Japão lança sonda MMX para coletar amostras da lua Fobos em Marte

Sonda japonesa - Divulgação/JAXA

Sonda japonesa - Divulgação/JAXA

A Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (JAXA) lançou com sucesso a missão Martian Moons eXploration (MMX), projeto de exploração das luas de Marte, a bordo do foguete H3 de número 10, a partir do Centro Espacial de Tanegashima, na província de Kagoshima, no Japão, na segunda-feira, 19 de outubro de 2026. A espaçonave partiu às 16h41 pelo horário de Brasília (04h41min03s de terça-feira, 20, pelo horário padrão japonês) com a meta de coletar ao menos 10 gramas de amostras da lua marciana Fobos e trazê-las à Terra em 2031.

O veículo lançador voou conforme o planejado pela equipe de engenharia liderada por Makoto Arita, gerente do projeto do foguete H3 na agência japonesa, que é presidida por Hiroshi Yamakawa. Exatamente 71 minutos e 13 segundos após a decolagem, às 05h52 pelo horário do Japão, o controle da operação confirmou a separação da sonda e a inserção na órbita predeterminada em direção ao planeta vermelho. “Confirmamos que a sonda está em condição estável. Gostaria de agradecer a todos que apoiaram o projeto e a todos os envolvidos no lançamento do foguete”, afirmou Yasuhiro Kawakatsu, professor do Instituto de Ciência Espacial e Astronáutica da JAXA e líder da missão MMX.

Equipamentos da sonda MMX e operação do rover IDEFIX em Fobos

Com peso estimado entre 4,2 e 4,5 toneladas métricas e dividida em três módulos principais propulsão, exploração e retorno, a espaçonave japonesa vai viajar entre 10 e 12 meses até alcançar a órbita marciana em agosto de 2027. Caso cumpra todas as etapas previstas, a iniciativa será a primeira da história a orbitar Fobos, a primeira a recolher material de um satélite natural de Marte e a pioneira em realizar uma jornada de ida e volta ao sistema marciano. Nos meses iniciais após a chegada, a nave observará a lua de diferentes altitudes para mapear o relevo e definir dois pontos de descida.

Antes do pouso da estrutura principal, a sonda lançará na superfície o pequeno rover IDEFIX, veículo robótico com dimensões comparáveis às de um forno micro-ondas, desenvolvido em parceria pelo Centro Nacional de Estudos Espaciais da França (CNES) e pelo Centro Aeroespacial Alemão (DLR). O nome do equipamento homenageia o cãozinho das histórias em quadrinhos francesas “Asterix”, da década de 1960, em referência ao primeiro satélite lançado pela França. Por causa da baixíssima gravidade local, o robô cairá até o solo e deverá se estabilizar após alguns saltos para analisar as propriedades térmicas e os minerais do terreno com os instrumentos RAX e miniRAD.

Para recolher o regolito, que é a camada de poeira e rocha solta da superfície, sem que a nave flutue no ambiente de gravidade reduzida, a missão MMX utiliza dois mecanismos distintos de coleta e quatro conjuntos principais de análise científica:

  • Amostrador perfurador (coring sampler): equipamento construído pela JAXA para extrair material localizado abaixo da superfície de Fobos.
  • Amostrador pneumático (P-Sampler): sistema desenvolvido pela empresa norte-americana Honeybee Robotics, pertencente à Blue Origin, com apoio da agência espacial dos Estados Unidos (NASA), que dispara gás nitrogênio em alta pressão para levantar e capturar partículas superficiais.
  • TENGOO e OROCHI: câmeras instaladas na espaçonave para registrar o relevo detalhado e as características visuais do solo.
  • MIRS: espectrômetro projetado para identificar minerais e buscar compostos orgânicos na lua marciana.
  • MEGANE: espectrômetro de raios gama e nêutrons criado pelo Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins (APL), com participação da NASA, para medir a composição química do satélite.

