Alysson Muotri apresenta protótipo da estação espacial Haven-1

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Alysson Muotr - Arquivo pessoal/Alysson Muotri Foto: Alysson Muotr - Arquivo pessoal/Alysson Muotri

O neurocientista brasileiro Alysson Muotri, professor da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), apresentou na sexta-feira (16), na Califórnia, Estados Unidos, o protótipo da Haven-1, a primeira estação espacial comercial privada do mundo. Desenvolvido pela empresa aeroespacial norte-americana Vast, o módulo tem lançamento programado para o primeiro trimestre de 2027 e vai abrigar experimentos em órbita com minicérebros humanos e moléculas da biodiversidade amazônica para investigar o Alzheimer.

Diretor do programa de células-tronco da UCSD e do Sanford Integrated Space Stem Cell Orbital Research Center (ISSCOR), centro integrado de pesquisa espacial com células-tronco, Muotri está cotado para embarcar na missão como cientista-astronauta. Caso a viagem se concretize, ele será o primeiro cientista brasileiro no espaço, já que o primeiro astronauta do país, Marcos Pontes, tem formação como engenheiro e militar. “Esse daqui é o futuro laboratório espacial para crescimento dos minicérebros. A gente vai usar essa estrutura para acomodar os nossos minicérebros, envelhecê-los e trazê-los de volta para a Terra para fazer uma série de análises”, disse o pesquisador.

Minicérebros e moléculas da Amazônia na estação Haven-1

O experimento conduzido pelo laboratório de Muotri consiste em enviar à órbita organoides cerebrais humanos, estruturas conhecidas popularmente como minicérebros que reproduzem em escala reduzida o desenvolvimento e parte das funções do cérebro de um bebê em formação. Esses tecidos são cultivados em laboratório a partir de células-tronco pluripotentes induzidas (iPS), que são células adultas reprogramadas geneticamente para retornar a um estágio semelhante ao embrionário, de onde podem originar neurônios utilizados para investigar doenças neurológicas, o envelhecimento cerebral e a resposta a medicamentos.

Em ambiente de microgravidade, o objetivo é fazer os organoides crescerem, amadurecerem e passarem por um envelhecimento acelerado antes de retornarem à Terra para avaliação detalhada. Segundo o neurocientista, o efeito da aceleração biológica no espaço será descrito em um estudo científico previsto para sair nas próximas semanas.

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A primeira etapa de testes na nova estação terá como foco doenças neurodegenerativas, sobretudo o Alzheimer. Junto com os organoides, a pesquisa levará para a órbita moléculas extraídas da biodiversidade da Amazônia, selecionadas por povos originários em parceria com pesquisadores como o professor Spartaco Astolfi Filho, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Os cientistas vão testar se essas substâncias apresentam efeitos neuroprotetores capazes de proteger os neurônios contra danos ou tratar degenerações cerebrais.

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Como vai funcionar o lançamento da Haven-1 em 2027

Diferentemente das estruturas espaciais tripuladas enviadas ao espaço até o momento, todas construídas e mantidas por governos ou consórcios de países, a Haven-1 é um empreendimento 100% independente da iniciativa privada. Em 20 de janeiro de 2026, a empresa Vast, comandada pelo diretor-executivo (CEO) Max Haot, anunciou o início da fase de integração de sistemas do módulo e confirmou o cronograma de decolagem para os três primeiros meses de 2027.

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A estrutura subiria ao espaço em peça única a bordo de um foguete Falcon 9, da empresa SpaceX, a partir da base de Cabo Canaveral, no estado norte-americano da Flórida. Cerca de um mês após atingir a órbita terrestre baixa, o módulo receberá os primeiros tripulantes, que viajarão a bordo da cápsula tripulada Dragon (Crew Dragon), também fabricada pela SpaceX.

