Anac proíbe despachar powerbank e fixa limite de 100 Wh em voos

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carregador portátil Foto: carregador portátil - Savvapanf Photo/Shutterstock.com

Um pouso de emergência realizado por uma aeronave da Latam em Ribeirão Preto (SP) recolocou em discussão os protocolos de transporte de artigos eletrônicos na aviação comercial. O avião, que fazia a rota entre São Paulo (SP) e Brasília (DF), precisou interromper a viagem depois que um carregador portátil — conhecido como powerbank — explodiu dentro da cabine. O episódio não deixou passageiros com ferimentos graves, mas expôs o perigo do manuseio incorreto de equipamentos equipados com células de íon de lítio durante viagens aéreas.

Casos com esse perfil se repetem na aviação civil e justificam a existência de normas técnicas voltadas à redução de incidentes a bordo. No território nacional, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mantém regras específicas para disciplinar o embarque desses acessórios, conciliando o uso pessoal de aparelhos eletrônicos pelos viajantes com as exigências de proteção operacional das aeronaves.

Celular

O conhecimento prévio dessas exigências evita retenções no embarque e reduz a exposição de passageiros e tripulantes a princípios de incêndio durante a rota. A separação correta dos itens na mala e a verificação da potência nominal de cada acessório integram as medidas exigidas de todas as pessoas que embarcam em voos comerciais.

Veto ao despacho no porão e exigência de transporte na cabine

As determinações da Anac estabelecem critérios estritos para o embarque de carregadores externos e de baterias reservas nas aeronaves comerciais. A regra central veda de forma absoluta a inclusão desses artigos nas malas despachadas que viajam no compartimento de carga. Essa proibição decorre da limitação física para identificar focos de calor e combater chamas dentro do porão com a aeronave em pleno voo.

Por essa razão operacional, qualquer powerbank ou componente sobressalente de lítio precisa viajar junto ao passageiro na cabine, guardado dentro da bagagem de mão e sob vigilância direta durante todo o trajeto. Mesmo no interior da aeronave, o embarque obedece a faixas máximas de energia: unidades com capacidade nominal de até 100 Wh (watt-hora, medida que indica a energia fornecida pelo equipamento) entram a bordo livremente, sem necessidade de liberação antecipada da empresa aérea.

Autorização para modelos de até 160 Wh e conversão de medidas

Equipamentos que ultrapassam a faixa básica enfrentam controle adicional no momento do check-in e da inspeção de raio-X. Quando o carregador ou bateria reserva apresenta capacidade situada acima de 100 Wh e até o teto de 160 Wh, o transporte continua possível na cabine, mas fica restrito ao limite de duas unidades sobressalentes por passageiro. Nessa faixa intermediária, a entrada do equipamento no avião exige consulta e aprovação formal da companhia aérea antes do embarque.

Outro requisito técnico imposto pela Anac determina o isolamento físico individual de cada bateria para impedir o fechamento acidental de curtos-circuitos no interior das bolsas. O viajante pode cumprir a exigência mantendo o acessório na caixa original de fábrica, cobrindo os conectores metálicos com fita adesiva ou guardando cada peça de forma separada dentro de estojos protetores ou sacos plásticos fechados.

Embora os regulamentos aeronáuticos adotem o watt-hora (Wh) como unidade oficial de fiscalização nos aeroportos, grande parte das marcas comerciais estampa nos rótulos apenas a medida em miliampère-hora (mAh). Na conversão prática adotada como referência no setor, o limite isento de 100 Wh corresponde a cerca de 27.000 mAh, patamar energético elevado que contempla a quase totalidade dos carregadores portáteis vendidos no varejo para uso em celulares.

  • Até 100 Wh (cerca de 27.000 mAh): embarque liberado exclusivamente na bagagem de mão, sem exigência de autorização prévia da empresa aérea.
  • Entre 100 Wh e 160 Wh: transporte restrito a no máximo duas unidades reservas por passageiro, condicionado à aprovação antecipada da companhia.
  • Acima de 160 Wh ou no porão: despacho proibido nas malas de porão em qualquer faixa de potência, com exigência de proteção individual nos terminais das peças levadas na cabine.

