Dia Mundial da Anestesia marca 180 anos da demonstração de éter por William Morton no hospital de Boston

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Anestesia - SeventyFour / shutterstock.com Foto: Anestesia - SeventyFour / shutterstock.com

A primeira demonstração pública bem-sucedida de anestesia geral com éter sulfúrico completa 180 anos nesta sexta-feira (16), data instituída internacionalmente como o Dia Mundial da Anestesia, também chamado de Dia do Éter e Dia do Anestesiologista. O marco celebra o procedimento conduzido pelo dentista norte-americano William Thomas Green Morton e pelo cirurgião John Collins Warren no Massachusetts General Hospital, em Boston, nos Estados Unidos.

Para as comemorações de 16 de outubro de 2026, a Federação Mundial das Sociedades de Anestesiologistas (WFSA, organização que reúne entidades médicas da área pelo mundo) definiu o lema “Antes, durante e depois da cirurgia”, com foco na atuação perioperatória, que engloba o acompanhamento médico do paciente desde o preparo prévio até a recuperação após o procedimento. No Brasil, a data mobiliza a Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), cujo diretor-presidente, Luis Antonio dos Santos Diego, destacou o foco na capacitação profissional. “Nosso compromisso com a segurança do paciente vai além do treinamento técnico. Estamos empenhados em formar anestesiologistas que atendam aos mais altos padrões, garantindo uma anestesia segura, eficaz e humanizada”, afirmou Luis Antonio Diego.

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Demonstração de William Morton com éter em 1846 em Boston

O procedimento que inaugurou o controle moderno da dor cirúrgica ocorreu na manhã de 16 de outubro de 1846, às 10h, no anfiteatro cirúrgico do Massachusetts General Hospital, espaço preservado até a atualidade sob o nome de Ether Dome (Cúpula do Éter, em tradução livre). Naquela manhã, William Thomas Green Morton administrou vapor de éter sulfúrico, substância química também denominada éter dietílico, por meio de um aparelho inalador oferecido ao paciente e impressor Edward Gilbert Abbott. Com a indução anestésica concluída por Morton, o cirurgião John Collins Warren iniciou a operação para retirar uma lesão tumoral, caracterizada como uma malformação vascular congênita (alteração nos vasos sanguíneos presente desde o nascimento), localizada no pescoço, logo abaixo da mandíbula do paciente, que permaneceu sem manifestar a dor aguda comum nas intervenções daquele período.

Anestesia geral - Svitlana Hulko - shutterstock.com
Foto: Anestesia geral – Svitlana Hulko – shutterstock.com

Diante de uma plateia formada por médicos e estudantes de medicina que acompanhavam a operação no anfiteatro de Boston, Warren encerrou a retirada da lesão e confirmou aos presentes que o método funcionava. “Senhores, isto não é uma fraude”, declarou John Collins Warren, em tradução livre. O episódio não chegou a ser fotografado no momento exato da operação porque o fotógrafo escalado para o registro passou mal dentro da sala cirúrgica, mas a cena foi retratada décadas depois, em 1882, em um quadro histórico produzido pelo pintor Robert Hinckley.

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Cirurgias sem anestesia e testes de Crawford Long antes de 1846

Antes da introdução dos agentes anestésicos na metade do século XIX, os procedimentos cirúrgicos representavam o último recurso médico e exigiam que o paciente permanecesse consciente e fisicamente contido enquanto a operação acontecia. A velocidade de execução do cirurgião era determinante para diminuir o tempo de sofrimento nas salas de operação, e os profissionais recorriam a métodos de baixa eficácia para tentar aliviar a agonia, como o uso de bebidas alcoólicas, ópio, plantas com efeito sedativo ou técnicas de hipnose. Embora cientistas já observassem substâncias químicas décadas antes, o conhecimento permanecia disperso entre áreas distintas sem aplicação direta e padronizada nas mesas de cirurgia dos hospitais.

O professor titular de Anestesiologia, Dor e Medicina Intensiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), José Luiz Gomes do Amaral, apontou que a falta de comunicação científica atrasou a adoção do método nos centros médicos. “Até a demonstração de Morton, havia uma compartimentalização das informações”, disse José Luiz Gomes do Amaral.

Após o resultado obtido no Massachusetts General Hospital, o cirurgião Jacob Bigelow, que presenciou a operação de outubro de 1846, enviou uma carta à Europa divulgando o sucesso da técnica. Na sequência do procedimento público, William Morton tentou registrar a patente do composto sob o nome comercial de Letheon — termo derivado da palavra grega lethes, que significa esquecimento —, mas foi obrigado pela comunidade médica a revelar que a substância utilizada no inalador era o éter sulfúrico puro, cujo uso havia sido orientado pelo professor de química Charles Thomas Jackson.

Cronologia das descobertas do éter e da anestesiologia até 2026

O caminho científico até a consolidação da especialidade médica envolveu testes químicos nos séculos XVIII e XIX e a organização de serviços dedicados no século XX:

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  • 1772/1773: o inglês Joseph Priestley descobre o óxido nitroso, substância conhecida como gás hilariante.
  • Por volta de 1800: Humphry Davy percebe as propriedades analgésicas (capacidade de aliviar ou bloquear a dor) do óxido nitroso, enquanto o físico e químico Michael Faraday nota que os vapores do éter provocam efeito semelhante.
  • 1842: o médico norte-americano Crawford Williamson Long utiliza éter com sucesso em intervenções cirúrgicas nos Estados Unidos, mas deixa de divulgar o feito imediatamente.
  • 1844: o dentista norte-americano Horace Wells experimenta a aplicação de óxido nitroso em procedimentos de odontologia.
  • 30 de setembro de 1846: duas semanas antes do ato público no hospital, William Morton realiza a extração de um dente sem dor no paciente Eben Frost utilizando inalação de éter em seu consultório em Boston.
  • 1849: Crawford Williamson Long publica oficialmente os resultados de suas cirurgias realizadas sete anos antes, após a repercussão mundial do procedimento de Morton.
  • 1939: os médicos Mario Castro de Almeida Filho, Oscar Vasconcellos Ribeiro e Ivo Lazzarini fundam no Rio de Janeiro o Serviço Médico de Anestesia (SMA), primeiro serviço profissional da área na cidade.

Formação médica na SBA exige nove anos de estudo no Brasil

Para atuar na condução de procedimentos cirúrgicos e no controle da dor no Brasil, o profissional passa por um ciclo obrigatório de nove anos de preparação acadêmica e prática hospitalar. A formação exige seis anos de graduação em Medicina, seguidos por três anos de residência médica específica na área de Anestesiologia.

A qualificação desses especialistas em território nacional é acompanhada pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia, que mantém pelo menos 125 Centros de Ensino e Treinamento em Anestesiologia distribuídos pelo país para preparar os médicos que atendem pacientes antes, durante e depois das intervenções cirúrgicas.

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Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

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