O modelo de negócios transforma a órbita em um endereço de locação científica. Operadoras de carga e laboratórios privados poderão contratar estadias para instalar equipamentos próprios ou de clientes em compartimentos modulares dispostos lado a lado. A estação também terá conectividade de internet de alta velocidade via laser operada pela rede de satélites Starlink, da SpaceX, marcando a primeira instalação desse sistema em uma estação espacial comercial. De acordo com o projeto técnico da Vast, o módulo orbital possui especificações e dimensões definidas para a operação comercial.

  • Capacidade máxima por missão: 4 astronautas
  • Diâmetro do módulo: 4,4 metros
  • Altura e comprimento total: 10,1 metros
  • Volume habitável interno: 45 m³
  • Volume pressurizado total: 80 m³
  • Massa da estrutura: 14.600 kg
  • Potência elétrica gerada: 13.200 W
  • Altitude orbital prevista: 425 km (com inclinação de 51,6°)

Interior da Haven-1 substitui cabos expostos por camas infláveis

O desenho interno do módulo da Vast altera o padrão visual adotado na Estação Espacial Internacional (ISS), que acumula estruturas tubulares metálicas, cabos aparentes e máquinas expostas pelas paredes. O interior da Haven-1 foi projetado com superfícies brancas e lisas, linhas contínuas e barras de apoio distribuídas pelo revestimento para que os tripulantes se desloquem flutuando em microgravidade.

O acesso principal dos astronautas ocorre pela porta de acoplamento da cápsula Dragon, instalada ao lado do setor de comunicação com a equipe em solo. Nas laterais do cilindro, junto aos armários de armazenamento, ficam as camas da tripulação, que são infláveis para manter o corpo do ocupante preso e estável durante o sono na ausência de gravidade. Para Muotri, o sistema oferece uma condição de descanso superior à disponível na ISS.

As bancadas de trabalho são compactas e contam com pontos de fixação para que o cientista opere os equipamentos sem flutuar involuntariamente, permitindo, segundo brincou Muotri durante a demonstração em San Diego, “até olhar para cima quando tiver saudades da Terra”. O pesquisador afirmou acompanhar de perto os testes de desenvolvimento do módulo e disse não ter receio de embarcar em um veículo inédito. “Estou confiante de que a Haven-1 será um sucesso”, declarou.

Histórico de envios à ISS e cortes na Nasa em 2023

Embora a presença física do pesquisador em órbita seja inédita, os organoides cerebrais cultivados por sua equipe na UCSD já foram enviados à Estação Espacial Internacional em diversas missões desacompanhadas desde julho de 2019, incluindo lançamentos em cápsulas de reabastecimento da SpaceX em novembro de 2020, julho de 2022 (missão SpaceX CRS-25) e novembro de 2023 (missão SpaceX CRS-29). No primeiro envio, em 2019, após os minicérebros permanecerem 30 dias no espaço, análises moleculares mostraram que o relógio biológico dos neurônios havia avançado o equivalente a cerca de uma década, comprovando o envelhecimento celular acelerado em microgravidade.

Em 2023, Muotri chegou a se candidatar e a ser cotado para viajar pessoalmente à ISS para conduzir os estudos com os organoides e os extratos de plantas da Amazônia. A viagem, porém, acabou suspensa em razão de cortes no orçamento da agência espacial norte-americana (Nasa) e na verba de financiamento científico do governo dos Estados Unidos.

Próximos testes da Vast na Nasa e definição do embarque

A data exata da missão que poderá levar Alysson Muotri como cientista-astronauta à Haven-1 ainda não foi definida. O embarque presencial do brasileiro depende da conclusão e da prontidão dos equipamentos de análise laboratorial que serão instalados em um trecho do módulo ainda em fase de definição técnica.

No cronograma da empresa aeroespacial, a Haven-1 servirá como prova de conceito e primeiro passo para a construção da Haven-2, uma estação maior e multimodular planejada pela Vast para suceder a Estação Espacial Internacional. Antes de enviar a Haven-1 para a base de lançamento na Flórida, a fabricante realizará a bateria de testes ambientais dos sistemas do módulo nas instalações da Neil Armstrong Test Facility, centro de testes da Nasa.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

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