Celular na assistência técnica: LGPD e CDC proíbem consulta a fotos e pastas pessoais durante conserto

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Consertando celular - New Africa/shutterstock.com Foto: Consertando celular - New Africa/shutterstock.com

A entrega de um celular na assistência técnica sem senha de bloqueio para a troca de tela não concede autorização irrestrita para que funcionários consultem fotografias, documentos financeiros ou conversas privadas. O alerta consta em guia orientativo elaborado por Patrick Silva nesta sexta-feira (23), no Brasil, que detalha como a Constituição Federal, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e o Código de Defesa do Consumidor (CDC) limitam a atuação das empresas apenas aos testes técnicos estritamente ligados ao conserto.

Para explicar a aplicação das leis na prática, o material utiliza a história fictícia de um consumidor chamado Rafael, que precisou substituir o visor trincado do seu smartphone. Orientado pelo atendente a remover a senha para facilitar a checagem do novo componente, o cliente buscou o equipamento dois dias depois e identificou, no histórico de uso recente, a abertura de pastas particulares e aplicativos sem relação com o serviço contratado.

Limites da LGPD e do artigo 14 do CDC no reparo de celular

A legislação brasileira estabelece barreiras diretas contra a curiosidade ou o uso indevido de arquivos de terceiros durante a manutenção de aparelhos eletrônicos. O artigo 5º, inciso X, da Constituição Federal assegura a inviolabilidade da intimidade e da vida privada do cidadão. Mesmo quando o proprietário fornece a senha de acesso para viabilizar a verificação de falhas no toque, no brilho ou nas cores do visor, o estabelecimento não recebe permissão para vasculhar o armazenamento interno.

Na esfera do tratamento de informações digitais, os artigos 6º e 7º da LGPD determinam que qualquer operação realizada pela assistência observe os princípios de finalidade, adequação e necessidade. Já os artigos 18 e 46 da mesma lei garantem os direitos dos titulares sobre seus registros e impõem às empresas o dever de adotar medidas de segurança capazes de impedir acessos não autorizados durante a guarda do bem.

A relação comercial também é amparada pelo artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor, que fixa a responsabilidade objetiva do fornecedor por defeitos relativos à prestação de serviços. Na situação hipotética narrada no guia, o aparelho de Rafael guardava retratos de família, arquivos financeiros, históricos de bate-papo e aplicativos de bancos, itens cuja visualização não guarda justificativa técnica com a simples substituição de uma peça física.

Troca de bateria de celular
Foto: Troca de bateria de celular – Parilov / Shutterstock.com

Quais provas ajudam a demonstrar que pastas do celular foram abertas na assistência?

A simples presença de um aplicativo na aba de atividades recentes do sistema operacional não comprova, de maneira isolada, que fotografias ou documentos foram visualizados ou copiados de forma intencional por um técnico. Processos automáticos do próprio aparelho ou rotinas legítimas de diagnóstico podem gerar registros de abertura no sistema.

Diante da falta de esclarecimentos imediatos por parte da empresa sobre quais procedimentos exatos foram executados na bancada, a recomendação técnica é que o proprietário reúna elementos formais que permitam cruzar os horários de uso com o período em que o telefone esteve sob custódia da loja. A documentação recomendada para sustentar um pedido de apuração inclui:

  • Ordem de serviço: via original de entrada do aparelho na loja, contendo a descrição exata da avaria na tela, os procedimentos autorizados pelo cliente e as datas de entrega e retirada.
  • Histórico de utilização: capturas de tela que mostrem os aplicativos acionados e os respectivos horários, preservando os metadados originais no dispositivo.
  • Orientações de atendimento: mensagens de texto ou formulários impressos nos quais o funcionário solicita a remoção temporária do bloqueio de tela.
  • Relatório técnico: documento exigido junto à empresa com a listagem dos testes de hardware efetuados e a justificativa técnica para o acionamento de pastas privadas.
  • Registros de segurança: notificações de novos logins, avisos de troca de senha, acessos a contas em nuvem ou compartilhamentos não reconhecidos pelo dono da linha.
  • Protocolos de reclamação: números de registro das tentativas de contato e dos pedidos formais de preservação de imagens ou logs de atendimento na assistência.

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Modo de Manutenção da Samsung e isolamento de dados no conserto

Para evitar que o usuário precise escolher entre entregar o telefone totalmente aberto ou restaurar os padrões de fábrica antes de um reparo físico, fabricantes de tecnologia desenvolveram ferramentas nativas de bloqueio parcial. Conhecido como Modo de Manutenção ou Modo de Reparo, o recurso cria um perfil de usuário temporário e isolado, onde o profissional da bancada consegue testar câmera, som e resposta tátil sem enxergar a galeria ou os programas instalados.

O alerta sobre a necessidade de ativar essa barreira antes de deixar celulares em balcões de atendimento já havia sido reforçado por especialistas em 21 de fevereiro de 2026. Na linha de smartphones da Samsung, a ferramenta foi anunciada oficialmente em 28 de julho de 2022 e pode ser acionada diretamente no menu de Configurações, dentro da seção chamada Bateria e Manutenção do Aparelho.

Uma vez ativada a proteção, o retorno ao perfil principal do proprietário exige a leitura de impressão digital, reconhecimento facial ou digitação da senha cadastrada. “No modo de manutenção, não é possível acessar os seus dados pessoais, incluindo imagens, mensagens e contas, e apenas estão disponíveis aplicações pré-instaladas. É preciso desbloquear o seu telefone para desligar o modo de manutenção”, informou o Suporte Samsung Brasil em documentação técnica sobre a função.

Como acionar o Procon e a ANPD em caso de violação no celular

Quando o consumidor identifica movimentações atípicas no aparelho após o conserto, o primeiro passo de segurança consiste em revisar sessões ativas em redes sociais e serviços bancários, além de alterar as senhas de acesso imediatamente. Em seguida, o titular deve formalizar um pedido de explicações junto à direção da assistência técnica para entender a finalidade dos registros encontrados no sistema.

Se a empresa se recusar a detalhar os testes realizados ou se a suspeita de invasão de privacidade persistir após a resposta, o cliente pode registrar queixa fundamentada no Procon de sua região para tratar a falha na prestação do serviço. Nos casos que envolvem comprometimento ou exposição de arquivos particulares, a denúncia também pode ser encaminhada à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) ou convertida em ação judicial com o auxílio de advogado ou da Defensoria Pública.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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