Impactos físicos, calor excessivo e o fenômeno da fuga térmica

Ao contrário do que parte dos viajantes supõe, a pressurização interna da cabine de um avião comercial não eleva por si só o risco de explosão de uma célula de íon de lítio. Engenheiros elétricos e técnicos que atuam na área de segurança de produtos eletrônicos apontam que o colapso desses acessórios decorre de agressões externas que danificam a estrutura física do componente antes ou durante a viagem.

Quedas no chão, esmagamentos dentro da mala e pancadas fortes lideram a lista de causas de avarias, pois rompem as camadas separadoras internas da bateria e provocam curtos-circuitos imediatos. A exposição prolongada a fontes de calor é o segundo gatilho recorrente: temperaturas elevadas aceleram as reações químicas dentro do invólucro e disparam o processo chamado de “fuga térmica”, condição em que o próprio aquecimento retroalimenta a reação de forma descontrolada.

O padrão construtivo do acessório define a resistência do equipamento diante dessas condições adversas de uso. Dispositivos montados com insumos de baixo custo ou desprovidos de placas eletrônicas de bloqueio apresentam taxa de falha superior quando submetidos a recargas contínuas ou variações de tensão. Por esse motivo técnico, a aquisição de modelos fabricados por marcas identificadas e submetidos a testes oficiais integra as diretrizes de prevenção de acidentes.

Do ponto de vista físico, o volume de energia medido em Wh não altera a probabilidade de início de uma pane elétrica, mas determina o tamanho e a duração das chamas caso a falha ocorra. Quanto mais carga estiver acumulada nas células do aparelho no momento do curto-circuito, mais violenta será a combustão e maior será a dificuldade enfrentada pelos comissários de bordo para extinguir o foco dentro da aeronave.

Testes exigidos pela Anatel para homologação no mercado nacional

No comércio brasileiro, o selo de homologação emitido pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) funciona como o indicador técnico de que o acessório cumpre os parâmetros de proteção elétrica. Antes de receber a autorização de venda da autarquia, o modelo de powerbank passa por ensaios de laboratório que medem a tolerância do invólucro a variações térmicas e o funcionamento dos circuitos automáticos de corte contra sobrecarga e curto-circuito.

A compra de carregadores portáteis sem essa certificação oficial, frequentemente comercializados por valores abaixo da média do mercado, expõe o usuário a falhas graves de fabricação. Aparelhos irregulares costumam omitir sensores internos de temperatura e empregar células de lítio instáveis, combinação que favorece episódios de superaquecimento repentino durante a recarga. A recomendação técnica é checar a procedência do item e a presença do código da Anatel na carcaça antes de adquirir o produto.

Casos registrados em rotas de São Paulo, Hong Kong e Air China

As restrições aplicadas nos aeroportos respondem a uma sequência de ocorrências documentadas na aviação comercial internacional ao longo de 2025. Em março de 2025, um carregador de telefone celular entrou em combustão dentro da cabine de passageiros durante um voo em Hong Kong; na ocasião, os próprios viajantes sentados próximos ao foco utilizaram água para debelar o fogo antes que as chamas se espalhassem pelos assentos.

Cinco meses depois, em agosto de 2025, uma aeronave que decolou de São Paulo em direção a Amsterdã enfrentou um princípio de incêndio a bordo quando um powerbank pegou fogo, espalhando fumaça pelo interior do avião e mobilizando a tripulação para conter a emergência. Já em outubro de 2025, uma bateria de lítio explodiu durante uma viagem operada pela companhia Air China, episódio que também foi controlado dentro da cabine pela intervenção direta dos comissários de bordo treinados para ocorrências com materiais inflamáveis.

Verificação prévia nas companhias aéreas antes do embarque

A prevenção de incidentes a bordo começa na preparação da bagagem, antes do deslocamento até o terminal de embarque. Como cada operadora aérea pode adotar procedimentos próprios de verificação no balcão e no portão de embarque, o passageiro deve consultar as normas específicas da companhia contratada sobre o transporte de baterias e portar apenas carregadores homologados pela Anatel e sem sinais de avaria externa.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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