Debate científico da missão MMX sobre a origem de Fobos e Deimos

O objetivo central dos cientistas com a missão MMX é resolver um impasse antigo da astronomia sobre como surgiram Fobos, a maior das duas luas marcianas, que tem cerca de 22,5 quilômetros de diâmetro e completa três voltas ao redor de Marte por dia a aproximadamente 6.000 quilômetros de altitude, e Deimos, a lua menor. Uma das teorias sustenta que os dois corpos celestes são asteroides primitivos capturados pela força gravitacional do planeta, hipótese reforçada pela aparência de suas superfícies. A segunda linha de investigação propõe que ambos se formaram a partir da aglomeração de fragmentos ejetados ao espaço após uma colisão gigante contra Marte há bilhões de anos, o que explicaria suas órbitas quase circulares.

“É uma questão intrigante porque duas linhas de evidência apontam em direções diferentes”, afirmou Tom Statler, astrofísico e cientista de programa da missão MMX na Divisão de Ciência Planetária da NASA. O pesquisador acompanhou a decolagem do foguete japonês e descreveu a reação das equipes envolvidas no projeto: “Há muita adrenalina, muita empolgação e muito ‘uau'”.

A resposta para a formação dos satélites depende da proporção de elementos voláteis ou de sinais de exposição a temperaturas extremas nas rochas que serão recolhidas. “Neste momento, não sabemos nada sobre a composição de Fobos. Temos informações sobre a mineralogia, mas não sobre a composição elementar. E, portanto, os elementos são realmente uma maneira fundamental de chegar a algumas dessas questões fundamentais”, declarou David Lawrence, investigador principal do instrumento MEGANE no Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins.

Marte, Fobos e Deimos – Divulgação/Nasa

Custos do projeto MMX, atrasos do foguete H3 e cronograma até 2031

O desenvolvimento da espaçonave no Japão teve custo de 55,3 bilhões de ienes, valor equivalente a cerca de US$ 350 milhões. O lançamento estava originalmente programado para o ano de 2024, mas sofreu um adiamento de dois anos em razão de atrasos no cronograma de testes do novo foguete H3. Com o voo de número 10 concluído na segunda-feira (19), o principal lançador japonês atingiu a marca de três decolagens consecutivas sem falhas e elevou seu índice geral de êxito para 80%.

Além da JAXA, da NASA, do CNES e do DLR, o consórcio internacional reúne a Agência Espacial Europeia (ESA), que tem Carole Mundell como diretora de Ciência, e a Agência Espacial Australiana (ASA). “O lançamento foi espetacular, e o lançador H3 da JAXA teve um desempenho fantástico para enviar a MMX rumo a Marte”, disse Elliot Sefton-Nash, cientista de projeto da missão MMX na ESA.

A participação norte-americana inclui o suporte de comunicação da rede de antenas Deep Space Network e um investimento aproximado de US$ 87 milhões até o encerramento das operações. Pelo acordo firmado entre as agências, a NASA receberá cerca de 15% das amostras trazidas de Fobos, material que ficará sob curadoria no Centro Espacial Johnson, em Houston, nos Estados Unidos. “As amostras da MMX trarão avanços científicos capazes de mudar paradigmas sobre o sistema de Marte para as próximas gerações, especialmente enquanto a NASA se prepara para enviar os primeiros seres humanos a Marte”, afirmou Nicky Fox, administradora associada da Diretoria de Missões Científicas da NASA.

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Sobre o calendário exato da operação de pouso e recolhimento de solo em Fobos, ainda não há confirmação única entre as agências parceiras, pois o cronograma da NASA aponta o início da coleta a partir de dezembro de 2028, enquanto os dados da Agência Espacial Europeia situam a etapa de descida em 2030.

Antes de deixar o sistema marciano, a espaçonave realizará sobrevoos na lua menor, Deimos, para comparar os dados coletados nos dois satélites. O módulo de retorno partirá em direção à Terra em novembro de 2030, e a cápsula com as amostras de Fobos descerá de paraquedas na Área Proibida de Woomera, no sul da Austrália, em 2031.

Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.