produtos apontou maior frequência para os dermocosméticos e perfumes, responsáveis por 40% dos acidentes químicos pediátricos, seguidos por cosméticos destinados a unhas, com 22%, e sprays capilares e xampus, com outros 22%.
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A falta de acompanhamento de responsáveis foi determinante nas ocorrências envolvendo a primeira infância. Nos registros referentes a crianças com menos de 5 anos de idade, 70% dos acidentes aconteceram durante a manipulação ou a aplicação dos produtos sem a presença ou a supervisão direta de um adulto.
“Para as crianças, isso significa enfatizar o armazenamento seguro e limitar o acesso sem supervisão a produtos cosméticos, particularmente líquidos e sprays”, afirmou Aatif Syed em tradução livre sobre as medidas preventivas indicadas pelos achados da pesquisa.
Crianças de até 4 anos concentram quase um quarto dos traumas oculares
Os dados revelam que crianças de até 4 anos responderam por praticamente um quarto de todos os atendimentos por traumas oculares contabilizados pelo levantamento. No total geral da amostra, a idade média dos pacientes atendidos em prontos-socorros foi de 24 anos, com expressiva predominância feminina: mulheres e meninas representaram 81,8% das vítimas que buscaram socorro médico após incidentes com cosméticos.
O local mais comum dos incidentes foi o domicílio, com aproximadamente 63% de todos os eventos acontecendo no ambiente doméstico. O autor principal da pesquisa ressaltou que a familiaridade das pessoas com esses itens costuma mascarar o perigo real que certas formulações e aparelhos representam para a visão.
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“Produtos cosméticos podem parecer de risco relativamente baixo por serem itens domésticos do dia a dia, mas quando entram em contato com os olhos, principalmente substâncias químicas ou aparelhos muito quentes, podem causar lesões significativas”, declarou Syed em tradução livre no comunicado do congresso médico.
Lesões em adultos envolvem cortes mecânicos e queimaduras térmicas
O perfil dos traumas oculares registrados em pacientes adultos divergiu de forma acentuada do padrão verificado entre crianças e adolescentes. Enquanto os menores sofreram principalmente com queimaduras de substâncias químicas, nos adultos as queimaduras químicas representaram apenas 0,5% dos atendimentos em unidades de pronto-socorro.
A maioria absoluta das lesões nos olhos de adultos consistiu em cortes, escoriações e contusões mecânicas, somando 56% das queixas registradas. As queimaduras térmicas decorrentes do manuseio de ferramentas de calor, como aparelhos de modelagem capilar, responderam por outros 22% dos atendimentos na faixa adulta. Na análise da série histórica de 20 anos, os pesquisadores constataram uma tendência de queda nos acidentes causados por ferramentas térmicas, ao mesmo tempo em que lesões provocadas acidentalmente por outra pessoa apresentaram crescimento relativo.
“Medidas simples, como armazenar produtos fora do alcance de crianças e usar aparelhos aquecidos com cuidado, podem ajudar a prevenir muitas dessas exposições”, disse Syed em tradução livre. O pesquisador complementou: “Para adolescentes e adultos, o manuseio mais seguro de ferramentas térmicas de penteado e instrumentos de cuidados pessoais pode ajudar a reduzir as lesões”.
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Dados do levantamento sobre lesões oculares por cosméticos nos Estados Unidos
- Total estimado de atendimentos de emergência entre 2005 e 2024: 42.457 ocorrências hospitalares.
- Média anual de atendimentos em pronto-socorro: cerca de 2.100 pacientes por ano.
- Proporção de acidentes dentro de casa: 63% de todos os registros analisados.
- Participação do público feminino: 81,8% de mulheres e meninas entre as vítimas.
- Idade média geral dos pacientes atendidos: 24 anos.
- Participação de crianças no total de queimaduras químicas oculares: 83,2%.
- Incidência de acidentes sem supervisão em menores de 5 anos: 70% dos casos da faixa etária.
- Tipos predominantes de trauma em adultos: 56% mecânicos (cortes, contusões e escoriações) e 22% térmicos.
Metodologia com dados de emergência do sistema NEISS
Para chegar às estimativas populacionais dos Estados Unidos, a equipe de pesquisadores analisou as ocorrências registradas no Sistema Nacional Eletrônico de Vigilância de Lesões, conhecido pela sigla em inglês NEISS. Esse banco de dados é administrado pela Comissão de Segurança de Produtos de Consumo dos Estados Unidos e coleta informações a partir de uma amostra estatística de hospitais com unidades de emergência em funcionamento em todo o território norte-americano.
Por ter sido apresentado sob o código Po532 na reunião da Academia Americana de Oftalmologia, o trabalho científico é categorizado como preliminar. O estudo ainda não passou pelo processo formal de revisão por pares nem teve sua versão integral publicada em revista científica, etapas necessárias para a validação definitiva na literatura médica. A data oficial de submissão e o periódico acadêmico previsto para a publicação dos dados completos ainda não foram confirmados pelos autores.
