Escavações em Sayburç encontram 70 estruturas de 11 mil anos na Turquia

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Escavação, arqueólogo - Gorodenkoff / shutterstock.com Foto: Escavação, arqueólogo - Gorodenkoff / shutterstock.com

Arqueólogos liderados por Eylem Özdoğan, da Universidade de Istambul, desenterraram no sítio neolítico de Sayburç, na província de Şanlıurfa, no sudeste da Turquia, um conjunto de aproximadamente 70 estruturas construídas há cerca de 11 mil anos. O balanço atualizado das escavações, divulgado na quarta-feira (21), reúne habitações e cinco edifícios comunitários que abrigam desde sepultamentos sob pisos residenciais até um relevo esculpido em rocha considerado a mais antiga cena narrativa já registrada pela arqueologia.

A peça central do assentamento foi localizada no interior de um edifício comunitário circular escavado diretamente na rocha calcária. Em um banco de pedra com cerca de 3,7 metros de comprimento, equivalente a 12 pés, os pesquisadores identificaram cinco figuras esculpidas que formam uma sequência interligada, algo distinto de outras representações pré-históricas isoladas encontradas na mesma região.

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Relevo de 3,7 metros em Sayburç e o estudo na revista Antiquity

A composição gravada no banco de pedra de 3,7 metros divide cinco figuras — dois homens, dois leopardos e um touro — em duas cenas colocadas lado a lado. Na primeira parte, um homem agachado aparece com seis dedos na mão esquerda erguida enquanto segura uma cobra ou um chocalho com a mão direita diante de um touro representado de perfil, com os chifres voltados na direção humana. Na seção adjacente, um segundo homem foi esculpido em alto-relevo segurando o próprio falo, posicionado entre dois leopardos que exibem dentes expostos e caudas curvadas para cima.

Arqueologia, arqueólogo - Masarik/shutterstock.com
Foto: Arqueologia, arqueólogo – Masarik/shutterstock.com

O registro científico que classificou a obra como a mais antiga cena narrativa esculpida em pedra foi assinado por Eylem Özdoğan e publicado em 8 de dezembro de 2022 na revista científica Antiquity, no volume 96, edição 390, sob o título original “The Sayburç reliefs: a narrative scene from the Neolithic”. Como os grupos humanos do período Neolítico (última fase da Idade da Pedra, marcada pelo início da sedentarização) não dominavam a escrita, as tradições e regras sociais dependiam da transmissão oral. Para a coordenadora das escavações, a presença marcante dessa arte pública em espaços comunitários servia para preservar a memória coletiva, reforçar valores compartilhados e manter a coesão de populações que começavam a adotar um modo de vida fixo.

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Apesar do detalhamento visual das esculturas, os pesquisadores apontam que não há provas suficientes para determinar o enredo exato criado pelos antigos moradores. Entre as hipóteses analisadas pela equipe estão o retrato de encontros reais com predadores perigosos, a realização de rituais de passagem ligados a etapas da vida ou o uso de símbolos de fertilidade e virilidade, já que representações fálicas também ocorrem em assentamentos vizinhos. “Todo mundo tem histórias diferentes, imaginações diferentes, sobre o que vê nos relevos. Acho que todos estão certos e têm algum tipo de verdade nisso, mas não é possível saber a história exata que eles estavam representando”, declarou Eylem Özdoğan, em tradução livre.

Pilares em formato de T e sepultamentos em Sayburç

Além do banco esculpido, o centro do assentamento de Sayburç preserva pilares de pedra em formato de T que apresentam braços e cintos talhados, configurando feições antropomórficas (com formas e características semelhantes às de seres humanos). Em uma das construções centrais, os arqueólogos localizaram um pilar com um rosto humano esculpido na base, posicionado em frente a um grande nicho aberto na parede e ao lado de outros pilares decorados com figuras de um leopardo e de um porco. Embora a disposição alinhada dos elementos seja considerada intencional pela líder da equipe, o significado desse arranjo permanece sem confirmação.

O trabalho de campo também revelou os costumes funerários e domésticos da comunidade que habitou o local há 11 mil anos. Dentro das casas habitadas e debaixo dos pisos, os cientistas encontraram restos humanos organizados de maneira cuidadosa, o que indica aos pesquisadores que os mortos podiam continuar sendo vistos como integrantes do núcleo familiar, além de ossos humanos misturados a carcaças de animais e uma pequena estatueta que retrata uma pessoa morta com a boca fechada, selada ou costurada. Essa combinação de ossos, somada a imagens de aves comedoras de carniça achadas na região, levantou a hipótese ainda não confirmada de práticas de excarnação, uma modalidade de “sepultamento celestial” em que os corpos eram expostos a animais necrófagos antes do enterro final.

Descoberta em 2021 e o complexo de Taş Tepeler na Turquia

O sítio arqueológico de Sayburç está situado a 60 quilômetros a leste do Rio Eufrates, na província turca de Şanlıurfa, e integra o complexo arqueológico de Taş Tepeler, expressão que significa “Colinas de Pedra” e designa um conjunto de assentamentos pré-cerâmicos datados do 9º milênio antes de Cristo, do qual também fazem parte os sítios de Göbekli Tepe e Karahan Tepe. No setor doméstico das cerca de 70 estruturas escavadas em Sayburç, a localização de bacias de pedra e de equipamentos de moagem comprova que os moradores processavam grãos no cotidiano e aponta a possibilidade de que produzissem cerveja no assentamento.

O resgate arqueológico da área teve início em 1 de janeiro de 2021, um ano após funcionários do Museu de Şanlıurfa notarem que pedras em formato de T usadas por moradores locais na construção de muros residenciais eram, na realidade, pilares pré-históricos. O monte neolítico original havia sido parcialmente encoberto no ano de 1949 pela fundação da vila moderna que também leva o nome de Sayburç, o que exigiu um planejamento de intervenção urbana para o avanço das pesquisas.

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Para liberar a escavação completa do edifício comunitário, algumas residências modernas erguidas exatamente sobre a estrutura pré-histórica foram programadas para demolição. A equipe coordenada por Eylem Özdoğan trabalha agora no projeto de transformar o sítio arqueológico de Sayburç em um museu a céu aberto, voltado à preservação das ruínas e à abertura do espaço para visitação pública.

Janderson Luiz é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024. Formação: Atleta Profissional de Futebol

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