Estudo confirma síndrome de Marfan em gatos pela primeira vez

7 min de leitura
Gato - Elena Kurkutova/ istockphoto.com Foto: Gato - Elena Kurkutova/ istockphoto.com

Pesquisadores liderados pela Universidade de Cornell, em Ithaca, no estado de Nova York, nos Estados Unidos, documentaram pela primeira vez casos da síndrome de Marfan caracterizados molecularmente em gatos domésticos. O estudo diagnosticou os irmãos felinos Gary e Shaggy com mutações no gene FBN1, responsável pela sustentação do tecido conjuntivo no organismo.

A investigação científica foi conduzida pela Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Cornell e pelo Instituto Baker para a Saúde Animal, com resultados detalhados na revista científica Scientific Reports. O trabalho abre precedentes para a medicina veterinária ao comprovar que os dois animais sobreviveram até a idade adulta mesmo carregando duas cópias alteradas do gene, condição que difere do padrão observado em pacientes humanos.

Confira também: Medicamentos GLP-1 atuam diretamente no músculo cardíaco e no fígado

Sintomas clínicos e longevidade dos gatos Gary e Shaggy nos Estados Unidos

gato - Elena Shishkina/Shutterstock.com
Foto: gato – Elena Shishkina/Shutterstock.com

Adotados de um abrigo nos Estados Unidos e cuidados pela tutora Nicole Desmond, os gatos Gary e Shaggy chamavam a atenção desde filhotes por apresentarem membros visivelmente mais longos do que o padrão da espécie. A investigação médica começou quando os irmãos tinham sete meses de idade e passaram por uma avaliação cardiológica depois que Shaggy desenvolveu quadros de tosse. Os exames clínicos confirmaram que ambos sofriam de dilatação da raiz da aorta, a principal artéria do corpo, e de luxação bilateral do cristalino, um deslocamento da lente intraocular que exigiu a remoção cirúrgica dos olhos dos dois animais como parte do tratamento médico.

Acompanhe: Cientistas identificam na China ave de 150 milhões de anos que não voava

Nas medições ortopédicas realizadas pela equipe, ficou comprovado que os ossos rádio e tíbia de Gary eram mais de 42% mais longos em comparação à média registrada para um gato doméstico macho de pelo curto. Apesar da gravidade das alterações cardiovasculares e oculares provocadas pela doença do tecido conjuntivo, os dois irmãos alcançaram a vida adulta sob acompanhamento veterinário. Gary viveu até os 5 anos e 10 meses de idade, morrendo em consequência do rompimento de um pseudoaneurisma da aorta, lesão que provocou tamponamento cardíaco e choque obstrutivo. Shaggy teve uma longevidade maior e chegou aos 7 anos e 2 meses de idade, quando morreu em decorrência de pneumotórax (acúmulo de ar na cavidade torácica), efusão pleural grave, coagulopatia e anemia regenerativa grave.

Alterações no gene FBN1 e diferenças da síndrome de Marfan entre gatos e humanos

Para confirmar o diagnóstico em nível molecular, os cientistas realizaram o sequenciamento do genoma completo de Gary e Shaggy, identificando que ambos carregavam duas cópias alteradas do gene FBN1, tendo herdado uma cópia de cada progenitor. Esse gene codifica a proteína fibrilina-1, substância essencial para formar e sustentar o tecido conjuntivo em vasos sanguíneos, ossos, ligamentos, pele e olhos. A mutação exata encontrada nos felinos é classificada como uma variante homozigótica na região de splicing, localizada três pares de bases antes do éxon 22. Para validar a raridade da alteração, os pesquisadores analisaram um grupo de comparação formado por mais de 1.000 genomas de outros gatos e constataram que a variante estava completamente ausente em todos eles.

Continue lendo: Lua do Caçador ganha tom alaranjado no céu no entardecer de outubro

A descoberta revelou uma diferença genética importante em relação à manifestação da doença nas pessoas. Nos seres humanos, a síndrome de Marfan tem herança autossômica dominante, o que significa que apenas uma cópia alterada do gene FBN1 basta para desencadear a patologia. Nos dois gatos analisados, a condição manifestou-se de forma homozigota, com duas cópias mutadas. Os cientistas explicaram que os animais só sobreviveram porque a variante genética era hipomórfica: ela não desativou completamente o gene FBN1, mas interrompeu parcialmente o processamento de suas instruções, processo biológico conhecido como splicing de RNA. Essa característica permitiu uma produção residual de proteína fibrilina-1 funcional, fenômeno descrito no artigo como heterozigosidade funcional.

Dados institucionais e cronologia do estudo sobre a síndrome de Marfan

O trabalho científico reuniu especialistas de diferentes centros de pesquisa internacionais para cruzar os dados clínicos e genéticos dos felinos. Abaixo estão os dados de publicação, autoria e locais envolvidos na descoberta:

  • Publicação do artigo científico: 19 de setembro de 2026, na revista Scientific Reports, periódico do grupo Springer Nature.
  • Divulgação institucional: 22 de setembro de 2026, pela Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Cornell.
  • Repercussão científica internacional: nesta quarta-feira (14), em portais de divulgação científica.
  • Instituições participantes: Universidade de Cornell, Instituto Baker para a Saúde Animal, Schwarzman Animal Medical Center (em Nova York), Universidade da Pensilvânia (Estados Unidos) e Universidade de Ghent (Bélgica).
  • Equipe de autoria: Shawna R. Cook (primeira autora), Jacquelyn M. Evans (autora sênior e professora assistente na Faculdade de Medicina Veterinária e no Instituto Baker da Universidade de Cornell) e Bart J. G. Broeckx (coautor e pesquisador colaborador).

Saiba mais: Gelo marinho do Ártico registra 10ª menor marca histórica e pode sumir no verão até 2050

Comparação histórica da síndrome de Marfan em humanos e outros animais

Registrada pela primeira vez com caracterização molecular em felinos no estudo de 19 de setembro de 2026, a síndrome de Marfan é uma condição amplamente documentada na medicina humana, afetando aproximadamente 1 em cada 4.000 pessoas. Em pacientes humanos, o diagnóstico clínico baseia-se na combinação de deslocamento do cristalino ocular (chamado tecnicamente de ectopia lentis), dilatação severa da aorta, crescimento excessivo dos membros e presença confirmada de mutação no gene FBN1.

Na literatura científica veterinária, modelos animais espontâneos dessa enfermidade são raramente relatados, embora ocorrências anteriores já tenham sido observadas em bovinos e em cães. Ao compararem os critérios médicos humanos com os quadros de Gary e Shaggy, os pesquisadores destacaram a semelhança das manifestações clínicas no artigo científico. “Descobrimos que muitas características são diretamente transferíveis para os animais, com exceções limitadas a critérios esqueléticos que diferem substancialmente entre humanos e animais domésticos”, registraram os autores no documento, em tradução livre.

Impacto da descoberta em Cornell para o diagnóstico veterinário

A identificação da mutação genética nos dois irmãos felinos fornece parâmetros inéditos para que médicos veterinários reconheçam anomalias do tecido conjuntivo em animais de companhia que apresentem problemas oculares e cardíacos combinados. “As descobertas fornecem uma base para diagnósticos veterinários aprimorados. Isso pode ajudar os veterinários a reconhecer casos semelhantes no futuro e pode ajudar a desenvolver testes genéticos”, afirmou Jacquelyn M. Evans, autora sênior do estudo.

Leia também: Missão Artemis III tem propulsores e motores do SLS montados pela NASA

A pesquisadora também ressaltou a atuação de Nicole Desmond no acompanhamento clínico de Gary e Shaggy ao longo de toda a vida dos animais. “Essa descoberta é um grande exemplo de como os tutores de animais de estimação podem colaborar com especialistas em veterinária e genética para aprender algo que possa ajudar outros animais no futuro”, declarou Evans.

Apesar do mapeamento completo do DNA dos dois gatos, o histórico genético dos pais biológicos ou de outros eventuais irmãos de ninhada de Gary e Shaggy permanece desconhecido, uma vez que os felinos foram adotados de um abrigo e seus progenitores não estavam disponíveis para a realização de exames.

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

Notícias relacionadas